Excerpt for Ôtahc by Damaru Kalli, available in its entirety at Smashwords




CHATÔ:

O REI DO BRASIL




FERNANDO MORAIS


Copyright © 1994 by Fernando Morais


Capa e projeto gráfico:

Hélio de Almeida


Foto da capa:

José Medeiros/Arquivo O Estado de Minas

Tratamento gráfico da capa:

Nelson Mielnik / Graphbox


Preparação:

Marcos Luiz Fernandes


Índice remissivo:

Beatriz Calderari de Miranda


Revisão:

Cecilia Ramos

Eliana Antonioli

Ana Maria Barbosa

Carmen S. da Costa



2 ª edição


5ª reimpressão



1ª edição (1994) com 1 reimpressão


Dados Internacionais de Catalogação na Publicaçãu (cie)

(Câmara Brasileira do Livro, sn, Brasil)


Morais, Fernando,1946-

Chatô : o rei do Brasil, a vida de Assis Chateau-

briand / Fernando Morais. São Paulo : Companhia das

Letras,1994.


Índices para catálogo sistemático:

7. Brasil : Jornatistas : Biografìa 420.5





1996


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Para Marina

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André Malraux alimentava a ilusão de escrever a biografia do Chi-

quinho Matarazzo, mas eu consegui demovê-lo dessa rematada bes-

teira. Acho que, como vingança, tentou escrever um livro sobre

a minha vida, mas acabou desistindo. Depois foi a vez do padre

Dutra, que cercava parentes meus pelas esquinas, em busca de in-

formações para compor um romance sobre a minha vida. Quem

também andou bisbilhotando as minhas misérias, com planos de

imortalizar-me em papel, foi a princesa Bibescu, da Romênia, edi-

tora e escritora. Os três fracassaram, mas a todos eu havia feito

uma modesta exigência: a obra teria que começar descrevendo a ce-

na em que eu e minha filha Teresa aparecíamos nus, sentados na foz

do rio Coruripe, comendo bispos portugueses, tal como fizeram

meus ancestrais caetés, quatro séculos atrás. O deslumbrante pi-

quenique, que já povoou alguns delirios meus, seria a forma ideal

de divulgar a origem do meu sangue amerindio na Europa.

Assis Chateaubriand

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1

Inteiramente nus e com os corpos cuidadosamente pintados de verme-

lho e azul, Assis Chateaubriand e sua filha Teresa estavam sentados no chão,

mastigando pedaços de carne humana. Um enorme cocar de penas azuis de

arara cobria os cabelos grisalhos dele e caía sobre suas costas, como uma

trança. O excesso de gordura em volta dos mamilos e a barriga flácida, es-

condendo o sexo, davam ao jornalista, a distância, a aparência de uma velha

índia gorda. Pai e filha comiam com voracidade os restos do bispo Pero Fer-

nandes Sardinha, cujo barco adernara ali perto, na foz do rio Coruripe, quan-

do o religioso se preparava para retornar à pátria portuguesa. Quem apuras-

se o ouvido poderia jurar que ouvia, vindos não se sabe de onde, acordes do

Parsifal, de Wagner. No chão, em meio aos despojos de outros náufragos,

Chateaubriand viu um exemplar do Diário da Noite, em cujo cabeçalho era

possível ler a data do festim canibal:15 de junho de 1556. De repente o dia

escureceu completamente e ele sentiu algo úmido e frio encostado em seu

pescoço.

O delírio fora interrompido pelo gesto do enfermeiro que esfregava um

chumaço de algodão embebido em iodo na garganta do paciente. Ao lado, o

cirurgião duvidara que aquele homem - o interno número 4695 - tivesse

67 anos, como informava a ficha do hospital. A pele alva era lisa, quase fe-

minina, sem rugas nem estrias, contrastando com o pescoço pequeno e gros-

so, típico de nordestino. Através da janela de dez por dez centímetros corta-

da no centro do lençol cirúrgico que cobria o corpo da cabeça aos pés, só era

possível ver, além do pescoço, as pontas salientes das clavículas. O rosto es-

tava inteiramente oculto pelo lençol, sob o qual se desenhava o formato da

máscara de baquelita que envolvia o nariz e a boca do paciente, dando ao

perfil a aparência de um focinho. O tecido branco cobria parte de um tubo

de borracha sanfonada que estava ligado a um tambor de aço, de cujo inte-

rior o único pulmão vivo do doente tentava desesperadamente sugar oxigê-

nio para manter o organismo funcionando. A respiração estava ficando crí-

tica, e se a cânula da traqueostomia não fosse introduzida logo, as chances de

sobrevivência do paciente seriam nulas. O indicador e o polegar esquerdos

do médico esticaram a pele abaixo do pomo-de-adão, escolhendo o anel da



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FERNANDO MORAIS


traquéia que seria secionado pela incisão. Estendida para o lado, num gesto

mecânico, a mão direita recebeu o bisturi, cuja lâmina em forma de meia-lua

brilhava à luz forte do refletor preso no teto. Quando o cirurgião encostou o

aguçado fio de navalha na garganta do doente, acabou a luz do hospital e a

sala foi tomada por completa escuridão.

- Puta que pariu! - o médico levantou a mão direita num solavanco,

como se tivesse levado um choque. - Mais um segundo e eu degolava o ho-

mem!

Indiferente ao palavrão, uma enfermeira saiu pela sala cirúrgica tatean-

do o ar em busca da maçaneta da porta:

- Vou mandar ligar o gerador de emergência, doutor.

Antes que ela conseguisse sair, a luz voltou junto com o ruído de um ge-

rador que começava a funcionar no porão da clínica. Mal-humorado, o mé-

dico dava ordens:

- Esterilizem os instrumentos de novo. Enfermeiro, me dê mais iodo,

vamos começar tudo outra vez.

Não houve tempo para começar nada. O gerador engasgou uma, duas

vezes, a luz piscou e apagou de novo. O médico desabafou, a voz filtrada pe-

la máscara de linho que cobria metade do seu rosto:

- Não é possível! Alguém rogou praga neste sujeito. Se ele escapar des-

ta, não morre nunca mais.

Inerte sobre a mesa de operação, imerso em coma profundo, jazia o jor-

nalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, um dos homens

mais poderosos do Brasil. Ele fora transportado para a elegante clínica Dou-

tor Eiras, no bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, na manhã do

dia anterior, 26 de fevereiro de 1960, sob a falsa suspeita de estar sofrendo

um infarto. O diagnóstico errado levou-o diretamente ao pronto-socorro car-

diológico. Ao tentar reanimá-lo, um jovem médico de plantão comprimiu-

lhe com tal força o tórax que uma das costelas trincou. Chateaubriand não

reagiu à agressão, nem deu qualquer sinal de que fosse recobrar os sentidos.

Assustado com a responsabilidade de ter nas mãos a vida de alguém tão im-

portante, o estagiário pediu que chamassem com urgência o próprio dono

do hospital. Meia hora depois chegaria um homem alto, magro, de nariz

comprido, aparência melancólica e ombros curvados - o médico Abrahão

Ackerman, um dos sócios da clínica e o mais famoso e festejado neurocirur-

gião brasileiro.

Ackerman cruzou cabisbaixo a pequena multidão de repórteres, políti-

cos e mulheres elegantes que se amontoavam nos jardins em busca de notí-

cias do ilustre moribundo. Atravessou sozinho a recepção, sumiu em uma

porta e minutos depois reapareceu vestido de guarda-pó branco, levando na

mão direita uma maleta de couro negro. Caminhou até o setor de cardiolo-


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


gia e já encontrou Chateaubriand cercado por uma dúzia de médicos e en-

fermeiros. Sem cumprimentar ninguém, ordenou:

- Tirem a roupa dele.

Enquanto os enfermeiros se esforçavam para mover aquele corpo iner-

te e despi-lo do terno de linho branco, Ackerman tirou da malinha um pe-

queno instrumento de metal brilhante, como uma colher de café de cabo des-

proporcionalmente longo. Deu dois passos até a cama e iniciou um exame

clínico sumário. Ao abrir as pálpebras do doente, deparou com duas pupilas

baças que pareciam anunciar que aqueles olhos jamais veriam de novo o que

quer que fosse. Mexeu a própria cabeça alguns centímetros para o lado, pa-

ra permitir a incidência da luz do refletor sobre os olhos opacos,arregalados

por seus dedos. Os cantos da boca de Ackerman caíram, dando à atenta e si-

lenciosa platéia o primeiro indício de que a coisa ali não ia bem. Deu um pas-

so, parou diante dos joelhos de Chateaubriand e martelou de leve sob cada

uma das rótulas com o instrumento de metal, testando os reflexos: nada. Ne-

nhum músculo se movia, nada respondia ao estímulo. Tirou um estetoscó-

pio da maleta, fechou os olhos como se aquilo o ajudasse a ouvir melhor e

auscultou o peito pálido do jornalista em vários lugares. Voltou à mesa late-

ral e olhou radiografias e papéis com resultados de exames. Com o ar cada

vez mais preocupado, agachou diante da sola dos pés do doente e passou a

dar batidas suaves na junção dos dedos com a planta dos pés, horizontal-

mente, na expectativa de que, como acontece com os macacos e os bebês re-

cém-nascidos, os dedos agarrassem instintivamente o estilete roliço. Tentou

em vão uma, duas, várias vezes, ora num pé, ora no outro. Derrotado pela

inércia do corpo, Ackerman pôs-se de pé e, grave, anunciou o diagnóstico:

- Infelizmente não foi um infarto. Ele apresenta sinal de Babinski nos

dois pés. Isso significa que o doutor Assis Chateaubriand sofreu uma lesão

neurológica grave, provavelmente uma trombose dupla, que afetou seu cé-

rebro bilateralmente. Tudo indica que ele esteja tetraplégico. O edema pare-

ce ter provocado também um distúrbio respiratório profundo: um dos pul-

mões já não funciona. Ele não vai sobreviver.



Os raros amigos íntimos e os auxiliares mais próximos de Chateau-

briand já suspeitavam, nos últimos meses de 1959, que sua saúde não ia bem.

Exímio remador e nadador, avesso à bebida e aos cigarros - que detestava

-, gabava-se às gargalhadas de ter uma "saúde muar ". Em setembro daque-

le ano, no entanto, ele surpreendera a todos com um gesto que pareceu um

presságio do que lhe aconteceria cinco meses depois: para espanto generali-

zado, assinou uma escritura pública doando a 22 empregados 49% do con-

trole acionário do maior império de comunicações jamais visto na América


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FERNANDO MORAIS


Latina, os Diários e Emissoras Associados. A imprensa internacional noti-

ciou que um "milionário excêntrico" havia dado um conglomerado de no-

venta empresas de presente a trabalhadores: dezenas de jornais, as princi-

pais estações de televisão, 28 estações de rádio, as duas mais importantes

revistas para adultos do país, doze revistas infantis, agências de notícias,

agências de propaganda, um castelo na Normandia, nove fazendas produti-

vas espalhadas por quatro estados brasileiros, indústrias químicas e labora-

tórios farmacêuticos, estes encabeçados pelo poderoso Schering. Dias antes

do anúncio da partilha ele, que nove anos antes tinha sido o pioneiro na ins-

talação da televisão na América Latina, inaugurara a Tv Piratini, em Porto

Alegre, a sexta de sua cadeia e a primeira do Cone Sul. A colossal rede de co-

municações se estendia do alto do rio Madeira, nos confins da selva amazô-

nica, até Santa Maria da Boca do Monte, nas vizinhanças do Uruguai. Para

alguns, a doação de um patrimônio tão valioso a empregados era "mais uma

loucura do Chatô", como era conhecido. Outros imaginavam que, vendo a

morte se aproximar, Chateaubriand decidira se antecipar ao destino e resol-

ver em vida o problema da sucessão nas suas empresas.

Embora ele jamais admitisse ter qualquer problema de saúde, os amigos

comentavam discretamente, entre si, que os sintomas de distúrbios se torna-

vam cada vez mais freqüentes. No começo de fevereiro o jornalista Carlos

Castello Branco, colunista de sua revista O Cruzeiro, cruzou com o patrão na

ante-sala da diretoria do Banco Nacional de Minas Gerais e ouviu o comen-

tário do dono do banco, o mineiro José de Magalhães Pinto:

- Está acontecendo alguma coisa com o Chateaubriand. Ele engordou

muito ultimamente e está com um ar meio aparvalhado. Na idade dele, isso

pode ser um mau sinal.

A amiga paulista Maria da Penha Miiller Carioba chamou a atenção do

jornalista mais de uma vez para o inchaço no rosto, os esquecimentos imper-

doáveis em alguém de memória tão atilada e a repetição desconcertante de

um antigo cacoete: os cochilos em público. Ao longo da vida, espetáculos

teatrais e discursos solenes sempre funcionaram como sonífero infalível para

Chateaubriand, que costumava deixar de sobreaviso Irany, o fiel secretário

particular que ele arrastava para onde fosse, a fim de evitar vexame maior:

- Enquanto for apenas um cochilo, deixe-me dormir em paz que eu

acordo logo. Quando eu começar a roncar muito alto, chute minha canela

sob a mesa.

Agora, entretanto, ele ressonava ao despachar com auxiliares, cochilava

durante a assinatura de contratos importantes, já dormira até no meio de

uma audiência com o presidente da República. Interrompia grosseiras des-

composturas nos subalternos com o queixo enfiado no peito, olhos fechados,

roncando - à sua frente, surpreso, o funcionário não sabia se ia embora ou

se esperava de pé até que o patrão acordasse para encerrar o sermão. Depois


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


vieram as vertigens. Em ambientes abertos ele andava normalmente, mas os

espaços fechados, estreitos, faziam-no caminhar como um bêbado. Para ven-

cer os quinze metros que iam do seu caótico gabinete ao elevador do prédio

de O Jornal, na rua Sacadura Cabral, no centro do Rio de Janeiro, perdia o

prumo e camboleava, quase trombando nas paredes. Os que suspeitavam

de problemas circulatórios ou vasculares e se atreveram a aconselhar uma

visita ao médico tiveram o desprazer de ver um bicho raivoso. Nesses mo-

mentos ele se transtornava. Rangia os dentes com tal violência que o ruído

chegava a incomodar o interlocutor; sapateava os pequenos pés no chão e

berrava palavras metralhadas com um sotaque nordestino tão carregado que

poucos entendiam o que dizia. Aí também era possível conhecer outro ses-

tro peculiar - quando queria agradar, adoçar, o tratamento era "vosmecê".

Para ofender, "senhor" ou "senhora", sempre:

- O senhor se meta com a sua vida. Não preciso de médicos e muito

menos de conselhos.


Reconhecia a grosseria e recuava às gargalhadas:

- Estou muito bem, imagine. Quem pode atestar minha boa saúde são

as mulheres. As mulheres! Não se preocupe, eu vou morrer no ar, vou explo-

dir dentro de um avião, em pleno ar!

Indiferente às advertências, seguia como se nada o ameaçasse. Dividia

o tempo entre a embaixada do Brasil em Londres - cargo para o qual havia

sido nomeado pelo presidente Juscelino Kubitschek no final de 1957 - e o

comando de seus negócios no Rio e em São Paulo. Para desconforto do mi-

nistro das Relações Exteriores, seu velho amigo Horácio Lafer, o tempo que

passava no Brasil era infinitamente maior que o dedicado à embaixada. Al-

tos funcionários de carreira do Itamaraty, inconformados com a entrega de

um dos mais importantes postos da Chancelaria a um estranho à corporação,

eram os primeiros a ironizar seu desempenho:

- Quem somar os dias que Chateaubriand passou em Londres nesses

três anos descobrirá que na verdade ele é embaixador do Brasil na Inglater-

ra há apenas três meses - debochavam -, mas o Foreign Office prefere as-

sim. Estando no Brasil ele causa menos constrangimentos à Chancelaria bri-

tânica.

Sua impaciência em permanecer na Inglaterra o tempo exigido pelo car-

go fez com que, sendo ele o embaixador de direito, o posto fosse exercido de

fato pelo ministro-conselheiro Antônio Borges Leal Castello Branco, irregu-

laridade freqüentemente denunciada pelos jornais que lhe faziam oposição.

Chateaubriand dedicava a estas e outras críticas o mais olímpico desprezo.

No máximo, repetia o clichê:

- Isso é coisa de comunistas, de índios botocudos. Gentinha atrasada,

esses jornalistas brasileiros. Pensam como africanos...


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FERNANDO MORAIS


Por mais tentadores que fossem os encantos da "Corte de Saint James",

como ele se referia à Inglaterra, era a sedução exercida pela política brasilei-

ra que o atraía permanentemente para o eixo Rio-São Paulo. Sobretudo na-

quele final de 1959: no ano seguinte haveria eleições presidenciais e em pou-

cos meses seria inaugurada a chamada "obra do século "- Brasília, a nova

capital brasileira, uma cidade nascida do nada, construída no meio do mato

em três anos por Kubitschek. Mesmo sendo devedor ao presidente por sua

nomeação para um dos mais cobiçados empregos do Brasil, Chateaubriand

tornou-se um adversário público da mudança da capital. Ainda que permi-

tisse a seus jornais cobertura jornalística simpática ao empreendimento, ele

pessoalmente, em artigos assinados, era implacável nas críticas ao presiden-

te, a quem chamava de "o faraó Kubitschek". Alheio à ingratidão, Juscelino

mantinha-o em Londres. Era um jogo que interessava a ambos: ter como em-

baixador na Inglaterra um ácido crítico de sua obra mais importante soma-

va pontos à imagem que Kubitschek cultivava com carinho especial - o pre-

sidente queria passar à história como um democrata, um estadista generoso,

que não guardava ressentimentos pessoais. Chateaubriand, por seu lado,

alimentava o mito de que seus jornais podiam defender posições opostas às

do dono - muito embora essa aparente liberalidade editorial escondesse uma

velha tática que ele adotava com habilidade havia meio século: acender uma ve-

la para cada santo e, assim, garantir ao seu império sempre uma porta aber-

ta em cada lado.

Mesmo tendo jurado, de maneira teatral, jamais pôr os pés na futura ca-

pital do Brasil, à medida que se aproximava a data da inauguração ele foi

mudando de posição, argumentando que o mal maior - a construção - já

estava feito e agora não restava outra alternativa senão ocupar a cidade. No

fim do ano já era um defensor de Brasília. Na noite de Natal, enquanto ves-

tia o smoking para ir a um jantar da alta sociedade carioca, brigou com seu

amigo e principal repórter, David Nasser, exatamente porque o jornalista

atacara a nova capital em artigos publicados na revista O Cruzeiro:

- Todo mundo já reconhece a grandeza de Brasília, de Furnas, de Três

Marias. Só você insiste em ser contra, turco maldito. Só você, com esse seu

eterno pessimismo. Por quê? Por que não muda de idéia, como eu mudei?

- Porque tenho a minha opinião.

- Opinião? Se você quer ter opinião, compre uma revista.

- Se o senhor está precisando de um jornalista sem opinião, compre um

de salário mínimo. Eu me demito.

Chateaubriand largou sobre a cama a camisa nova, da qual catava alfi-

netes, e bateu carinhosamente no ombro do empregado:

- Não faça uma coisa dessas. Um louco como o Juscelino não merece o

fim da nossa amizade. Estou lhe pedindo, por favor.


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


Nasser sabia que aquela conversa era uma espécie de jogo não combina-

do entre os dois. Ele se gabava de ter sido anti-Dutra quando o patrão era

dutrista, anti-Vargas quando Chateaubriand defendia a permanência de

Vargas, e agora atacava Kubitschek em pleno idílio do chefe com Juscelino.

David Nasser ficou. Semanas depois Chateaubriand sairia a público para de-

fender o presidente da "campanha pertinaz" que lhe movia O Estado de S.

Paulo, que ele passara a chamar ironicamente de "o porta-voz do esquerdis-

mo udenista" :

- O Estado agora deu de negar tudo o que a administração Kubitschek

tem promovido pelo progresso do Brasil. Se alguém nesta terra tomasse a sé-

rio os vaticínios desse jornal, o abismo já haveria tragado este país. A sorte é

que os leitores olham os articulistas do Estado como uma fauna delirante, re-

crutada entre o que o paroxismo partidário tem de mais doentio.

Se Assis Chateaubriand estava mal, como suspeitavam seus amigos, is-

so não transparecia em seus escritos e muito menos em sua febril atividade

política. Quando foi nomeado embaixador em Londres, tentou em vão man-

ter a cadeira de senador pelo estado do Maranhão, embora a Constituição

fosse clara quanto à ilegalidade de alguém ocupar simultaneamente os dois

cargos. Assumiu em Londres sem ter renunciado ao mandato parlamentar,

que acabou sendo extinto pela Mesa do Senado. Mas continuou fazendo po-

lítica como se ainda fosse senador. O mesmo Kubitschek que ele defendera

semanas antes era insultado nos primeiros dias de 1960 nas páginas de seus

jornais. "Em vez de perturbar a vida da Brazilian Traction, que tanto tem fei-

to por este país", escreveu, "o presidente deveria se dedicar a arranjar titica

de galinha para adubar nossos cafezais. Trabalhe duro, forte e feio em titi-

ca de galinha, presidente, que é o melhor que pode haver em matéria de es-

terco para a recuperação dos nossos cafezais." As vésperas da trombose, cha-

mava Kubitschek de "pateta alvar ' porque o presidente prometera pôr fim

à condição do Brasil de fornecedor de matérias-primas para os países indus-

trializados:

- Nesse ponto, minhas divergências com o presidente Kubitschek sem-

pre foram as maiores e mais profundas. Por toda parte, na Inglaterra, me

apresento com orgulho como produtor de algodão, café, milho, arroz e ma-

mona. Se depender de mim, o Brasil continuará por mais trinta anos como

produtor preferencial de matérias-primas.

Exageradamente elegante, Kubitschek responderia ao artigo malcriado

com um convite para o jornalista ir a Brasília, ainda não inaugurada, partici-

par da recepção que o governo ofereceria no Palácio da Alvorada ao presi-

dente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, que ali iniciaria uma viagem

oficial de quatro dias pelo Brasil. A deferência era completa: na manhã de

terça-feira, 23 de fevereiro, Chateaubriand embarcou no avião presidencial

em companhia da primeira-dama, Sarah Kubitschek, com destino à futura


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FERNANDO MORAIS


capital. No avião ia também um velho amigo seu, o banqueiro Walther Mo-

reira Salles, então embaixador do Brasil em Washington. Dias antes, ao che-

gar ao Brasil para preparar a viagem de Eisenhower, Moreira Salles lera uma

notinha em O Jornal, certamente escrita por Chateaubriand, em que era cita-

do como "dono da segunda fortuna do Brasil". Mineiro discreto, avesso a

coisas desse tipo, ele aproveitou a viagem para cobrar do amigo a referência

provocadora:

- Chateaubriand, por que você escreveu aquela bobagem? Você sabe

que nem é verdade e sabe também que eu não gosto dessas coisas...

Ele admitiu o crime e, sem risos, revelou que a causa era a informação

que chegara a seus ouvidos de que o Moreira Salles, o sólido banco do em-

baixador, andara arranjando dinheiro para o jornal Última Hora, de seu ar-

quinimigo Samuel Wainer:

- Foi só uma advertência, Walther. Você sabe que neste país há dois

homens de quem eu tenho ciúmes como se fossem mulheres: você e o Eugê-

nio Gudin. E você anda me corneando com o Samuel Wainer.

Ao chegarem a Brasília, um aguaceiro desabava sobre a cidade - e foi

com a barra das calças salpicada de lama que Chateaubriand almoçou com

o presidente e o general Juraci Magalhães, governador da Bahia. Às duas da

tarde, Kubitschek convidou os dois para o acompanharem na saudação que

faria pelo rádio do helicóptero presidencial a Eisenhower, cujo avião já se

aproximava da cidade. O presidente estava extremamente cordial:

- Chatô, apesar da chuva o vôo vai permitir que você veja o lago

em toda a sua extensão, e lhe dará uma boa perspectiva da cidade. Venha co-

nosco.

No pátio externo do palácio o coronel-aviador Múcio Scorzelli, piloto do

helicóptero, informou que um dos dois convidados teria de ficar em terra,

pois o aparelho não comportava quatro passageiros. Kubitschek discordou:


- Se só dois podem embarcar, coronel, leve o Juraci e o Chatô. Eu sigo

de carro para a base aérea e aguardo o presidente Eisenhower lá.

E dirigindo-se a Chateaubriand:

- Você será o primeiro brasileiro a cumprimentar o presidente dos Es-

tados Unidos. Saúde-o em meu nome.

Chateaubriand cumpriu emocionado - num inglês com forte acento

paraibano - a missão que lhe fora atribuída pelo presidente e, de quebra, foi

colocado na primeira fila das autoridades que receberam Eisenhower na ba-

se aérea. Passou o resto da tarde na casa de Israel Pinheiro, diretor da Nova-

cap, a estatal encarregada da construção da cidade, deliciando-se com um de

seus passatempos prediletos, uma criação de beija-flores em cativeiro. Saiu

de lá e visitou os dois prédios que suas empresas construíam em Brasília pa-

ra a instalação do Correio Braziliense e da Tv Brasília. À noitinha foi ao hotel,

tomou banho e vestiu-se com o apuro que a recepção exigia: apesar do calor


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CHATÔ, O REI DO BRASIL

infernal que fazia no Planalto Central, vestiu um terno preto de lã inglesa,

enfiou na cabeça um chapéu gelot e tocou para o Palácio da Alvorada. Ten-

do recusado o carro oficial que Kubitschek pusera à sua disposição, passou

o dia montado em um estropiado jipe da reportagem dos Associados, o mes-

mo que agora o levava para jantar com o presidente dos Estados Unidos.

Um inusitado contingente de policiais brasileiros e americanos havia si-

do mobilizado para garantir a segurança de Eisenhower no Brasil. No Rio de

Janeiro temiam-se hostilidades por parte da União Nacional dos Estudantes,

a uNE, em apoio à revolução cubana. O governo paulista, por sua vez, anun-

ciara que 7 mil policiais civis e militares estariam de prontidão nas ruas da

cidade no dia 25 para manter a ordem durante as seis horas em que o presi-

dente Eisenhower permanecesse em São Paulo, onde só o governador e mais

ninguém - jornalistas inclusive - poderia chegar a menos de quinze me-

tros do visitante. Nem a futura capital federal - na realidade apenas um gi-

gantesco canteiro de obras - ficou a salvo do rigor imposto pela segurança

norte-americana. A caminho do palácio Chateaubriand pôde ver soldados e

policiais à paisana espalhados por prédios em obras, escondidos sob viadu-

tos inacabados, falando em radiocomunicadores portáteis atrás de moitas de

capim. No portão onde terminava a alta grade de arame que cercava o palá-

cio havia soldados do Exército armados de metralhadoras, fuzileiros navais

norte-americanos, policiais espalhados por todos os cantos. O jipe não pôde

passar. Um policial brasileiro aproximou-se e ordenou que Chateaubriand

descesse e exibisse sua credencial. Sem capa ou guarda-chuva que o prote-

gesse, ele já saiu do veículo indignado:

- Eu nunca carreguei um documento em toda minha vida! Sou o Assis

Chateaubriand, embaixador do Brasil na Inglaterra e diretor dos Diários As-

sociados!

Um agente americano que ouvia a conversa se intrometeu:

- Imprensa? Não entra. Este é um jantar privativo. Retire-se.

Colérico, o que piorava ainda mais seu inglês, Chateaubriand berrava:

- Não se atreva, seu moleque, não se atreva! Sou convidado do presi-

dente da República. Fui o primeiro brasileiro a saudar o presidente Eisen-

hower hoje. Me dê licença que vou entrar. Tenho pressa.

Podia ser quem fosse, mas sem identificação não entrava. Chateau-

briand perdeu a paciência. Gritou palavrões ininteligíveis em português e

inglês e decidiu ir embora dali. Quando subia no jipe alguém veio do palá-

cio em seu socorro. Era o seu velho amigo coronel Vernon Walters, membro

do staff militar de Eisenhower, acompanhado do chefe da Casa Civil da Pre-

sidência da República, José Sette Câmara. A notícia do tumulto na portaria

chegara aos ouvidos de Juscelino e os dois estavam ali para desfazer o equí-

voco. Contrafeito, Chateaubriand aceitou entrar apenas para cumprimentar

os dois presidentes. Inventou uma desculpa para recusar o jantar, deixou ra-


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FERNANDO MORAIS


pidamente o salão palaciano, subiu no jipe e tocou para o aeroporto. Embir-

rado com a desfeita, nem sequer passou no hotel para pegar a mala e deci-

diu não retornar ao Rio no Viscount presidencial. No improvisado balcão da

Panair retirou um dos dois bilhetes que estavam sempre reservados em seu

nome em todos os vôos da empresa - domésticos e internacionais - e em-

barcou de volta para o Rio. Minutos após a decolagem do Constellation, per-

guntou à aeromoça em que ponto da viagem já se encontravam. Ao ouvir a

resposta, pediu folhas de papel, baixou a mesa do encosto do banco diantei-

ro, enfiou os dedos no bolsinho superior do paletó, tirou um toco de lápis,

lambeu a ponta do grafite e iniciou, pela última vez, um ritual diário que já

durava meio século - escrever à mão o artigo do dia seguinte, datando-o do

local onde se encontrasse: "Bordo do Bandeirante da Panair do Brasil

(entre Brasília e Dores do Indaiá, Minas Gerais) - 23 de fevereiro".



A luz voltou definitivamente ao hospital logo depois dos dois blecautes

e a cirurgia pôde ser concluída com êxito - quer dizer, a cânula foi introdu-

zida sem maiores problemas na traquéia, embora o paciente permanecesse

em coma. Desde o dia anterior os médicos ocultavam da opinião pública a

gravidade do quadro divulgando boletins oficiais que falavam apenas em


"crise hipertensiva" , mas já se sabia que Chateaubriand estava condenado.

Para manter as aparências, sua rede de jornais havia publicado, depois do

texto escrito no avião, dois artigos velhos, localizados em gavetas da reda-

ção: "A juriti de Mayfair ', escrito em setembro do ano anterior, e "A revolu-

ção da água no México e na Índia", feito dez dias antes em sua fazenda Rio

Corrente, no interior de São Paulo. Apesar do sigilo, notícias de seu estado

real circulavam por todo canto. A clínica Doutor Eiras, um vasto conjunto de

casarões de dois pavimentos cercados por palmeiras e árvores frondosas,

tornara-se pequena para receber tanta gente. A informação bateu em Lon-

dres, e a primeira visita ilustre a aparecer na clínica foi o embaixador britâ-

nico no Brasil, Geoffrey Wallinger, trazendo duas mensagens. A primeira

era do secretário de Estado para Assuntos Estrangeiros, Selwyn Lloyd. Em-

bora a diplomacia britânica visse com alívio a perspectiva de que Chateau-

briand deixasse a embaixada em Londres, Wallinger simulou emoção ao

chegar ao hospital e, britanicamente, transmitiu "sinceros votos de que sua

saúde possa ser recuperada brevemente". A outra mensagem, disse o embai-

xador aos repórteres, vinha "de minha graciosa soberana, a rainha Elizabeth

II". Preocupada com as notícias que recebera em Buckingham, sua majesta-

de enviava ao embaixador brasileiro, "em meu nome e no do povo da Co-

munidade Britânica, votos do mais pronto restabelecimento". Para produzir

tão escassas palavras, o gabinete real pedira à embaixada britânica no Rio

que enviasse um informe ao Foreign Office com um resumo da situação em


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


que Chateaubriand se encontrava. No extenso documento que Londres rece-

beu, redigido e assinado pessoalmente por Wallinger, o embaixador britâni-

co ressaltava a importância política do doente, que era tratado, com surpre-

endente intimidade, por "Chateau":

Sua enfermidade tem sido estampada nas manchetes de todos os jornais e vei-

culada em todas as emissoras de rádio do país, e o interesse geral que o seu es-

tado de saúde desperta dá uma medida da influência colossal que ele exerce no

Brasil. Conversei com muitas pessoas a respeito de Chateau - com seus amigos

e com seus implacáveis inimigos -, e o denominador comum entre os seus co-

mentários foi que, se ele fosse afastado do panorama brasileiro, esse panorama

inevitavelmente sofreria enormes transformações. Um industrial muito influen-

te fez os seguintes comentários, os quais correspondem a uma espécie de avalia-

ção racional do homem: - Chateau é respeitado, mas com o tipo de respeito en-

gendrado pelo medo e não pela afeição.

No decorrer dos últimos anos, parte de sua antiga impetuosidade em ques-

tões políticas foi atenuada, e sua influência na política local tem sido, de modo

geral, salutar. Nem o presidente nem a oposição podem ignorá-lo, e se hoje te-

mos pessoas como Horácio Lafer e Sebastião Paes de Almeida no governo, e um

homem como Walther Moreira Salles como embaixador em Washington, a res-

ponsabilidade cabe a Chateau. Esses não são os homens que Juscelino e Augus-

to Frederico Schmidt gostariam de haver colocado nesses postos; porém, fazer

de Chateau um inimigo teria sido por demais perigoso, até mesmo para o go-

verno de fato no poder. A desaparição deste personagem deve, por conseguin-

te, causar um enorme impacto no país.

O presidente Juscelino Kubitschek aparecera em pessoa no fim da tar-

de, após determinar que sua mulher, Sarah, e o vice-presidente da Repúbli-

ca, João Goulart, fizessem visitas diárias em seu nome. Dois funcionários dos

Diários Associados foram encarregados de receber e transformar em notícia

os 5 mil telegramas que haviam chegado até então de todas as partes do

mundo com votos de pesar pela tragédia que se abatera sobre o jornalista.

Um grupo de elegantes senhores com aparência de estrangeiros apareceu à

tarde e foi imediatamente cercado pelos repórteres que imaginavam tratar-

se de médicos vindos do exterior para assistir o doente, ou membros da co-

mitiva de Eisenhower. Houve certa decepção quando se identificaram: era a

diretoria do Centro Europa Livre, uma associação anticomunista de antigos

dirigentes políticos do Leste europeu apeados do poder pelos socialistas de-

pois da guerra: Jan Reisser, ex-ministro tcheco; Alexandre Nicolaef, ex-

ministro da Bulgária; Peter Olins, ex-ministro da Letônia; Frikas Meiras,

ex-ministro da Lituânia; e Tadeus Skowronski, ex-ministro da Polônia. A

pouca familiaridade com a língua portuguesa - ou apenas um ato falho-

levou Reisser, o presidente do Centro, a cometer uma gafe com os jornalis-

tas: na saída do hospital, disse que estava ali "para apresentar os pêsames à

família desse gigante da luta anticomunista". Os europeus eram espiados a


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FERNANDO MORAIS


distância por um grupo de desafetos: a direção da Associação dos Carrega-

dores de Malas do Aeroporto de Congonhas, de São Paulo, ligada aos comu-

nistas, que fora ao Rio visitar o passageiro que durante longos anos lhes

garantira as mais generosas gorjetas. O governador de Nova York, Nelson

Rockefeller, telefonara duas vezes aos médicos pe.dindo notícias do amigo

doente. Telegramas vindos de câmaras municipais de todo o país anuncia-

vam sessões solenes em homenagem ao enfermo e a aprovação de leis dando

o nome dele a ruas e praças. Antecipando-se à morte, algumas cidades comu-

nicavam ter dado a Assis Chateaubriand "o título póstumo de cidadão hono-

rário". A inspiração para tais iniciativas pode ter partido de seus próprios

empregados. Em Belo Horizonte, por exemplo, o diretor geral dos Associa-

dos, Pedro Aguinaldo Fulgêncio, já havia recebido e cumprido a ordem vinda

do Rio de mandar as duas emissoras locais, as rádios Guarani e Mineira, to-

car apenas música clássica durante todo o dia. Em pleno sábado de Carnaval.

As listas de registro de visitantes espalhadas pelos jardins e salas de es-

pera da clínica exibiam, no fim do dia, centenas de nomes de ex-presidentes

da República, deputados, intelectuais, banqueiros, industriais, militares, di-

plomatas, jornalistas e, em número muito superior ao de homens, mulheres,

muitas mulheres. Mulheres de todas as idades e origens sociais, mulheres

belíssimas e mulheres decrépitas queriam saber se ele ia sobreviver. Cober-

tas de jóias, elegantes mulheres do society vindas de várias capitais brasilei-

ras e até do exterior não disfarçavam o ciúme com que olhavam para atrizes,

coristas, ex-misses, cantoras, bailarinas e prostitutas de luxo do Rio e de São

Paulo que circulavam desenvoltas pelos jardins do hospital. Mais que os ho-

mens, as mulheres pareciam sinceramente abaladas com o desastre que

ameaçava o homenzinho que agonizava num quarto atrás daquelas paredes

amarelas. Mesmo sabendo que nenhum ruído perturba alguém em estado de

coma, após a traqueostomia os médicos, por força do hábito, transferiram

Chateaubriand para um anexo da clínica mais afastado e tranqüilo, chamado

"Chalé Olind". Ali, onde imaginavam que ele estaria a salvo do burburinho

provocado por visitantes e repórteres, instalaram uma tenda de oxigênio e

equipamentos de emergência no quarto amplo, com vista para um bosque de

jequitibás. Todos passaram a aguardar o desfecho final.

Já era noite fechada quando os cinco médicos contratados pelos Diários

Associados se reuniram mais uma vez em volta do leito do moribundo. Ao

cabo de um exame demorado e minucioso, Ackerman, que funcionava como

chefe da equipe, pediu que chamassem ao quarto a alta direção dos Asso-

ciados. Na realidade, a "alta direção" do império sempre fora uma única

pessoa, o próprio doente. Na ausência dele, e por uma espécie de direito ad-

quirido, pois nada formalizava esse status, três homens de sua confiança res-

pondiam pela cadeia: seu primo Leão Gondim de Oliveira, diretor da revista

O Cruzeiro e dos Laboratórios Schering, João Calmon, responsável pela praça


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


do Rio de Janeiro e por um feudo que ia dessa cidade até a fronteira norte do

país, pulava o Centro-Sul e englobava o Rio Grande do Sul, e Edmundo

Monteiro, que dirigia São Paulo, Paraná e Santa Catarina, embora detivesse

o título de "diretor geral" dos Associados. A chamada dos médicos revelou

que a luta pelo poder começara com o rei ainda vivo. A rigor, apenas os três

deveriam subir, mas a sala foi tomada por diretores de outras áreas, repór-

teres sem cargos de direção mas amigos do chefe, colegas de Chateaubriand

na Academia Brasileira de Letras. Além deles, a maioria dos 22 beneficiados

com a doação das ações feita cinco meses antes também se sentiam donos-

e surgiram de todos os pontos do país para garantir que fosse cumprida a úl-

tima vontade do imperador. Quem não conseguiu chegar a tempo mandou

avisar que estava a caminho. Um silêncio excitado e ansioso tomou a sala

quando um dos médicos, instruído por Ackerman, pôs-se a ler a "observa-

ção médica" oficial que, por um lapso, acrescentara um ano à idade real do

paciente:

- Paciente: Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, bran-

co, 68 anos, desquitado. O exame neurológico comprovou a ocorrência de

acidente vascular encefálico, que provocou coma, tetraplegia, miose intensa,

paralisia do véu e das cordas vocais. Foi identificado sinal de Babinski bila-

teral. A angiografia revelou lesão do tronco cerebral e comprometimento da

porção inicial da basilar e do ramo espinhal anterior. Radiografias indicam a

existência de enfisema pulmonar, bronquiectasias e secreção mucopurulen-

ta abundante. Exames para localização do bacilo de Koch revelaram resulta-

dos negativos.

Ninguém ali precisava saber o que significava bronquiectasia ou Ba-

binski bilateral para entender o que tinha acontecido: o Velho Capitão, como

os bajuladores gostavam de tratá-lo, estava indo embora. Delicado, Acker-

man traduziu para um português mais inteligível o que fora lido por seu as-

sistente:

- O doutor Assis sofreu uma trombose cerebral dupla. Os recursos

mais modernos da medicina foram utilizados para apurar a extensão do

quadro. Ele está completamente paralítico do pescoço para baixo, perdeu o

paladar e a voz. Um pulmão ficou inteiramente inutilizado. Lamento infor-

mar aos senhores que o estado dele é crítico. Vou retirar-me para redigir um

boletim médico tornando pública a traqueostomia de urgência a que ele foi

submetido hoje.

Na saída Ackerman pegou Edmundo Monteiro pelo braço. O médico

sabia que oficialmente Chateaubriand tivera três mulheres, de quem tinha se

separado e com as quais não se dava mais. Os filhos brigavam entre si e es-

tavam, em graus diferentes, rompidos com o pai. Na dúvida sobre com

quem tratar da questão mais delicada, decidiu recorrer à formalidade - e


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FERNANDO MORAIS


formalmente Edmundo Monteiro era o diretor geral. Ackerman levou-o pa-

ra outra sala e, com o ar ainda mais melancólico, anunciou:

- Doutor Edmundo, os médicos que assistem o doutor Assis são unâ-

nimes: ele está sobrevivendo vegetativamente. É um milagre que tenha re-

sistido até agora. Quero informar-lhe que ele tem poucas horas de vida. Co-

mo dirigente das empresas, o senhor pode providenciar os funerais.

Monteiro achou natural que coubesse a si a honra de enterrar o chefe.

Tirando Austregésilo de Athayde - que afinal não tinha cargo de direção no

império -, o amigo mais antigo de Chateaubriand era ele. Quantos, como

ele - aí incluídos o presidente da República, as amantes, os filhos, os Roc-

kefeller, a rainha Elizabeth -, quantos puderam tratar o doutor Assis de

"Chatô" sem ouvir um palavrão como resposta? Aquele era um privilégio

que tinha custado caro. Só ele sabia o que vivera desde a longínqua véspera

da Revolução de 30, quando, menino de treze anos, fora à redação dos Diá-

rios, em São Paulo, pedir um emprego de contínuo. Nada mais natural, por-

tanto, que o dr. Ackerman o chamasse para enterrar Assis Chateaubriand.

Cabelos lisos e glostorados grudados na cabeça, bigodinho fino sobre os lá-

bios, o pequenino Edmundo Monteiro - que conseguia ser ainda menor que

o chefe que morria - parecia um gigante ao entrar no quarto onde estava

Chateaubriand. O tom com que pediu para que a maioria dos presentes se

retirasse dava idéia de quem é que estava mandando. Juntos, ele, João Cal-

mon, Leão Gondim e Austregésilo de Athayde começaram a acertar os deta-

lhes do enterro. Edmundo defendia que o corpo fosse velado no plenário do

Senado Federal, de onde o funeral sairia para o Cemitério São João Batista.

Athayde foi contra:

- Ele era um imortal, tem que ser velado na Academia Brasileira de Le-

tras, isso é uma tradição. O Salão dos Poetas Românticos já está preparado

para receber o corpo. Além disso, ele já não era mais senador, deixou o Se-

nado há três anos para assumir a embaixada em Londres.

Alguém telefonou ao vice-presidente da República, João Goulart, que

era também o presidente do Senado, e descobriu-se que o regimento interno

da casa previa situações como aquela: o privilégio de ser velado no plenário

da Câmara Alta era extensivo aos ex-senadores. Àquela altura o grupo já ti-

nha de novo se ampliado, a cama do doente estava outra vez cercada por

uma dúzia de pessoas. A referência à embaixada em Londres fez surgir ou-

tra alternativa, proposta não se sabe por quem:

- Se ele morreu como embaixador do Brasil, o enterro não tem que sair

nem do Senado nem da Academia, mas do Itamaraty.

Um repórter político tomou a iniciativa de procurar o prefeito do ainda

Distrito Federal, Sá Freire Alvim, e pedir um caminhão do Corpo de Bom-

beiros para transportar o ataúde. O prefeito respondeu que não, que um ho-

mem como Chateaubriand precisava ser levado "à sua última morada" num


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


blindado militar, que ele próprio se encarregaria de conseguir com o mare-

chal Odílio Denys, que tinha assumido o Ministério da Guerra duas sema-

nas antes. A questão do local do velório, no entanto, ainda não estava resol-

vida. Optou-se afinal, por uma solução salomônica: o corpo seria velado no

Senado, mas para que a Academia e o Ministério das Relações Exteriores não

fossem esquecidos, ele seria sepultado com o fardão de imortal e o féretro

passaria pela porta do Itamaraty antes de seguir para o cemitério. Todos es-

tavam de acordo até que alguém lembrou que, tendo ingressado na imorta-

lidade cinco anos antes, Chateaubriand havia engordado bastante:

- Vamos precisar tomar emprestado o fardão de outro acadêmico. O

dele não entra mais no corpo.

Agora ele já não era mais Chateaubriand, dr. Assis ou embaixador, mas

"o corpo", embora clinicamente ainda estivesse vivo. E todas as providên-

cias para que o corpo chegasse gloriosamente ao Cemitério São João Batista

tiveram de ser revistas quando Edmundo Monteiro chamou a atenção dos

demais para o óbvio: era sábado de Carnaval e o enterro ia ser realizado no

Rio de Janeiro. Como é que um cortejo aberto por um blindado militar levan-

do um morto ilustre poderia atravessar a cidade sem trombar com escolas de

samba, blocos de sujos, bêbados sambando pelas ruas? Não haveria o risco

de acontecer uma provocação? E se os foliões decidissem acompanhar o en-

terro como se seguissem um bloco carnavalesco? Foi preciso refazer todo o

roteiro para evitar que o caráter solene do funeral fosse comprometido pela

orgia.

Foi aí que Chateaubriand voltou a ouvir. Não se tratava de um milagre,

mas sem que ninguém percebesse ele viveu por alguns minutos um fenôme-

no médico conhecido como "superficialização do nível de consciência", que

costuma ocorrer em pacientes submetidos a anestesia geral e em vítimas de

acidentes violentos. Sem que a pessoa saia totalmente do coma, um de seus

sentidos - em geral a audição - volta a funcionar por instantes. Mesmo

embriagado pelo efeito dos remédios e pelo choque da trombose, Chateau-

briand começou a escutar tudo o que se dizia à sua volta. Podia identificar

perfeitamente a voz de Athayde anunciando que ia para casa preparar o dis-

curso fúnebre. "No dia em que nos conhecemos", dizia ele, "Chateaubriand

e eu combinamos que o primeiro que morresse seria saudado pelo outro na

beira da cova." Ao perceber que o sepultamento de que falavam era o seu,

realidade, delírio e fantasia se misturaram, deixando-o aterrorizado. Fune-

ral, que funeral? Será que aqueles imbecis não percebiam que ele estava vi-

vo? Já ia mandá-los de volta aos estábulos, como fizera milhares de vezes ao

longo da vida, quando percebeu que não tinha voz. Quis mexer os braços,

mas nada se movia. Os olhos! Bastaria um olhar severo e eles perceberiam

na hora a besteira que estavam fazendo. Nada, o negrume tomava conta de

tudo. Nem mesmo os pensamentos ele conseguia organizar direito. Longe


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FERNANDO MORAIS


de trazer luz, cada tentativa de abrir os olhos custava um esforço brutal e só

aumentava a terrível sensação de vertigem, em que ele parecia rolar no vá-

cuo de uma espiral negra, sem fim. Nem a memória se agarrava ao que quer

que fosse. A cena da antropofagia, em que ele e a filha comiam o bispo Sar-

dinha, se confundia com outra, onde aparecia um menino pálido e magro

como uma lagartixa, sentado sozinho sobre uma pedra grande, no meio da

caatinga. O menino tentava falar, mas a voz não saía, cortada por uma ga-

gueira atroz. Em seguida voltavam a vertigem, os pedaços do bispo, a espiral,

o negrume. Desistiu de tentar entender onde estava e o que lhe acontecera.

À sua volta as pessoas continuavam falando. Reconheceu a voz de seu

querido amigo Antônio Sanchez Galdeano contando alguma coisa sobre as-

fixia e pulmão de aço. Alguém comentava a maior tragédia aérea no Brasil

até então, ocorrida dois dias antes na baía da Guanabara: um Dc-6 da Mari-

nha dos EuA, que transportava a banda dos fuzileiros navais americanos

(que tocaria durante a visita de Eisenhower), chocou-se no ar com um Dc-3

da Real Aerovias, matando 67 pessoas, entre elas todos os músicos da ban-

da. A voz de Galdeano e a referência a fuzileiros americanos reavivaram al-

guma coisa perdida no fundo da memória de Chateaubriand. Resolveu ten-

tar de novo recapitular o que lhe acontecera antes da escuridão, mas era

constantemente interrompido por mais escuridão, pela fantasia do bispo

português e pela imagem do menino gago, sozinho e tentando falar. Fuzilei-

ros! Ele tinha batido boca com fuzileiros navais na porta do Palácio da Alvo-

rada! Mas quando tinha sido aquilo? Usou o que lhe restava de energia

para livrar-se da escuridão e do menino gago e conseguiu reconstituir frag-

mentos da cena recuperada pela lembrança. Depois da humilhação na porta

do palácio, atravessara o gramado com Vernon Walters e Sette Câmara. Ou-

vira pedidos de desculpas do chefe do Cerimonial e caminhara emburrado,

a passos rápidos, até a mesa principal, onde se encontravam Kubitschek e

Eisenhower. A memória guiava-o em direção à cara sardenta e sorridente do

presidente americano quando, no meio do salão, alguém o tomara pelo bra-

ço, tentando saudá-lo. Era o general pernambucano Dantas Barreto, que o

metera no xadrez em 1911, em Recife. Nesse instante uma nuvem de horror

tomou conta dos pensamentos de Chateaubriand. Dantas Barreto? Mas Dan-

tas morrera em 1931! Um defunto de trinta anos, fardado e bebendo vinho

com Juscelino e Eisenhower? Mas então, meu Deus, aquela gente que con-

versava à sua volta tinha razão: ele tinha morrido mesmo. Ali devia estar

apenas sua alma, ou que nome tivesse o que restara de seu espírito ainda não

desencarnado. O choque provocado pela certeza da própria morte levava-o

de volta ao coma total. A audição começou a desaparecer outra vez, o negru-

me estava tomando conta de tudo. Ele ainda conseguiu identificar outra voz

que chegara - era o médico Antônio da Silva Mello, seu colega de Acade-

mia, o irônico amigo de infância que entrava na sala da clínica. Calvo, enor-


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CHATÔ: O REI DO BRASIL


mes suíças sob as orelhas, pincenê pendurado na ponta do nariz, Silva Mel-

lo olhou o corpo por alguns minutos e dirigiu um solene pedido aos pre-

sentes:

- Antes de enterrá-lo, não se esqueçam de mandar cortar os culhões e

doá-los à Academia Nacional de Medicina para pesquisas. Talvez a ciência

consiga explicar o que é que as mulheres viam de tão especial nesse sujeito.

Segundos antes de mergulhar de novo na escuridão eterna, Chateau-

briand viu pela última vez o menino branquelo lutando contra a gagueira.

Só então percebeu que o garoto era ele mesmo, aos sete anos. Sentiu uma

profunda piedade de si próprio e entendeu a imagem como sua derradeira

despedida do mundo dos vivos. Sua hora finalmente tinha chegado.


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A gagueira não tinha sido a única mazela a infernizar a infância do me-

nino que assombrou os resquícios de memória de Chateaubriand. Além de

gago ele era feio, raquítico, amarelo e opilado. A cor da pele - a "palidez

goianense" - denunciava os três séculos da malária ancestral que desfigu-

rava a população de Goiana, pequena cidade da Zona da Mata pernam-

bucana de onde viera todo o seu ramo materno. Ele próprio tinha nascido

alguns quilômetros acima, na margem paraibana do açude que separava os

dois estados nordestinos. No lado sul da represa estava Bom Jardim, em Per-

nambuco, e na parte de cima, já na Paraíba do Norte, ficava a cidade de Um-

buzeiro, nome do modesto conjunto de casas onde ele nascera. Com o correr

do tempo, Umbuzeiro carregaria duas glórias e um insólito orgulho: era a

terra natal de Chateaubriand e de Epitácio Pessoa e produzira um povo

que se gabava de primeiro matar, depois discutir. Os mais pacatos diziam

com candura que não era bem assim. Ali ninguém matava ninguém pura e

simplesmente. Quando entendia necessário, Deus Nosso Senhor é quem de-

cidia eliminar alguns galhos decrépitos da espécie humana. Como procu-

ravam viver em comunhão com o céu, os umbuzeirenses se encarregavam

de cumprir a vontade divina e abatiam esses galhos. Mas quase sempre era

sem dor e com misericórdia.

Os pais de Chateaubriand, Francisco José e Maria Carmem, tinham se

casado muito jovens, pouco antes da proclamação da República. No dia em

que ele nasceu, 4 de outubro de 1892 - Dia dos Animais e de são Francisco

de Assis -, o casal já havia tido o primogênito, Jorge. A devoção da mãe ao

padroeiro do dia facilitou a escolha do nome do bebê, um nome comum

como as centenas de nomes de santos dados a meninos do Nordeste. O so-

brenome - Chateaubriand Bandeira de Melo -, no entanto, além de lhe

emprestar uma opulência familiar que a seca e as vicissitudes haviam devas-

tado décadas antes, ocultava a raiz do tronco materno, Guedes Gondim,

e exibia extravagância européia pouco comum naqueles confins no final do

século xix. Esquisito e impronunciável para a maioria das pessoas do lugar,

o Chateaubriand de seu nome nascera singelamente de um gosto do avô pa-

terno. Admirador do poeta e pensador francês, o fazendeiro e plantador de

algodão José Bandeira de Melo comprara em meados do século uma escola


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CHATÔ, O REI DO BRASIL.


na região de São João do Cariri, na Paraíba, e batizara o estabelecimento com

o sonoro nome de Colégio François René Chateaubriand. Custou pouco pa-

ra que ele ficasse conhecido como "o seu José do Chateaubriand". E menos

ainda para a corruptela popular se encarregar de comer a contração e ele vi-

rar apenas José Chateaubriand. Apesar de difícil, o nome se incorporou ao

dono com tal força que ao nascer-lhe o primeiro filho, Francisco José, ele não

hesitou em registrá-lo com o sobrenome francês. Com o segundo foi mais

simples: ele batizou-o nada menos que com o nome de Chateaubriand Ban-

deira de Melo.

A natureza das coisas indicava que Francisco de Assis nasceria em casa

abastada. Pelo lado do pai ele teria a contabilizar nomes como o de João Ca-

pistrano Bandeira de Melo, conselheiro do Império, governador do Ceará e

de Minas Gerais. Herculano Bandeira de Melo, primo de seu pai que se apre-

sentava como "o único cavalheiro saído dos canaviais do mato pernambuca-

no", tinha larga folha de serviços prestados à Coroa. Depois de ter sido se-

nador imperial, foi ele quem iniciou, como governador de Pernambuco-

ou "presidente de estado", como eram denominados os governadores esta-

duais até 1930 -, a dragagem e modernização do porto de Recife e a cons-

trução dos serviços de esgotos da cidade. O sangue materno vinha dos Ma-

rinho Falcão, dos Correia de Oliveira e dos Guedes Gondim, poderosos so-

brenomes de senhores de engenho cuja pronúncia revelava a propriedade

de incalculáveis populações de escravos e de latifúndios que atravessavam

estados. Mas a vida quis que fosse diferente. Ao arrasar os algodoais do Ca-

riri, a seca de 1877 decretou a falência dos Bandeira de Melo. Neto e bisneto

de donos de muita terra e muito dinheiro, o advogado Francisco José Chate-

aubriand Bandeira de Melo era um modesto juiz municipal em Umbuzeiro

em outubro de 1892, quando nasceu Francisco de Assis, seu segundo filho.

Um rígido orgulho o impedia de aceitar ajuda do sogro Urbano Gon-

dim, capitão da Guarda Nacional e próspero fazendeiro em Timbaúba, do

lado de lá da divisa pernambucana. O máximo a que consentiu foi receber

um favor do conselheiro João Alfredo no início de sua carreira. Festejado na-

cionalmente como líder da abolição da escravatura, o pernambucano João

Alfredo ocupava pela segunda vez a presidência do Conselho do Império,

em 1888, ano em que o pai de Chateaubriand se formou em direito. Maria

Carmem Gondim havia sido criada por uma irmã do conselheiro. Ao conhe-

cer o jovem Francisco José, ainda estudante, João Alfredo entendeu que era

a hora de juntar de novo os Bandeira de Melo com os Guedes Gondim-Cor-

reia de Oliveira, raízes que já haviam se cruzado gerações antes. Ao promo-

ver o casamento dos dois, João Alfredo cedeu ao nepotismo e ofereceu ao

rapaz um dos mais cobiçados presentes com que poderia sonhar um recém-

formado bacharel nordestino: o cargo de promotor público em Goiana, terra

da noiva e do próprio conselheiro. Mas o emprego duraria pouco - o tem-


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fERNANDO MORAIS


peramento difícil e a vocação nômade de Francisco José logo o tirariam de lá.

Aprovado em concurso, deixou Goiana e ingressou na magistratura. A ca-

rência de comarcas na Paraiba fazia dele uma espécie de juiz itinerante, que

exercia a profissão assinando sentenças em lombos de burros e balcões de

farmácias pelo interior do estado. Assim, o filho mal chegaria a conhecer

Umbuzeiro. Chateaubriand nem havia feito o primeiro aniversário, em

meados de 1893, quando o pai foi destacado para ássumir o juizado munici-

pal de Ingá do Bacamarte, meia dúzia de léguas ao norte de sua cidade na-

tal. Ali ele viveu até 1896.

O menino custou a começar a falar, e a dificuldade que tinha para pro-

nunciar uma frase inteira provocava risos nos adultos e em Jorge, o irmão

mais velho. Demorou para a família descobrir que aquilo não era um encan-

to comum às crianças de sua idade: ele já estava beirando os três anos quan-

do os pais entenderam que o menino era gago. Se a feiúra e a magreza não o

faziam diferente dos amigos - ali quase todos eram feios e magros -, a ga-

gueira da infância o transformaria num tímido incurável, arredio e envergo-

nhado. Foi nessa época que o pai, cansado das dificuldades e da vida de ci-

gano que o cargo lhe impunha, decidiu mudar-se com a família para Recife.

Tentando demovê-lo da idéia, o Partido Republicano ofereceu-lhe uma cadei-

ra de deputado federal pela Paraíba. O surpreendente Francisco José rejeitou

o presente alegando que preferia criar vacas leiteiras numa pequena chácara

que alugara nas redondezas da capital. Cedeu o mandato parlamentar para o

irmão mais moço, Chateaubriand, argumentando que, embora o caçula fosse

médico e não tivesse qualquer vocação para a política, "era o melhor orador

da família". Juntou a mulher e os dois filhos e tocou para a cidade grande.

Foi no sobrado de azulejos da rua da Aurora, em Recife, onde mora-

vam, que nasceram seus dois outros filhos, Oswaldo e Urbano Ganot. A fa-

mília vivia com dificuldades, mas ninguém se lembra de algum dia ter falta-

do comida em casa ou escola para as crianças. Mesmo transformado em

criador e vendedor de leite, o pai preservava o refinamento intelectual dos

antepassados. Os quatro filhos cresceram ouvindo à noite, em casa, saraus

de música e de poesia. Um barulho metálico acordava Assis Chateaubriand

toda madrugada. Ele já sabia de onde vinha o ruído, mas sempre repetia o

gesto de chegar os olhos à beira da janela do quarto para ver o pai, que ain-

da não completara trinta anos, descarregar da carroça os enormes latões-

chamados garibáldis - cheios de leite. Antes de o sol nascer o ex-juiz e qua-

se deputado ia até o sítio e trazia para a porta da casa na cidade, puxando

pelo cabresto uma parelha de mulas, a enorme carroça, repleta de latões. Ali

os distribuidores os recolhiam para entregar o produto aos consumidores,

de porta em porta. Na hora do almoço o pai devolvia a carroça ao sítio e

retornava com a capanga de couro repleta de cédulas miúdas que desamas-


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FERNANDO MORAIS


sava esticando uma a uma sobre a mesa. Separado por valores, o maço de di-

nheiro era entregue religiosamente a d. Maria Carmem, a tesoureira da casa.

A agressividade de Recife, os meninos estranhos e o movimento de tan-

ta gente desconhecida só fizeram aumentar ainda mais a timidez de Cha-

teaubriand. Se os irmãos Jorge, Oswaldo e Ganot podiam ser vistos no meio

de bandos de moleques, brigando nas ruas, tomando banho de mar e empi-

nando papagaios, o raquítico Francisco de Assis passava os dias agarrado à

saia da mãe. Já se tinha tentado de tudo para fazê-lo engordar um pouco: re-

gimes especiais, canjas, suco retirado de músculo de boi. Durante meses ele

foi obrigado a tomar vidros e mais vidros do enjoativo leite maltado Horlick,

"A Nutricious Food-Drink for all Ages", que um marinheiro trazia em cai-

xas no vapor que vinha do Sul, mas nada deu resultado. Os médicos

tranqui-

lizavam a família: não havia por que se preocupar com a magreza dele, aqui-

lo não era doença. Mas quanto à gagueira podiam desistir, que a medicina


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