Excerpt for A Imortalidade by Ágata Ramos Simões, available in its entirety at Smashwords

A IMORTALIDADE


Ágata Ramos Simões


Smashwords Edition


Copyright 2011 Ágata Ramos Simões


Capa: Estátua de anjo por Linda Allardice

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Blog da Autora: http://www.escrita.blogspot.com



Index


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CAPÍTULO 1


Paro em frente da casa. Casa? Mansão. É estranho, vivo aqui no bairro há tantos anos e só agora reparo nesta mansarda? Conheço os caminhos como a palma da minha mão, percorri os atalhos “n” vezes para ir às compras, visitar amigos, ir ao café, ao cabeleireiro, ir para o trabalho, e só hoje reparo neste mastodonte urbanístico? Tem um ar semi-abandonado, a fachada cinzenta é como a cara fechada de uma pessoa austera, rígida e sóbria. Alguém racional, céptico, lógico a todas as ocasiões, mesmo as mais fantásticas. Em vez de ver o edifício vejo um ser. A fachada apresenta um tom murcho de cinzento, heterogéneo, e um ar desmazelado - pequeninas plantas vão nascendo aqui e ali. Estranhamente, as janelas parecem limpas. Porque o estariam se todo o resto padece de incúria? Entro? Bato à porta? Com que desculpa? Direi que me perdi. Peta, mas... a curiosidade sobrepõe-se ao medo subtil que vem crescendo, como uma dor de dentes ligeira que ainda se aguenta.

A porta está tentadoramente aberta.

- Err... - entro, pé ante pé, projecto a cabeça para o interior. Limpo a garganta. - Olá? Está alguém?

Entrei. Dois passos separam-me da rua. Isto é errado. Uma vez transpus a zona proibida de um museu arqueológico francês e o alarme soou. Retrocedi e terminei a visita calmamente. Eu sei que é errado, mas não é a decência que me fará partir - só o medo. As emoções, digamos, morais, são inferiores às físicas?, questão sobre a qual reflectir.

(Decência, ética - emoções?)

Gosto do cheiro. Entre o antigo e o arejado. É enorme. Três apartamentos cabem aqui. Mais. Cheira a antigo, não a mofo. Tem o odor de séculos. Determinou não permanecer nos tempos provectos, mas suavemente modernizar-se. Não sei explicar. E tem o odor dos livros - e o odor simultâneo das bibliotecas e livrarias. Das lojas de antiquários. E de outros elementos inidentificáveis, provavelmente porque nunca os experimentei. Olho para cima: uma galeria enorme em forma de U repleta de estantes abastecidas de volumes até ao tecto. Entre cada estante uma janela. Vejo as escadas que lhe dão acesso. Observo o salão à minha frente. Tem dois sofás longos, a encararem-se um ao outro. Ressumam ar anacrónico, mas distinto. Da porta intuo-lhes a fragrância: a distinção que repele o mofo. Não é preciso envelhecer para possuir classe.

As cores são mais apagadas. Melhor - concentradas. Cores sem necessidade de vida, apenas de concentração. Cores como o castanho, todos os tons, e o azul, são densas - sólidas quase. Cruas. A casa parece repelir o vermelho, o amarelo. Há um quadro no salão, acima da lareira fria. Terei de me aproximar para vê-lo. Só distingo uma imensa mancha azul. De momento o que me atrai são os livros. Devo chamar outra vez? E se me ouvem? Terei de me ir embora. Vou - depois de investigar os livros.

Subo devagarinho as escadas que se situam à direita, na penumbra, após encostar a porta.

A meio das escadas paro. Sinto que há algo estranho e arrepio-me. Algo que não estou a ver. De súbito entendo: a falta de pó, a limpeza invisível. É uma casa, ou pelo menos divisão, habitada. Mas por fora... grita: deserta. A ruir. Parte, viajante. Estou a cair aos bocados.

Continuo, insegura dos meus passos. Tremo. Mal alcanço as estantes em poucos segundos o medo dissipa-se e embrenho-me a ler, folhear, cheirar e sentir os tomos na ponta dos dedos. Vou percorrendo a galeria em U sem me dar conta que pelas janelas a luz diminui, que tenho de chegar o livro muito a mim para decifrar as letras. Atinjo a última estante e espanto-me por me ver iluminada pela lua e não haver ali escadas. Do cimo espreito a porta ainda encostada e escuto o barulho ténue do vento no exterior. Tenho de fazer a volta toda, mas estou com medo, que ressurgiu em força. E se me jogasse dali? Não é alto. Sou capaz. Mas se alguém na casa me ouve? A estas horas - chama a polícia. O coração está a bater-me, a sair do peito. Tenho de voltar pelo mesmo caminho, não há remédio. Passo por detrás da última estante, paro por um segundo para controlar a respiração, engolir a saliva e acalmar. Encosto-me à parede esponjosa e com um suspiro grande sinto-me a cair através dela, para trás, a cair, a cair.

Caio a dar sucessivas cambalhotas para trás. Dói. Desabo no escuro ao longo de uma rampa, de um túnel quadrado que me leva para baixo. A pouco e pouco torna-se plano, menos inclinado e maior. Temo abrir os olhos. Dói-me o corpo inteiro. Quando enfim perscruto onde vim parar vejo uma abóbada de pedra com duas saídas. Estúpida. Que me mandou meter o bedelho onde não era chamada? Não me fio e decido retroceder, gatinhar túnel acima. Sou incapaz, escorrego mal a inclinação se faz sentir. E agora? Fico ali à espera de ninguém já que ninguém adivinha o meu paradeiro ou sigo para uma das saídas? Como se eu tivesse escolha. O medo não é subtil, tolhido, tímido, como de princípio, mas presente, a comandar o coração, a obrigá-lo ao rugir de um torpedeiro, a encher-me os ouvidos do som do sangue a trovejar corpo acima. Tenho de controlar-me. Controla-te, porra. Passo a passo coloco-me a meio caminho entre as duas saídas, a tremer. Ali ainda há luz, não sei de onde vem senão levá-la-ia comigo porque os túneis são negros como breu. Sinto que o meu coração rebentará se tiver de me guiar pelas paredes, mas não há alternativas. Fecho os olhos, cerro os punhos, tento relaxar. Calma. Respira fundo. Uma vez. Duas, cinco vezes. De súbito oiço qualquer coisa do lado direito. Olho o túnel - silêncio. Talvez haja lá alguém que me possa ajudar. Ou talvez seja só a minha imaginação. Avanço devagar, mal respirando, cerrando os punhos. Maldita hora em que abandonei as aulas de ioga.


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