ATO
I
CENA I
(
Dos homens vestidos de terno e gravata estão no sub solo do banco
numa noite de fim de ano. O cofre vai do teto ao chão.Os
números piscam em decrescente.E os dois conversam. Um está
assentado num banquinho. O outro, fica em pé fitando os números,que
descem).
RAÍZ:_ ---O dinheiro que há aí dentro um homem só
não consegue
carregar.
ROMÃ:_{Olhando fixamente para os
números} O que vamos levar, é uma
gotica de nada, feito o
dedal de água retirada do mar.
RAÍZ:_O punhado de dinheiro
aí dentro... combustivo que alimenta o
mundo. Sem isto o
capitalismo vira dinossauros.Uns matam,outros se perdem por um níquel
só.
ROMÃ:_ Alimenta as guerras… Quem não
pode,toma aforça, {Murmurando} E o que há aí …um homem só não
carrega.
RAÍZ:_Nos torna imune à pobreza por anos a
fio.
ROMÃ:_ Era preciso ter matado o coitado do
segurança?
RAÍZ:_E tê-lo como sombra. Cão bom é cão
morto.Cão é amigo do dono dele.E ele,do banco.
ROMÃ:_Eu
preferia mantê-lo amarrado.
RAÍZ:_ Já eu, prefiro do jeito
que está.
ROMÃ:_É cada um com oseu conceito. Assim como foi
com ele, poderia ter sido...
Deixa pra lá.
RAÍZ:_..Contigo.Não
vivo dizendo que não vale uma bala. {PAUSA} Que
festa hein!
Deixaram derramado lixo pelo assoalho. Garrafas e bebidas pela
metade.Isto é que foi festa.
OMÃ:_É fim de ano. Assim é em todo canto.
RAÍZ:_ Quer beber alguma coisa?Vou ver se encontro algo. Estou numa sequidão que só vendo.
ROMÃ:_ Um refrigerante. Menos daquele freezer do canto. Foi lá que pôs o coitado.
RAÍZ:_ Pode deixar comigo. (RAÍZ SAI, DEIXANDO ROMÃ DE OLHOS FITADOS NOS NÚMEROS).
(RAÍZ RETORNA, COM UMA BANDEJA, CONTENDO PETISCOS, MEIA GARRAFA DE VINHO, E REFRIGERANTE).
RAÍZ:_ (PONDO VINHO NO COPO)_Quer vinho ou refrigerante?
ROMÃ:_Vinho não. Já disse. Sou fraco pra bebida.
RAÍZ:_Forte. Os fracos,nem chegam perto da garrafa. Só os fortes evitam o primeiro gole. Não se embebedam nunca. Agora os fracos…Deixa pra lá.
ROMÃ:_Tem cada Idea ( RI).
RAÍZ:_Imagina um desses fracos aqui.
ROMÃ:_Pra que? Pra me chatear?
RAÍZ:–E está aqui pra que? Que motivo o trouxe?
ROMÃ:–O mesmo seu.
RAÍZ:_Mentira!…Pessoa nenhuma tem motivo igual ao do outro.
ROMÃ:_Se a intenção for a mesma, tem.
RAÍZ:_Intenção! Tenha dó. Nengém vem a um lugar deste numa hora desta por pura intenção.
ROMÖ(SE SENTA NOVAMENTE) Pra ter uma vida sustentável e nada mais.É esse o motivo seu?
RAÍZ:–Tá vendo,já mudou o motivo.
ROMÃ:_(OLHANDO PARA O COFRE)–Mudei nada.Não fui eu quem disse foi você.
RAÍZ:_Eu não disse motivo nenhum.
ROMÃ:---É so o ponto de vista que parece ser diferente,e não é. Viemos pelo mesmo motivo,não viemos.A razão é uma só.Ou tem diferença?
RAÍZ:_ Diferente não é,o que nos diferencia é a realidede. Eu por minha vez,tenho um gosto que é diferente do seu.
ROMÃ:_ Tem de ser. Eu,mais paciente e comprometido comigo mesmo.
RAÍZ:_(MUDANDO DE ASSUNTO)_A vida vai começar mesmo é a partir de amanhã.Agora estamos só nas preliminares.É questão de horas. Tempo é mesmo dinheiro. Duro, ninguém faz festa.
ROMÃ:_….Engraçado!…Tento me lembrar de alguma coisa,e não sei o que é.Como se disse dependesse a continuação da minha vida.Engraçado!!
CENA III
RAÍZ:—Pra que preciso disto?
ROMÃ:—Precisa de que?
RAÍZ:—Comer pipoca enquanto o filme rola.Ouvir sermões de pastores,ou de
pades.Das benzedeiras.Essa coisas…essas coisas.
ROMÃ:—É, Quem precisa disto pra viver.
RAÌZ:— E De tudo que nos chateia neh!
ROMÃ:—Ah,bem vi! Era muita curva pra subir.
RAÍZ:— Se Portugal e Espanha soubessem,não tinham perdido o que perdeu.Imagina meu caro .Um rei tem a parte do mundo.Divide o mundo em duas partes.Uma parte para Portugal,a outra para a Espanha. Isto era o mundo, e dividiram em dois.
ROMÃ:—Não puderam carregar a cruz.E a terra mais valiosa,era a terra de Santa Cruz.
RAÌZ:–Entende o que está me engasgando.Pense Romã! Pense! Um mundo dividido em dois: De um lado Portugal do outro Espanha. Espanha e Portugal. O mundo todo falando espanhol e português,entende? Mas….há sempre um se ou um mas,no nosso caminho…a ganância,a usura o egoísmo.Os Jesuítas e ah,…Deus do céu! Imagina se…Pois é,se não fosse a usura e a ganância.Tivessem construído uma nova Europa aqui.Uma nova sociedade longe de tudo,longe do ódio,e da guerra. Hoje seria uma pátria portuguesa este nosso país.É Portugal contados os lucros.Não contabilizando os erros que os afastaram de nós.E nós aqui refém da história mal dividida. Da história e erros sem herói sensato.
ROMÃ:_Disse,tá dito! –(FOI NESTE MOMENTO QUE O RÁDIO TRANSMISSOR OS FEZ CALAR)
ROMÃ:-- Ouviu isto?
RAÍZ:_ Calma!…fica quieto!
VOZ:_Juriti, Juriti! Está pronto ai,cambio?
ROMÃ:_Tô dizendo! era bom demais pra ser verdade.Tava tudo muito calmo.Ia tudo muito…muito….perfeito demais!
RAÍZ:_ Calma!..vai dar tudo certo.è só se manter calmo!
ROMÃ: Não,não vai! Eu sabia! Deus,eu sabia!
VOZ:—Juriti seu puto! Vai ou não vai responder, cambio? Não tenho a noite toda!
ROMÃ:– E este cofre que não abre.Estou ouvindo passos!!! É de gente! Tem gente andando lá.
RAÍZ:_ calma, calma!!!É só o rádio de comunicação.
VOZ:_ Não responde né seu puto. Daqui a pouco ligo de novo. Veado! Vai ver só!
ROMÃ:_ Tá vendo, tá vendo! Daqui a pouco vem. Foi o que ele disse.
RAÍZ:_ Vem, não.Vou ver se encontro o rádio e trago-o pra cá.Fica calmo.Vai dar tudo certo.É só se manter calmo.Só isso.
(RAÍZ,VAI ATÉ A COZINHA,ENQUANTO ROMÃ FICA ANDANDO,DE UM LADO A OUTRO,ESFREGANDO A S MÃOS.RAÍZ VOLTA COM O RÁDIO E,COLOCA-O EM CIMA DA MESINHA QUE ESTÁ NO CANTO.
Tá aqui o desalmado. Não mete medo mais.É só voz.Voz ouviu!Estamos bem agora.É só consentrar a mente.É tudo.
ROMÃ:_Eu devia ter ouvido a minha intuição… Tem… tem gente descendo as escadas!…Escuta!Tem sim?…Se tivesse me dado ouvidos. Não tinha matado o segurança. Ele teria atendido. Era só paz… mas, não! Tem… tem gente descendo as escadas sim! Olha a sombra ali.
RAÍZ:_ Venha cá!(AGARRA-O PELO BRAÇO, BEM CALMO) Senta aqui. Fixa estes lindos olhos nos números. Vou pegar-lhe algo pra beber.
CENA IV
(ROMÃ SENTA E ESTÁ APARENTIMENTE CALMO)
RAÍZ:—Pra navegar,tinha que falar latim,ou português.Se não soubesse nenhuma das duas.Não entrava no mar.Era lei.
ROMÃ:—Um coisinha vem me comendo, arranhando a mente,tentando me lembrar de alguma coisa que não sei o que é.Parece-me algo importante.Mas,o que não é.
RAIZ:---E o time de football seu,qual é,ou não tem?
ROMÃ:---Perco tempo com isto não.
RAIZ:---Se soubesse que na árvore dos estádios os frutos são para os dirigentes e não os que jogam.Resposta certa.Por outro lado tem a tal da diversão e da lavação de conciência.Estádios são ótimos lugares para exorcisar os nossos próblemas.
ROMÃ:---Ouviu? Tem,tem gente descendo as escadas.Não vai....isto não dá! Estou me sentindo mal.Ouve,ouve! Tem sim,são passous vindo nesta direção.
(RAIZ OLHA-O ALGUM TEMPO.COMO SE NÃO PRESTASSE ATENÇÃO NO QUE DISSE FALA OUTRA COISA)
RAÍZ:— E nós, dois caras diplomados. Que fala mais de uma línguas. Graduados… Aqui dentro d’uma crisálida buscando ostentação.Pra manter os valores e o status,é preciso ter.Quem não tem meu caro,nada é. Ah... É melhor ir ver se encontro mais petisco.Quer refrigerante? Eu vou de vinho.
(ROMÂ ASSENTE COM A CABEÇA. RAÌZ SAI PARA A COZINHA.QUANDO VOLTA,ESTÁ COMAS MÃOS ABARROTADAS DE PETISCOS. OLHA,VÊ,O COFRE ABERTO.ROMÃ ALI EM FRENTE DE OLHOS ARREGALADOS PÕE AS MÃO SOBRE A CABEÇA.RAÍZ DEIXA TUDO CAIR SOBRE A MESINHA DO CANTO DA PAREDE.ABRE UMA BOLSA,RETIRA DELA SACOS DE POR LIXO.ENTRA NO COFRE OS DOIS, CADA UM COM UM SACO NAS MÃOS.ENCHE OS SACOS. SAEM,COLOCA OS SACOS RENTE A PAREDE.VOLTAM NOVAMENTE PARA DENTRO DO COFRE.É NESSE INSTANTE QUE A PORTA SE FECHA DA MESMA MANEIRA QUE ABRIU.
ROMÃ:_Ih,fechou!
(DENTRO DO COFRE)
RAÍZ:_ Que fechou estou vendo. E o controle tá ai não tá?
ROMÃ:_Do lado de fora.
RAÍZ:_ Não tava no seu bolso?
ROMÃ:_ Retirei para poder me assentar… É isso,é isso!
RAÍZ:—O quê?
ROMÃ:—Era pra eu apertar um ou dois botões pra travar a porta do cofre.
Raíz:—É agora que diz.
ROMÃ:—Ainda tenho duas coisa pra dizer.Uma é boa a outra não é.
RAÍZ:—Ainda tem coisa boa pra acontecer.Vai,diz a boa,quem sabe não seja tão ruim assim.
ROMÃ:—A boa é que o oxigênio só dura até amanhã a tarde.
RAÍZ:—Se essa é a boa, imagina a que não é.
ROMÃ:—A ruim: amanhã, é feriado.
CENA V
DOIS SEGURAÇAS COM LANTERNAS NAS MÃOS. CHEGAM ATÉ O COFRE DEPOIS DE TER PROCURADO PELO COLEGA).
SEG1:_Aqui não está.
SEG2:—E comeu bem.Olha quanta comida há nesta mesa.Bebida tem até um controle de DVD.
SEG1:—Do cofre.É controle do cofre.
SEG2:–(PEGANDO O CONTRÔLE E APONTANDO-O PARA O COFRE) vamos abrir.
SEG1:–Se souber a senha.(VÊ O RÁDIOTRANSMISSOR EM CIMA DA MESA) O rádio esta aqui.( LIGA O RÁDIOTRANSMISSOR) Juriti chamando central.Juriti…
VOZ:—Juriti seu filho d’uma que ronca e fuça.A gente chama,você não retorna.Você põe cabelos brancos na cabeça da gente seu filho d’uma égua.Táva fazendo o que não respondeu?
SEG1:—Dando buscas.Tudo vai bem.E ai?
VOZ:—Buscando o que num lugar sem viva alma? Mandei dois seguranças pra ver a razão do teu silêncio. Quando eles chegarem ai.Diz pra não demorar.Estão esperando por eles lá…eles sabem aonde é.Olha lá seu renegado.Não durma.Desligo!
SEG1:—-Entendido! Ouviu? Vamos lá.
SEG2:–O Juriti não tá,vamos assim mesmo?
SEG1:—Vamos.O puto faz sempre isto,some. Amanhã quando chegarem pra fazer a troca.Aparece com a cara de nada ter acontecido.Vamos lá.
(O SEGURAÇÃ 2 VÊ OS SACOS DE LIXO ENCOSTADOS NA PAREDE,ESTENDE AS MÃOS PARA PEGA-LOS) Vai fazer o quê?
SEG2:–Jogar fora.
SEG1:–E os faxineiros coçam…deixa isto ai.Vamos embora.Dê-me o controle.
(COLOCA O CONTRÔLE NA MESA PERTO DO RÁDIO TRANSMISSOR E SAEM).
CENA VI
RAÍZ:—….chega lá e diz pro Novidade.Não pague a fatura agora.Deixe para amanhã.Pague com os juros.Repete.
ROMÃ:—Tá memória!.
RAÍZ:—-Repete igual sem comer uma vírgula.Vai,repete.(ROMÃ REPETE O QUE RAÍZ DISSE DE UMA SÓ VEZ) Assim não.Fala como se dançasse a valsa. ROMÃ:—Pára com isso.Sabe que não sei dançar nada.Imagina,valsa! RAÍZ:—Tal qual eu disse.Vai,repete.Não confio na sua cabeça.
(ROMÃ ENTÃO DIZ COMO SE ESTIVESSE… valsando).É assim que é. (NUM CANTO SOMENTE SOB UM FOCO DE LUZ. ROMÃ CONVERSA COM NOVIDADE) ROMÃ:—Foi o que ele disse.Me mandou até repetir pra não errar. NOVIDADE:_Tem certeza que foi isto mesmo?
ROMÃ:_ Tão certo como o amanhã há de se levantar nos montes. Ele disse:Vai lá,diz pro o Novidade pegar o boleto.Pagar a conta.Tem uma coisa de juros…isto não lembro bem.
NOVIDADE:_ Estranho! De manhã diz uma coisa,a tarde manda dizer outra! ROMÃ:_Sabe como ele é,muda de assunto como se mudasse de roupa. NOVIDADE:_Isto não esta certo.Era pra pagar com os juros.Se assim é,assim será. (NOUTRO CANTO,RAÍZ,CONVERSA COM UM AMIGO)
RAÍZ:_Nem me deixou explicar direito.
AMIGO:_ Deixou de gostar então. Se vai partir diz a verdade.
RAÍZ:_ Com ela não tem conversa.Disse que a moda agora é penalizar o sujeito com pesada multa.Só assim dá o divórcio.Só porque me abri as pernas de vez em quando acha-se minha dona.E quando quer.
AMIGO:_ Vai levar o Romã?
RAÍZ:_ Aquele lá me larga? Só posso me desfazer dele,fugindo.Se fosse o caso,mas não é.
AMIGO:—Estamos nos despedindo então?
RAÍZ:_ Gosto de despedidas não. Prefiro outra sugestão.Até cá,techau,sei lá!De despedidas não gosto.
AMIGO:_É! E sejas bastante feliz! Tem o direito de dizer e fazer o que quiser. É de muita coragem também.
RAÍZ:_ Tem hora que… ou a gente chuta a porta, ou é ela que cai em cima da gente. Tem meio termo não.De vida confinada e alienada,o mundo tá cheio.Preferem escamotear do que se colocar à vista.Uns assumem outros se vestem do disfarce. Que é o mais indicado?Eu no momento prefiro a fuga. AMIGO:_ Não estou criticando. Acho-o de muita coragem. Assim na teoria, é um bastão e tanto. Na frente da vítima é que a coisa ferve. Ninguém está preparado pra uma separação assim de supetão.Ainda mais se tratando de anos a fio.Falo dela,não de ti.
RAÍZ:_No fundo, ela também já está se preparando. Dizem que as mulheres têm o sexto sentido. Ela sabe sim. Falta aquele til da confirmação.É só.Agora vou mesmo.
AMIGO:_É pena! Mas, nem tudo são só lágrimas.A gente se vê um dia.(DESPEDEM-SE RAÍZ ENCONTRA COM ROMÃ)_
RAÍZ:_ Toma! (ENTREGA-LHE UMA ARMA)
ROMÃ:–Quero isto não.
RAÍZ:_Pega isto canalha, pega!
ROMÃ:_ (OLHA PRA ARMA) Vou querer não. Quero isto pra mim não.(ROMÃ ACABA PEGANDO A ARMA)
RAÍZ:_Aponta bem aqui na minha testa e atira. (OLHA-O FIXAMENTE)Era pra pagar com os juros,não com o total.
ROMÃ:_Mandou tá mandado. Agora quer bronquear. Comigo não!
RAÍZ:_ Mandei? Eu mandei?
ROMÃ:_ Disse que era pra pagar a dívida. É pra pagar, tá pago.
RAÍZ:_ Com os juros imbecil, com os juro s!
ROMÃ:_É,foi isto mesmo! Tá cansado de saber. Se me manda fazer alguma coisa depois diz pra não me esquecer… esqueço-me.
RAÍZ:_O nosso tempo está contado. Depois, conversaremos, sobre o assunto. Agora é a hora vamos lá.A hora não nos espera.Vamos ver se pelo menos faz algo melhor.Hoje você cagou nas beiradas. Não vai poder errar. Se errar,é fatal.
CENA VII
RAIZ:—Decorou a senha?
ROMÃ:—Já! Ainda acho que a responsabilidade.... Que….
RAIZ:—Sem essa né! Quem maneja bem os números aqui hein?
ROMÃ:–E se anotasse em um…..
RAIZ:—Pirou! Anoto os números,esqueço em cima de algum espaço…pirou!
ROMÃ:–Tá,tá! A que horas vamos?
RAIZ:—Tá lerdo hoje né Romã. Já não combinamos antes? Se preocupe não. Vai ser moleza.É só entrar e sair com o dinheiro.Não tem erro.
ROMÃ:—O nó tá é ai. Quando é coisa muito fácil...
RAIZ:—Não vejo em que está o erro. A chave está contigo. A senha tá. É só botar a mão na grana e pronto.
ROMÃ:—Talvez tenha razão. Me dá um friozinho no ventre.
(NO SUBSOLO DO BANCO. NOVIDADE TRAJANDO TERNO. HORA ASSENTA NO BANQUINHO. HORA CAMINHA ESFREGANDO AS MÃOS. O NERVOSISMO É APARENTE.SENTA,DEPOIS SE LEVANTA.VAI ATÉ A MESA QUE ESTÃO OS PETISCOS.APANHA UMA GARRAFA COM ÁGUA.ENCHE UM COPO.BEBE,COLOCA A GARRAFA NO LUGAR.OUVE UM TRIC DO COFRE ABRINDO.RETIRA DO BOLSO O CONTROLE REMOTO.APERTA ALGUNS NÚMEROS.PUXA A PORTA ATE O CANTO.ENTRA DENTRO DO COFRE.PEGA UM HOMEM,COLOCA-O PERTO DO BANQUINHO.VOLTA,PEGA O OUTRO.COLOCA-O PERTO DO PRIMEIRO.RETIRA NOVAMENTE DO BOLSO O CONTROLE,APERTA NOVAMENTE OS NÚMEROS.A PORTA É FECHADA DE UMA SÓ VEZ.ELE MASSAGEA O PULSO DE UM.O CORAÇÃO E FAZ REPIRAÇÃO BOCA A BOCA.O HOMEM COMEÇA A RESPIRAR.ELE FAZ O MESMO COM O OUTRO.EM ALGUNS MINUTOS OS DOIS ESTÃO ASSENTADOS NO CHÃO.NOVIDADE PEGA DOIS COPOS ENCHE COM ÁGUA, DÁ UM PRA CADA).
RAIZ:—Ha quanto tempo está aqui?
NOVIDADE:—Entrei logo depois que os dois seguranças saíram.
ROMÃ:—Não disse que ouvi alguém descendo as escadas.
NOVIDADE:–Quando os vi sair rindo comendo e bebendo, não tive dúvida,entrei.Chegando aqui,vi o controle em cima da mesa,e o rádio,agi rápido.Se aqueles dois não os viram.Só podiam estar ai dentro (APONTA PARA O COFRE).Vamos logo que já vai amanhecer.(ROMÃ VAI PEGAR OS DOIS SACOS CONTENDO O DINHEIRO) Vai fazer o que?
RAIZ:—É nosso.São coisas que trouxemos caso precisasse.
NOVIDADE:–Então vai na frente Romã.Raiz e eu vamos pegar o corpo e limpar as pistas.O lugar vai continuar do jeito que encontramos.Eles devem encontrar tudo do jeitinho que deixaram.Não precisava ter matado o coitado.Hah!…Que estafa! Depois a gente planeja outro encontro.Desta vez o Romã fica de fora.Não devia ter confiado cegamente nele.
RAIZ:—Mandou o coitado ir na frente pra falar mal dele.
NOVIDADE:—Mal não.E o tempo que perdemos.As horas de espera,o incidente.Agora temos que reorganizar.Aguardar uma nova oportunidade.Sem o acaso o dinheiro estava garantido.E ainda tem o defunto no frizer.É o cúmulo.Vamos,vamos, o dia vai clarear.
ATO II
(Raiz HAVIA GASTADO TODO O DINHEIRO. NAQUELE MOMENTO ESTAVA ALI DIANTE DO SEU PRÓPRIO INFURTUNIO. A VIDA ESTAVA SENDO DESATADA E AS CAMADAS DE CINSAS PARACIAM NÃO QUERER CLAREAR).
RAÍZ:—Havia um rio ali na rua.Nas margens,tudo que fora semeado crescia.Chuva serôdia pincelava as mudas.Cresciam forte com vigor….Agora o ermo reina ali. Ninguém mais fia seda sobre o chão.Nenhum ser é mais…e só! Passava um rio ali!!! (VAÍSA O OBSEVAVA ATENTA A CADA PASSO A CADA JESTO)
VAISA:–Duro é abster-se de um ente querido.
RAÍZ:—É com arrancar um pedaço de nós.
VAISA–É… é uma perda e tanto.
RAÍZ:_Aonde procurasse um, lá o outro estava.
VAISA–Mas… mas continua… e a vida.
RAÍZ:_ Nem me fale. É como o rio sem curso habitual.
VAISA:–E o melhor? O melhor está por vir. Uma vida sem saudade.
RAÍZ:_Tenho cabeça pra pensar nisto agora não.
VAISA:—Findam-se os dias de ociosidade.
RAÍZ:—É só contornar os danos.
VAISA:—E as oportunidades? As festanças. As noites ininterruptas.
RAÍZ:—Agora não, depois.
VAISA:_E se depois for tarde? Se o momento for agora? Se o agora não esperar? RAÍZ:— No momento só quero me debruçar no esquecimento.
VAISA:_Pense no que é certo. No infinito cara!
RAÍZ:_Nada é certo. Nada é verdadeiro diante ato final.
VAISA:_Se não pode mudar o caráter nem oferecer o oposto.Mude-se então,Ou se degrade de vez.Mas que seja firme e leal.
RAÍZ:—Nunca houve lealdade maior.E aquilo buscado não é o mesmo que foi.Estão se perdendo nas coisas perdidas da vida.
VAISA:_Sei!… a tua dor..O sentimento, o coração magoado.
RAÍZ:_Ninguém entender o que não tem cor. Paz e sossego não tem preço.
VAISA:—E se juntarmos o que tem. A vontade de vencer a fórmula está aí .É receita certa.
RAÍZ:_Já passei por isso. Receitaram-me coisa e coisas. Descubro que a queda e o dinheiro não tem carismas.Ou o sujeito tem,ou nada se pode fazer.Ele dá o luxo,o suporte,o status até a elevação,mas sem o pé no chão…é massa fora de lugar.Cascalho somente.
VAISA:_Talvez, por ter ido à lugares improváveis. Aqui, quem tem pode. É só sugerir. A busca não acaba É passo por passo.
RAÍZ:_Agora?… assim?…Aqui? Improvável! Ali velam o meu melhor amigo. Um irmão. VAISA:_Um corpo… E nem viu o seu destino na esteira…Pense! É provável que seja assim. Um comanda o outro de fora.
RAÍZ:_ Já me lavei nisto também. É a sobriedade da vida contaminado um frasco qualquer.Nem vejo a encruzilhado afundando no destino à seguir…Ouve! Estão chamando o meu nome. Ele disse:todo mal vem da raíz.Ou,se a Raíz é má,o fruto é mau.Algo assim.
VAISA:_A voz que chama pelo seu nome diz isto?
RAÍZ:_A voz não.O momento pesaroso a dor.A consciência quem sabe.Por outro lado…parece-me bom o som…Parece não.É de mal agouro.
VAISA:—Elevemo-nos,enquanto podemos.Não haverá resposta depois e é tudo um nicho só.Posso ditar-lhe um trilhão de versos.De mentiras.De piedade se quiser.Até mesmo leituras saturadas do momento atual.Das sacanagens dos dias conturbados.Das idas e vindas.De tudo.Só não posso lhe desiludir.Nem tirar-lhe o sono.É bom ou não é?
RAÍZ:_Me absterei de dar-te respostas depois, agora não posso. No momento prefiro consumir-me ante essa dor. Não que seja má.Não é.Dor é sempre dor.Nada mais que dor. VAISA:_Compre de mim roupas brancas, para que a nudez de seus pensamentos não seja vistos.
RAÍZ:_Este, eu conheço. E tu o que é?
VAISA:_EU?..Sou,o que sou.
RAÍZ:_Não venha agora atormentar o meu sofrer. Deixe só.Não dê aquilo que não conhece.Ou aquilo que supura a dor. Não bastasse essa gente oprimida que insistem em assediar. As vezes tenho a impressão de está num funil.
CENA II
( RAIZ ACORDA.SENTA NA CAMA DE PIJAMA.VAISA ENTRA COM UMA PRANCHETA NAS MÃOS)
RAIZ:—Engraçado…na maior velocidade ai…..
VAISA:_SPLASH!!!
RAIZ:_Foi!! Como sabe?
VAISA:–Deduz-se!
RAIZ:_Não dei por conta. Tava lá na minha frente… Tava bem ali na minha cara. Dois faróis enormes. Lembro-me bem… Agora estou aqui, enterrado sob estes cobertores. Longe daquele imbécil!
VAISA:_fácil é entornar o caldo nos outros. Inevitável se a culpa não for nossa. Creditá-la aos outros é sempre o melhor caminho.
RAIZ:_Minha que não é.Sou muito cauteloso…Quando disse,e não mencionei nome algum.Quis dizer: Romã..
VAISA:_Culpar é o dever do devedor.
RAIZ:_(NÃO RESPONDE DE IMEDIATO) Se houvesse um alerta…é aquilo que se mede pela proporção.E não se mede pela qualificação.
VAISA:_E o caldo continua a ensopar o chão. Culpa….culpa que enche o próprio cantil.
RAIZ:_Do que me culpa? Não vê o estado em que me encontro?É fácil ficar aí surrando pessoas inocente quando não é sua a falta. Muito menos se for isto no sentido da dor. ( ELE SE ESPREGUIÇA) Ai,me dói todo! Estou sendo mandado de volta à fogueira.
VAISA:_Seu irmão?…de seu irmão hein!
RAIZ:_O que tem ele? Está aqui? Se estiver, espero que melhore.
VAISA:_ Espera?!
RAIZ:_É o que me vem à cabeça. Não quero vê-lo nas mesmas condições.
VAISA:_ Esses… estas condições? É tais o quê?
RAIZ:_Desse chão. Está infestado deles aqui. Sobem-me pelas pernas. Comem o meu alimento. É uma praga que ninguém dá jeito. Impossível é o dedetizamento. Tenho… tenho pra mim… Esses rastejantes não podem ser reais. E são… São sim. Carnívoros! Mordem o tempo todo. A fora as picadas… Rastejantes, snakes! São piores. Fui picado por uma na mão.
VAISA:_Tem mais alguma coisa que eu precise saber?
RAIZ:_ Não acredita não é? É só a noite cair e eles começam vaguear.
VAISA:_Devo lembrar-lhe do banco. Os necrófagos e do lixo. (FAZ QUE NÃO ENTENDEU)
CENA III
( DEPOIS DE ALGUNS SEGUNDOS RAIZ CONTINUA)
RAIZ:_Perfeitamente! Dos… O quê? É por isso que estou atado a este estado deplorável… Eu devia era ter desconfiado daquele canalha. Foi dele a culpa.
VAISA:_Dos sacos do lixo entupidos. E dos valores monetários ao vento. ( RAIZ CONTINUA SE ESQUIVANDO)
RAIZ:_O medo….O azedar de qualquer vinho.
VAISA:_O seu irmão é íntegro.
RAIZ:_Integridade lhe manda notícias. Um falso, que é. Como soube do banco? Foi ele? Sim foi ele! Ninguém mais sabia.
VAISA:_ Guardastes as sobras.
Raiz:_Não devia ter acontecido. Muita coisa não devia ter sido, e foi. Dinheiro fácil,vai como plumas ao vento.
VAISA:_Deu aos pobres imagino.
RAIZ:_Pobres?…Pobre sempre haverá… Fortunas…. Também. Como é enganoso o viés do poder….A gente sempre quer algo mais.
VAISA:_ E gastou todo dinheiro investindo em moradias?
RAIZ:_Empreendi. Gastei o meu tempo comprando vendendo e me divertindo.
VAISA:_Mal… Administrou muito mal. Não fosse o coitado da Romã, sabe se lá,em que lugar estaria agora.
RAIZ:_Lá vem o cara de novo. Poderia prestar mais atenção em mim?
VAISA:_Pois bem!…Vamos lá! Sabe quanto tempo está aqui?..Melhor… Pode me dizer o que fez e como gastou o dinheiro?
RAIZ:_Não gente, não dá mesmo. Até isto o crápula contou. Amigos! Quem precisa de inimigo com um amigo deste. Pensar que coloquei em primeiro plano a nossa amizade. É pra isto que servem os amigos, é? Trair-nos? Quero mais amizade não. A gente pensa que é tudo de boa companhia não, é não. Viver só é melhor.
VAISA:_Alisou,alisou,acabou se fazendo de vítima. Vai ou não vai dizer?Ou quer que eu diga?
RAIZ:_Investi. Não disse. Comprei, e comprei.E nada do que fiz deu certo.
VAISA:_Investiu é? Se queimar dinheiro é investimento. Então investiu. E a proposta?
RAIZ:_Proposta? Que proposta?
VAISA:_Foram muitas as propostas, não se lembra?…E acabou dormindo no relento. Comendo a comida que as pessoas colocavam nas latas de lixo.
RAIZ:_ Nada disto é verdadeiro. Ele lhe disse é? Amigo! Deus me livre deste. .Tive o desprazer de confiar meus bons momentos com um cara desses? Que se é de fazer.
VAISA:_Lhe direi eu. É o mau amigo: mau administrador. Mau companheiro e mal educado. Não bastasse a ruína total. Caído nas ruas,dormindo nas sarjetas e nos matos.Comendo restos do lixo.Ainda é mal agradecido.Tudo isto lhe sobreveio.De nenhuma deles tirou proveito algum.Se vê,é um semi nu.
RAIZ:_Como poderia eu saber se nenhum fato é verídico. É tudo inventado. Quem um dia havia de dizer… Depois do lhe proporcionei. É a vida! Assim é o ser humano.
VAISA:_Assim é a raiz, não é? Se a raiz é boa a árvore dá bons frutos senão…. E o Novidade?
RAIZ:—O que tem?
VAISA:—Foi o único que saiu perdendo na compensação.Deu-lhe a chave,a senha…..
RAIZ:—A mim não.Deu ao Romã que nos…Ou quase…Pensando foi o Novidade quem…
VAISA:—…Os salvou. Ainda assim passou-lhe a perna.Sendo Novidade o gerente do banco,ficou mais fácil a questão do rombo. Mas,….
RAIZ:—Foi o Romã.Foi ele quem lhe deu todo o serviço.Em que quarto está agora hein? Falso,hipócrita!
VAISA:—…A sua astúcia roubou-lhe a consciência. Anos se passam.As perdas..Até as pedra se encontram,Novidade…Aliás,o Novidade por causa desta aventura passou anos a fio numa penitênciaria pra pagar o que não fez. Sem portas arrombada.Sem…ah,sim um segurança eliminado. Como o gerente, Novidade recebeu a paga, e a conta. Pagou o que não comeu nem bebeu. E num semáforo..Um farol forte,alguns estampidos.Aqui estamos nós.
RAIZ:_Quer dizer… estou morto?
VAISA:_Depende. Se for a semente jogada na terra para germinar, pode ser. Se for para retornar no mal… Depende do que se pode ver do cume do monte. Vem cá. Olhe ali. ( ELE CHEGA ATÉ A JANELA.OLHA,VÊ AS VIDAS PASSAREM O ENTERRO,E TODO O ACONTECIDO.OLHA PRA ELA.E CAI DE JOELHOS COM AS MÃOS NA CABEÇA)
Raiz:--_Meu Deus! Então é!
E É FIM
SOLDO E SOMBRAS
CENA I
Cenário:
Uma venda, com tudo aquilo que tem numa venda.Carne de pendurada.Utensílios domésticos.
Em geral.O texto tem três(3) personagens.E são interpretados por 3 homens.
O senhor Samir Al Alsair está abrindo as portas do estabelecimento, quando um jovem entra.
Jovem: – Bom Dia seu Samir!
SAMIR: – Al Alsair! Al Alsair!
Jovem: – O senhor tem bucho de bode, seu Al Alsair?
SAMIR: – Tem! Vamos ter festa hoje é? Bucho de bode, é chama que festa pede.
JOVEM: – Sei lá! É a mãe quem quer.(Ele apanha o jornal, põe o bucho seco.O jovem paga e leva.Dona ASER entra no estabeleci mento com uma sacola nas mãos)
SAMIR: – É dia de festa mesmo! Nem bem está aberto, já tem o entra-e-sai.
D.ASER: – Seu Samir, bom dia!. Lembra do terreno que eu tinha pra venda?
SAMIR: -É Al Alsair dona Aser! Lembro! O que tem? Vendeu ele?
D.ASER: – A custa de muita espera vendi.
SAMIR: – Fez bem! É tudo tão demorado nos dia de hoje! O dinheirinho vem numa boa hora.Quem não tem dinheiro, nada vale neste mundo, dona Aser!
D.ASER: -Olha que o ser humano é precioso!. Pensei comigo pelo caminho… com esse dinheiro todo guardado em casa… Casa de mulher sozinha… quem sabe o seu Samir?… Seu Samir não há de se negar em guardar esse dinheiro pra mim?
SAMIR: – O que nós puder fazer, nós faz Dona Aser. Mas,nessa de guardar dinheiro, nós num pode.Dinheiro é feito roupa, tem de andar gruda ao seu dono.Cada um tem o seu cofre particular. É seu, proteja!
D.ASER: – ( Retirando um pacote da sacola) Aqui está! O senhor não vai me deixar andar por aí com uma quantia desta embrulhada num papel de pão, vai?
SAMIR: -(Samir esquece tudo que disse) Isto Daqui é o dinheirinho da senhora? Alá!!!(Ela assente com a cabeça que sim) Mas,…mas! É doideira! Não pode andar por aí com isto assim.
D.ASER: – Foi o moço que me deu.Eu não posso andar com isto por ai posso? (Dona Aser se depende e sai).Vou deixar, depois volto e pego (D.Aser se depende e sai).
SAMIR: – Alá! nós vai fazer o que agora?(Sai, corre até os cômodos de dentro.Guarda o dinheiro.Volta) Só nós sabe aonde está, de tão bem guardado que ficou.(Mal acabou de dizer.Dos jovens adentra na venda.Um Pará perto da porta.O outro vai até o balcão conversando).
Pessoa 1: -Por um acaso tem o senhor ai trigo para fazer kibe?
SAMIR: – Tem não senhor, mas, temos… (O jovem não o deixa completar)
Pessoa 1: – E água de flor de laranjeira, ou hortelã?
SAMIR: – É do mesmo jeito do trigo.As pessoas aqui do bairro não usa ingredientes do terra da gente. Se nós
compra, nós tem de jogar tudo fora.Fica tudo ai encalhado.
Pessoa 1: – Não te disse que esse árabe dia raque não vendia estas coisa? (O jovem que ficou encostado na porta. Fecha a porta, retira da cinta a arma)
Pessoa 2 : – Bala pra arma o senhor tem, não tem?!
CENA II
Há agora um corredor. No fundo do corredor uma porta entreaberta. Lúcio e Luís entram conversando e rindo muito.
Lúcio: – …E aquela da velha…aquilo é de matar! Não sabia se ia, ou se ficava.
luiz: – Parecia não querer acabar mais. O outro rolava no chão de tanto rir.As horas passando, a gente ali se debatendo aos prantos, e de riso boca-a-boca.
Lúcio: – (vê a porta entreaberta, mas ignora).Sujeito sujo!…A gente?…Quase comecei a contar aquele causo antigo.Aquele do…do…
luiz: – Viu a cara deles quando a gente disse…aqui estamos dando as nossas escapadinhas.Mas, é hoje só! (Risos)
Lúcio: – ( Lúcio, fala olhando para a porta). Deixamos a porta aberta quando saímos? A gente não devia esquecer isto!
luiz: – Não. Trancamos a porta antes de sair.Vou ver lá dentro.( Vai, volta aos berros),o pre..cio..o.. Precioso…prici…meu Deus!
LÚCIO: – Calma! (Segura-o pelo braço) Respira!…Conta em decrescente mentalmente.Calma.assim não entendo nada.Calma!
luiz: – (Vai se acalmando, contando lentamente) O precioso! Su..mi..u!!! sumiu o precioso do patrão!
LÚCIO: – Se estrangular não vai adiantar. É manter a calma!
luiz: – Calma demais é vício! Algo tem de ser feito.Não dá pra ter calma numa hora dessa.
Lúcio: – É o que penso também. Agora está feito, está! Vamos raciocinar!
luiz: – Se não me arrastasse.Nada disto tinha acontecido.Vigiar é vigiar.Eu não queria ir, não queria.
Lúcio: – Vem não! Também gostou! Ia feito uma hiena.
luiz: – E amanhã quando o patrão vier pra aprovar o serviço?. O que vamos dizer a ele?
LÚCIO: – Nada! Ele entra.Verifica,vê o fato.Depois…nos manda pra guilhotina.
luiz: – Eu tinha de lhe acompanhar!!(Lúcio vai medindo com os olhos os canto e andando com as mão para trás).
LÚCIO: – Quem veio…entraria por aquela porta.Outra entrada não há. Se ao menos tivesse uma pista? Um sinalzinho só!
luiz: – De tão cauteloso, e falta…se não tivéssemos ido contar piadas.ido pro meio de malucos.
LÚCIO: -Chorar não adianta.Manter a calma é o melhor remédio. Repetir também não leva à lugar nenhum.
luiz: – É fácil falar, quando não é o seu que está na reta.
LÚCIO: – É o que você quem diz.Para o Patrão não há acepção, os dois, é responsabilidade dos dois.
luiz: – Malditos minutinhos desperdiçados….quem teria entrado aqui, pra levar uma coisa só?
LÚCIO: – Uma coisa eu acho. É plano perfeito. Senão o Precioso estaria lá no lugar de sempre.
luiz: – Com tanta coisa pra roubar.Ouro,prata. Foi escolher logo o Precioso. Justo o que ele mais recomendou.Defunto encomendado não entra no céu. É que sempre digo.
LÚCIO: – É o que eu digo também! Foi de plano feito. Foi alguém que sabia o que queria. E conhece todos os nossos passos.
luiz: – Amanhã!!!Amanhã quando o sol entrar por aquela fresta (Aponta na direção de uma minúscula janela).É o último minutos de nós dois.O patrão não vai deixar de graça, se nos advertiu tanto sobre aquela coisas valiosa dele.
Lúcio:–Há sempre uma saída. Nenhuma gota cai no chão sem propósito.
(Os dois caem exaustos no chão, um pra cada lado)
CENA III
( Dois soldados tomando nota.Samir mostra à eles canto a canto.Vai contando o ocorrido, eles anotando num caderninho)
SOLDADO I: — Um estava parado ali na frente da porta, é isto?
SAMIR: – É como nós dissemos pro senhor. O que parou na frente da porta, não deixou ninguém entrar.
SOLDADO II: -O senhor não disse que estava sozinho na hora do roubo?
SAMIR: –Nós já não lembrar de mais nada. Se nós tá dizendo que foi assim. Assim foi.
SOLDADO I: – O senhor está nervoso. Comecemos do primeiro ponto. É assim que procedem as investigações. Temos que colher o máximo de evidências. Cada detalhe é importante. Uma coisa tem que se encaixar com a outra. Aqui o senhor empilhou as compras, certo? (Aponta para o canto)
SAMIR: – É isto! Levaram tudo que eu tinha comprado. A gente repõe as mercadorias senão a venda não é venda. Sem mercadoria, nós não pode continuar a vender, nós num vende vento.
SOLDADO II: – Até aí entendemos. O que não encaixa, é os dois aí perdendo tempo com conversa. Não tinha ninguém mais além dos dois?Carregaram as compras em carrinho de construção?
SAMIR: -No caminhão deles suponho! Dois entra, outros fica lá do lado de fora esperando a hora de entrar. É assim que funciona, não é?
SOLDADO I: – Como sabe que funciona assim? Deram dicas ao senhor? Carregaram pacote por pacote?Na certeza,não na suposição.Que o senhor supõe!
SOLDADOII: – Está muito esquisito esse roubo. O senhor disse que adormeceu. Bateram-lhe!
SAMIR: – Já disse, foram lá dentro. Pegaram um copo com água e me deram.Eu estava muito nervoso.Acho que puseram alguma coisa pra eu dormir.
SOLDADO II: – Bateram ou não bateram no senhor?
SOLDADO I: – Tá meio sem rumo isto aqui!
SAMIR: – Tá não senhor! Sei muito bem o que é o certo! Já disse que entram.Carregaram,me deram um copo com água… acordei com tudo limpo.É tudo que sei.Não tem nada nas prateleiras,têm?
SOLDADO I: – Come é mesmo o nome do senhor (Examina a prancheta que trás na mãos)? Ah, samir!…Samir Al Alsair.Então seu al Alsair.O que o meu colega quer dizer…pra agilizar a parada com mais agilidade.Tem de rolar um….
SAMIR: – É de agilidade que nós precisa.Traduza isto para o português.
SOLDADO II: – É o caso d’uns dois ou três paus só.
SAMIR: – Que quer dizer o quê?
SOLDADO I: – ( Chama o colega num canto e conversam).Tá ficando doido.É muito pouco.( Voltam para Samir)
Deve dar uns dez por centro do valor, no valor da carga roubada.Ainda tem o se a encontrar.Estamos praticamente nos endividando,e acabamos sendo lesados,se concordar com pouca coisa.O senhor paga,a gente devolve.Um ajuda o outro.
SAMIR: – Quer tirar de nós o que nós não tem? Nem vai respeitar o meu direito de cidadão? Nós aqui,paga taxas disto,taxas daquilo.Impostos,alvará aluguel do ponto.Nós não vai dar nada.Isto é um serviço prestado com obrigação de vocês.
SOLDADO I: – (Chama de novo o colega no canto) Esse ai é osso duro.Isto pode dar cana.A gente disfarça,chama o homem noutra conversa, e encerra a parada.(O soldado II concorda franzindo a testa)
SAMIR: – Como é! Vai ficar ai de segredinho até quando? Nós tem serviço pra fazer! Tem de ter uma solução logo.
SOLDADO I: – O senhor está com sorte,seu Al Alsair.Devido ao caráter do meliante,e da dureza da situação.Chegamos a um acordo.Ou seja, é tudo feito sob a lei.
SAMIR: – Que fora da lei não há salvação.
(Os soldados rabiscam alguma coisa na prancheta, saem em seguida. Samir se sentindo aliviado,vai até a porta,fecha-a).
SAMIR—O dinheirinho da dona Aser!! (Sai correndo para os fundos.Depois volta.Vem de lá com o pacote de dinheiro nas mãos).
SAMIR–Alá, Alá! Ainda bem que no dinheirinho da dona Aser,ninguém tocou.(Começa a fazer um tipo de ritual,ajoelha,levanda) Por que Alá? Como foi fazer isto com nós? Primeiro manda os ladrão.Depois manda outros piores. Aquele polícia ia tirar de nós o que nós não tem. Que faz nós agora?(Tem um pouco de atrito consigo. Reflete e conclui).Nós pega emprestado com a dona Aser um pouquinho desse dinheiro.Compra outras mercadorias.Assim nós resolve a situação da venda.Nós resolve tudo.Ah,Alá! Parece que foi tudo feito do mal pro bem.(Samir confiante).A dona Aser não vai deixar um amigo morrer afogado.É a saída que nós tem.Os ladrões entraram para pegar a água,remexeram tudo,e só leva as mercadorias.Se me leva o dinheiro da dona Aser!.. Eu tava ferrado. Além das mercadores,ia ter que pagar esse montão de dinheiro também.Já dou por perdido as mercadorias.Eles investiga,mas não chega a nada.O mais certo é tomar emprestado na mão da dona Aser,e botar uma pedra em cima.Esquecer mesmo.De tão escondido que o dinheiro tava,ninguém ia encontrar.(Samir alisa o dinheiro.Embrulha-o novamente.Entra para os fundos da venda para devolvê-lo ao seu esconderijo).
CENA IV
(Lúcio, levanta,dá uma espreguiçado,olha em volta,sai em direção à porta.Pega a chave,abre-a.Volta cabisbaixo e acorda Luiz)
LÚCIO: – Acorda Luiz! Vai dormir a noite toda? Vigias são pagos pra vigiar,não pra dormir.Acorda! (Luiz,acorda meio com preguiça)
LUIZ: – Já amanheceu?
LÚCIO: – Graças a Deus não! Bom seria se não amanhecesse nunca mais.
LUIZ: – Vou colocar um pouco de água nas mãos pra lavar os olhos.Acaba com o sono.(Sai pro banheiro)
LÚCIO: –Se preocupar pra que.Não vamos acorda mais.O amanhã!…Se é que vamos precisar dele lá pra onde o corpo vai!
LUIZ: – ( Volta com o rosto molhado)Enquanto lavava os olhos.Me lembrei de uma coisa.Quem lhe deu o dinheiro pra comprar o terreno da dona Aser?Você contava pra todo mundo lá no bar.Festejava a compra.Quem lhe deu o dinheiro?
LÚCIO: – ( Lúcio olha-o meio de lado) Como o que?
LUIZ:–De onde saiu o dinheiro,só isto.
LÚCIO: –Não estou autorizado a lhe dizer no momento.
LUIZ: — No momento? Mas vai dizer?
LÚCIO: –Sob coação never!
LUIZ: –Meu Deus do céu! Achei que éramos amigos.De amigo nada se esconde.
LUZ: –Há no seu tom de voz insinuações.Não gosto de insinuações.Amigo não julga.Amigo entende. LUIZ: –Depende do que estiver em jogo.É jogo aberto.Aqui um depende e defende a vida do outro.
LÚCIO: –Sem essa de falso moralismo.A gente nem amigo é,se fosse,questionava como se pluma fosse.Não pesava a mão sobre o que pensasses, nem julgavas.Ainda que fosse penoso e certeiro feito o raio.
LUIZ: – (Concluí) A coroa estaria intacta. O nosso valioso metal, no seu lugar estaria.A gente é amigo sim.Diga o que fez.Assim evita duas mortes numa noite só.Salva a sua cabeça e a minha.Já que o papo está no nível que tá.
LÚCIO: – Aí tem razão.O teu é o mais importante.Salva-se a luva, e fende-se os dedos. LUIZ: – Assim que o patrão entrar por aquela porta.Direi a verdade.Salvo o meu,se é o quer saber. LÚCIO: — O diabo é que a vida se esvai feito a água numa peneira.Se a gente parasse pra pensar…Se se mordesse menos.
LUIZ: –Dinheiro não caí nas mãos assim.De algum lugar saiu. Alguma coisa vendeu pra adquiri o tal terreno.É o álibi que tenho. é o que acho.
LÚCIO: – Prestou atenção? Até agora só fez me condenar.Não parou um segundo pra ouvir o meu lado.Que te importa de onde saiu o dinheiro? Era meu! A mim interessa,só a mim.Dou a explicação que me aprove dar.
LUIZ: –E o porém? Há sempre um porém! O dia não espera as suas resoluções.Tem hora pra tudo.O sol tem seu turno.Não atrasa.Com,ou sem explicação ele segue o seu rumo…eu nada comprei.A morte é sua não minha,a mim não acompanha.
LÚCIO: – Acompanha sim.Ah acompanha! ( Dá-se alguns segundos de silêncio.Apenas pra pensar um pouco mais no que aconteceu.Os dois andam de um lado a outro,tentando buscar saída).
LUIZ:-Ao invés de terreno.Um seguro de vida,não teria sido melhor? A sua mulher levaria uma vida farta.
LÚCIO: —É pra rir, ou é pra chorar?
LUIZ: – A sua mulher ia agradecer.A família com o futuro garantido.Além do dinheiro angariado com a venda do objeto do furto.Tinha o seguro de vida, pra bancar a farra.Devia ter pensado melhor.Terreno!..É,quem compra terra não erra.Tá falado!
ÚCIO: – Já disse que não roubei nada.Essa conversa já começa a encher.
LUIZ: – Convencer é que é o difícil..
LÚCIO: -Nada posso fazer.Se comover o seu coração com explicação curtinha,fosse o mote.Seria o relatório mais sensato.Esse gostinho não vou lhe dar.
LUIZ: – Que amigo! Depois disto,fica se achando.Tentando se colocar contra o meu próprio sentimento.Palavras suaves,não suavisa a queda meu chapa.Se roubaste,dê ao roubo um cunho melhor.
Lúcio:—É termo perdido.E o tempo é o nosso maior inimigo.A mesmo coisa posso pensar do nobre colega.
LUIZ:—Pode não.Apresento-lhe na minha defesa,a verdade.Não há nada mais convincente do que a verdade.
LÚCIO:–A sua verdade.Desde quando a sua verdade serve de base pra incriminar alguém? ( Luiz nada diz.Olha-o como se quisesse dizer,mas,não diz.Há um longo silêncio.)
LUIZ:–Eu devia ter dedicado mais a mim…um indivíduo que faz as coisas com relaxamento,cuidando apenas do seu parecer…comprimidos…tomar soníferos apaga,a gente nunca vai saber que morreu..e morrer é feito dormir? Poder a vida por tão pouca coisa! Ainda que seja por ouro.Ouro é eterno,a gente não.A gente vai,e o ouro fica.(Novamente o silêncio)
CENA V
(Samir tinha acabado de arrumar as poucas mercadorias que restava na prateleira,quando o jovem entra na sua venda.O mesmo Jovem do inicio).
SAMIR:-Se vem buscar mais bucho de bode pra sua mãe,pode dar meia volta.Olha nas prateleiras.
JOVEM: -Ih,né isso não! Vim por que tão dizendo no bairro,a dona Aser sumiu.Que o senhor foi a última pessoa que a viu. (Samir pára o que fazia,olha assustado para o jovem)
SAMIR: -O povo diz o que? a dona Aser o que moleque?
JOVEM:–Moleque não.É isto que circula aí pelo bairro.Vai me dizer que não sabe?Desde sexta-feira ela está desaparecida.Uma pessoa viu a dona Aser entrar aqui com uma sacola na mão,e saiu sem ela.Desde sexta-feira ninguém vê a dona Aser.Mas,essa pessoa jura que viu ela sair daqui.Depois sumiu.
SAMIR:-Dona Aser sai daqui e some?Some como?Ninguém some assim.
JOVEM: Outros acreditam que ela está morta.Sai um cheiro forte da porta da casa dela.É de corpos se decompondo.Ela mora sozinha,o senhor sabe.Em três dias,o corpo incha e fede.(Samir corta angustiado,começa a mistura as palavras).
SAMIR:-Tem cheiro de morte? Sai pra lá mentiroso.Essa gente não tendo o que dizer,inventa.É pra botar medo em nós.Nós num crê em nada disto.
JOVEM:–E cada um diz uma coisa.Sabe como é,uma pessoa some….logo a dona Aser,uma velhinha tão comunicativa,simpática! Pra mim está morta lá naquele mausoléu.Vão ter que arrombar a porta pra retirar o corpo pobre.A morte não escolhe cara,nem lugar,hora,muito menos! Tá aqui,num minutinho cai morto!
SAMIR:-(Nervoso e confuso) Falaram mais o que?
JOVEM:-O que estou relatando.Fatos, são fatos.E eles dizem por si.
SAMIR:-É tudo mentira! Conversa de gente sem o que fazer.Dona Aser…a dona Aser não ia fazer uma bobagem dessa.Justo com nós!
JOVEM:–A gente não escolhe a morte seu Samir.É a morte quem escolhe a gente.Chegou a hora,chegou a hora,ponto.Quando o povo fala,é bom não duvidar.O cheiro podre se espalha infestando tudo.O cheiro é o delator.O povo do bairro? Sentirá a falta dela.Fazer o que,morreu,acabou!
SAMIR:–É uma bicho morta lá dentro.A dona Aser saiu pra visitar a irmã.Nós tá é preocupado com o que levaram de nós.Cada um que resolva os seus problemas.Pode dar licença pra nós,já que nada vai comprar.Dona Aser tem parente que cuida dela.Morta ou viva,a verdade também vem a tona.Pode sair agora.Nós vai dar uma caminhada.Nós tá muito abafado aqui.Nós precisar de ar.
JOVEM:-Nossa seu Samir.Vim na maior.Achei que o senhor também gostasse de dona Aser.Nossa que vexame!
SAMIR:-Al Alsair,pra você! Al Alsair. Gostá nós gosta.Agora pode ir,nós já sabe da novidade,fofoqueiro!(O jovem sai irritado, Samir anda de um lado para o outro)E agora Alá? o senhor exagerou.Primeiro,manda aqueles ladrão limpar a venda de nós.Entra a dona Aser com este dinheiro todo.(Aponta para dentro)Que quer o senhor agora hein! Botar nós de conta a parede?Fuzilar nós com sentimento? Não, o senhor não pode fazer isto com nós.Ah,Alá, não deixar nós cair em tentação.Se alguém descobre. E o cara que comprou o terreno quem será ele?Foi o dono do dinheiro.Um dinheiro sem sorte na mão de nós,sem dono.Vamos ter que esperar algum tempo pra….Não deixar nós cair em tentação.Terá alguém o conhecimento do dinheiro? (Pausa)Todo mundo sabe que nós está sem nada.Que nós foi….que brasa o senhor colocar nas mãos de nós.Atado agora nada nós poder fazer.Ah,Alá! Ah,Alá!(Cai de joelhos no chão.A cena é de um desesperado).
CENA VI
( Luiz,está andando de um lado pro outro.Ora assenta,ora anda.Esfrega as mãos. Lúcio, saiu para comprar o lancha e não volta de imediato).
LUIZ: – Fugiu! Ele fugiu! Fui um imbecil! Eu é quem devia ter indo comprar o lanche. Que direi ao patrão? Vou ser o mimo do sacrifício. Pagar por um crime que não cometi.Se ele se for,quem paga a dívida sou eu.E a culpa nem minha é.Quem vai provar a minha inocência?Ninguém conhecem a verdade.Que verdade há nisto tudo.E o objeto,que valor teria pra valer tanto? ( LÚCIO chega tão de mansinho,que parecia um gato andando em cima de tapetes fofos.Finge nada ouvir.)
LÚCIO: – Que foi? Que cara é essa? (LUIZ,não sabia se ria,se gritava,ou se chorava)
LUIZ: -É só nervosismo mesmo.Que trouxe pra este leito de mortos?(LÚCIO,trazia sacolas,uma em cada mão)
LÚCIO: -Pão,mortadela e minalba.
LUIZ: – É isto que a gente come hoje? Pão,mortadela e minalba?Isto não dá sangue gente!
LÚCIO: – É o que pude achar.O supermercado fica muito longe.Além do mais é domingo, e,é tarde,muito tarde.
LUIZ: – Pão com mortadela! É o fim da picada!
LÚCIO: – Pra última refeição d’um afogado, e atolado em lodos. Nos países que têm a pena de morte.O moribundo,come na sua última refeição,aquilo que quiser comer.O sujeito vai morrer mesmo.Pede coisas que em vida não teve.
LUIZ: – Mas pra gente não.É pão com mortadela.Pra que dizem: “que ele descanse em paz”.Será que além de descanso,lá não existe paz? Imagina eu chegando no quinto andar, e perguntam :-Comeu o quê naquela noite de infortúnio?Respondo…(CORTANDO)
LÚCIO: – Chega desse assunto chato.Essa repetição nojenta.Esse cochichamento nas costas da gente.Essa falcidade da pele.Chega de tudo.Chega!!!Não dá pra ficar fantasiado. O dia não espera.A hora é chegada.O patrão está atrasado,mas vem.Uma resolução a gente tem que apresentar.O precioso dele sumiu.Ele foi bem claro,quando o apresentou dizendo que era a coisa mais importante em todo o seu erário.(Luis, assentou-se no chão.Ficou observando,por muito tempo o teto.Lúcio por sua vez,fica parado olhando as sacolas,abrindo o pãp com as mãos e colocando a mortadela.Luiz pega um e o guaraná com cara de nojo e come também.Lúcio, levanta.Vai até o corredor.Abri a porta,entra.Luiz continua a olhar para o teto.Ouve-se o tilintar de um aparelho celular.Lúcio,sai correndo coma as mãos molhadas.Abri uma das sacolas.Pega o aparelho e atende):- Foi o que eu disse.É domingo sei,só que o patrão ainda não deu as caras aqui.Como vou fazer isto estando aprisionado neste…?Só pode ser amanhã.Agora? Agora não dá! Isto não,não é possível! Tem,tem,tanto ele quanto eu(Luiz neste instante está aparelhado com Lúcio pra ouvir a conversa),um não pode sair e o outro ficar.Daqui a pouco o patrão chega,a gente sai.(Lúcio tem em seu semblante estampada a tristeza quando diz cada palavra)Sim,resolvo tudo numa boa! Pra ti também!(Desliga o telefone)
Luiz:-Não é mais proibido trazer celular pra cá?(Lúcio,simplesmente dá uma olhada.Volta ao que estava fazendo.Depois entra para no corredor.(Sozinho,Luiz começa a fazer insinuações).Falava com quem? Foi ele mesmo,foi sim! O patrão foi bem claro,quando diz que não permitia o uso de aparelho celular na hora do trabalho.Atrapalha o serviço dos outros. Deus, como atrapalha! Dúvida não há.Se é um de nós dois…o telefonema,as palavras cortadas ao meio.Tudo é muito esquisito.Alguém roubou.Se não fui eu…quem foi? Tem mais alguém aqui além de nós dois? Não tem.Quem comprou o terreno da dona Aser? Quem…(Quando ia completar a frase,Lúcio chaga com um sorriso nos lábios).
LÚCIO: – Vou me deitar um pouco aqui.Tomei uns comprimidos pra aplacar a dor de cabeça.Se eu dormir não me acorde.Só quero acordar quando o patrão adentrar por aquela porta ali.(Aponta pra porta)
LUIZ: – Vai me deixar só de novo.Fomos contratados para trabalhar,não pra dormir.
LÚCIO: – Me deixa tá,a vida já me amolou o bastante.Que sonolência!(Abri a boca) Este remedinho faz um redemoinho na cabeça da gente.(LÚCIO dorme.Luis aproveita e dorme também.Depois de muito tempo,Luiz levanta meio sonolento.Sacode o colega.LÚCIO não dá sinal de vida alguma.Luiz coloca a mão no pulso dele,o pulso está parado.O coração não bate).
LUIZ:-(Apavorado)Desgraçado,desgraçado,desgraçado!!!(Luiz sai correndo até atravessar a porta do corredor.Volta,remexe os bolsos de Lúcio) Nada.Este maldito não deixou um só comprimido.(Ouve-se ao fundo O PATRÃO NOSSE DE CADA DIA,do grupo SECOS&MOLHADOS.No momento em que Luiz ouve o último tocar do sina na música,diz):–Era só de brincadeira…não falei pra comprar comprimidos! Era brincadeira!
CENA VII
( Samir, vai até a porta,abre até o canto as duas partes.Vai até uma caixa,retira dela alguns utensílios.O Jovem entra na venda.Fixa os olhos nas caixas.Olha para todos os lados fazendo gestos.Samir,ao se virar,vê o Jovem observando os produtos).
SAMIR:–Vai ficar aí estancado até quando? Se não vem pra comprar,pode dar meia volta e se mandar.
JOVEM:–Queria ver com os meus próprios olhos.
SAMIR:—Já viu? Agora pode ir! Diga pra sua mãe que nós agora tem bucho fresquinho.
JOVEM:–O senhor é rabudo mesmo! Receber o objeto do roubo com juros é demais.
SAMIR:–Que tá dizendo aí,hein?
JOVEM:–É um homem largo o senhor.Vai ter sorte assim…com juros e tudo!( O Jovem sai de cena comentando pra si)
SAMIR:–Esse aí é doido de pedra.(Continua a colocar as mercadorias.Quando se vira novamente,a Dona Aser ali,parada a observá-lo) Todo mundo acha que a senhora está morta.
ASER:–Brincadeira tem hora seu Samir! Muita gente quer é ver os velhos desocupar lugar.E estão de olho é nos meus ganhos.
SAMIR:–A senhora somiu um fim-de-semana inteiro. Quando alguém some,ou tá preso,ganhou na loteria,ou morreu.
ASER:–De vez enquanto,é bom dar uma sumidinha.Pro senhor ver, já estão sentindo a minha falta.Estou bem,e a vida continua.Viva seu Samir,bem viva!
SAMIR:–Al Alsair dona Aser! E nós aqui se derramando em lágrimas por saudade da senhora.
SER:–Vou acreditar! Estou com pressa seu Samir.E o dinheiro?
SAMIR:–Alá seja louvado mais uma vez pela senhora.Nós escondeu de tal maneira, que nem nós tinha certeza do lugar.
ASER:–Com o senhor,o meu dinheirinho está em segurança.Ainda tenho que fazer muita coisa seu samir.Tenho pressa,se apresse!
SAMIR:–O dinheiro da senhora?.. nós quer agora é saber pra onde a senhora andou.
ASER:–Vamos deixar do jeito que está.
SAMIR:–Não,não vamos não! A senhora me deve explicação.Deve explicação à todos os do bairro.Que fedor era aquele que saia da casa da senhora?Todo mundo achava que o seu corpo derretia lá.
ASER:–Ah,isto eu posso explicar! Naquele dia.Eu já arrumada pra sair.Fui visitar a minha irmã…o senhor sabe que uma vez por mês,eu visito a minha irmã.Mas,na hora que eu ia sair,o Lúcio…o senhor sabe quem é o Lúcio não sabe?
SAMIR:–Sei quem é.
ASER:–Pois é,o Lúcio e a esposa,aparece bem na hora que eu ia sair.Pra que? Pra comprar o tal do terreno que tinha posto pra vender.
SAMIR:–E de que lugar ele tirou o dinheiro pra comprar o terreno da senhora?
ASER:–O senhor não sabe?Todo mundo sabe,menos o senhor! (Dá uma risadinha) A mulher…mulher sortuda!! Ganhou nos números da loteria.O dinheiro era a quantia certa pra comprar o terreno.. admiro a inteligente dos dois! Eu,de um lado emocionada pela venda.Do outro,pela sorte da mulher.Na conversa toda,me esqueci da hora.E tinha colocado a carne pra descongelar em cima da pia.Juntando tudo! Se eu fosse àquela hora pro banco colocar o dinheiro,não ia dar tempo.Foi aí que me veio a sua imagem à cabeça.
SAMIR:–Nós! Pau pra toda obra né! A senhora deixou em nós dois sofrimento,se a senhora morre,nós não pode gastar o dinheiro.Se os ladrão leva o dinheiro da senhora nós ter que pagar.E é muito dinheiro.Agora nós perde o dinheiro pra seu legítimo dono.(Samir vai nos fundos da loja,pega o embrulho com o dinheiro,entrega-o a dona Aser.Ela abri o embrulho)
SAMIR:–Pode conferir dona Aser.Pode conferir!
ASER:—É isso não seu Samir.(Ela retira algumas notas e dá ao Samir)
SAMIR:–Pra que isso dona Aser?
ASER:–Não estou lhe pagando nada.É só pra compensar a espera.Se fosse pra pagar.Esse dinheiro não seria o suficiente.(Ela se despede e sai agradecida e feliz)
SAMIR:–Munheca! Uma merdinha de nada.Era melhor não dar nada.
CENA VIII
(No bolso da camisa,Luiz encontra uma carta.Ao som do BOLERO DE RAVEL,começa a ler). É,a vida toma rumos que a gente não percebe,ou nunca imagina.Quem imaginaria que ontem,ou a alguns minutos atrás,eu comia a minha última refeição.A vida é assim! Num minuto,tudo cai,a vida vira,e a gente morre.Quem imaginaria que num teste para um trabalho efetivado fosse dar no que deu?Não sei se por mim,ou...os comprimidos começam a me deixar sem opção.A casa...a nossa casa,você vai gostar de lá.Que rua tranquila é aquela rua!A preciosidade do patrão criou asas...sumiu!!Não culpo eu, nem culpo o Luiz.Não me pergunte quem foi.A culpa é da nossa falta de tato,não admistramos bem a propriedade alheia.Fomos chamados para tomar conta dos bens...nem fomos contratados. É a fase das primeiras semanas da esperiência.Foram as nossas primeiras noites.Que noites!!Estou indo,comigo a culpa vai...O Luiz? O Luiz fica livre da pressão,e da incapacidade de servir. Diz que escrevi a verdade,o... ele não,nunca entenderá.Pra semente nascer,a semente tem que morrer.A gente nada leva daqui,mas fica...os zumbidos na cabeça...é estranho! O corpo pesa...começa um formigamento. Não queria ficar no esquecimento... ninguém espera a hora,e eu estou fazeno a minha! coação?...É,coação! Entende? Tem motivo? Motivos sempre tem,e um abismo leva a outro abismo...A mão não consegue segurar a caneta com firmeza...é a hora do descanso do guerreiro.( Luiz coloca as mãos no rosto) Me dei tão pouco...e...tanto sacrifício por tão pouca coisa.A gente é pó,volta ao pó...é a hora do descanso mesmo.Aproveite bem a sua nova casa.
LUIZ:-Desgraçado! (Remexe os bolsos) Nenhum comprimido. Egoísta! Quem vai acreditar numa coisa assim? Ninguém vai acreditar em mim..(Luiz sai da sala.Entra pela porta que está aberta.Volta com uma corda amarrada no pescoço.Nas mãos trás uma cadeira.Coloca a cadeira debaixo de uma viga de aço que se sustentava na parede perto de uma entrada bem pequena,por onde os raios do sol entrava.Sobe na cadeira.Joga a corda sobre a viga de aço.Fica nas pontas dos dedos.É um a dificuldade ardida,doida.Quando percebe que não suporta mais,se joga empurrando a cadeira para o lado.Fica ali dependurado o corpo a balançar. Ja é o outro dia.Ouvi-se assovios,ranger de portas.Chaves entrando em fechaduras.Um foco de luz ilumina um homem que entra com um molho de chaves nas mãos.Em baixo do braço,um pequeno baú.
SAMIR:- Que escuridão!( Ele ainda não vê os corpos) Que silêncio! Os dois dorme com certeza.Não tem barulho nenhum.Pra o Senhor ver Alá,nem bem passou pelo teste,já estão dormindo no serviço.Olhei no quarto do corredor,lá não tem ninguém.Aqui também,não vejo.Ah não ser...(Para pasmo quando se depara com o corpo esticado de Lúcio) é disso que estou falando,dorme igual a uma pedra.(Vai balançá-lo, quando vê o corpo de Luiz dependurado a balançar) E isso agora?(Olha um, olha o outro.Deixa de sacudir Lúcio.Aí vê a carta.Pega-a lê.) Viu o que fez você pra nós Alá? ah Alá! Pra que uma coisa desta?Com tanto acontecimento Nós tinha esquecido os coitados aqui.Nós nunca ia imaginar uma coisa assim.O senhor sabe que antes de confirmar o empregado,nós põe a prova.Mostra todo o nosso patrimônio pro candidato.Fala pra ele que tem de olhar de vez em quando tudo que tem lá dentro.Aí nós vem pela entrada secreta.Pego o objeto que não pode ser roubado.Se no dia seguinte o candidato conta pra nós que sumiu alguma coisa.Está assustado.Este é um bom empregado.Se não conta,este nós não quer.É um mal empregado.Nós precisa de gente de confiança. Nós não podia imaginar que fosse ter esse fim.(Samir passa a mão na cabeça.Olha pra um e para o outro.Rasga a carta em pedacinhos, coloca na boca e mastiga.Depois cospe no chão).Agora nós tem de chamar as famílias.Eles toma as providências.. esses dois...o jeito é chamar a família mesmo.O Senhor põe nós em cada enrascada! (O BOLERO DE RAVEL AUMENTA ATÉ O FIM)
FIM.
CENA I
E O CULTO TINHA ACABADO DE ACABAR.UM HOMEM VESTINDO TERNO,BEM APARENTADO,ASSENTADO NA PONTA DA FILEIRA. OBSERVAVA CADA JESTO DO PASTOR ENQUANTO FAZIA RELATO DOS TEXTOS BÍBLICOS.
PASTOR:_....E que o SENHOR te guarde;O SENHOR ponha a mão sobre ti;Que O SENHOR levante os olhos sobre ti e te dê a paz.( MINUTOS DEPOIS,TODOS SAEM DA IGREJA,MENOS O HOMEM, QUE CONTINUAVA ASSENTADO).
EVAIR:--Bem aproveitado o culto.
PASTOR:--É o que Deus espera de nós. A mensagem deve seguir quem a ouve e aceita.É de qual igreja o visitante?
EVAIR:-- Estou de passear.
PASTOR:--Aqui,nós gostamos de visitantes.Somos uma só família.Mesmo que não frequente outra igreja,volte!
EVAIR:--Boa é a igreja do senhor.Bem...arejada!
PASTOR:_É do povo de Deus.Só administro.Um pastor deve cuidar bem das suas ovelhas.É o que agrada aos olhos de Deus.
EVAIR:-- E...cuida com muito Zêlo?...É...cabe dentro da oferta.
PASTOR:--Vem pela primeira vez, entendo!... Mas se quer ofertar pra casa do Deus vivo. Se sinta acanhado não.Deus ama quem dá com alegria.Qualquer quantia nos cai bem.Sabe como é...O senhor se agrada de quem oferta.Principalmente quando é dada de coração.
EVAIR:--Entendo!!!Senão o...é muito pobre a casa do senhor?.(DEBOCHADO)
PASTOR:_Queira perdoar-me meu jovem.Tenho que fechar a igreja...Pode dar a sua oferta se assim lhe cair bem.Senão,a noite não espera sem nos surpreender.
EVAIR:--É.. ainda tem o feriado de amanhã...quem sabe pelo medo...não, o senhor não está desdenhando a minha oferta.O mal é que nem a quantia estimei.
PASTOR:--Fiz muitos cultos hoje.Estou precisando me recompor...Se me der licênça!
Está na hora.Volte outro dia...Vou ter que ir...a igreja precisa ser fechada.
EVAIR-- Assim o senhor me assusta! Fechar pra que,se o verbo é abrir mais e mais?E o senhor nada tem pra fazer hoje.
PASTOR:--( MEIO ASSUSTADO MAS,FIRME E CALMO). Engano seu.Eu não paro.
EVAIR:--Ah!... As intermináveis visitas.
PASTOR:--Todo bom pastor deve vê como anda as ovelhas.Cuidar,e bem!
EVAIR:--Principalmente as gordinhas.Se bem que andam diminuindo muito...pra não engordar.Mas,ainda têm as tolas.As rebeldes.E o vento nem sempre sopra de onde se espera não é verdade?
PASTOR:--Estou entendendo não...Vem como vem inverno.Conhece nada de trabalho pastoral.Quer definir o que quer dizer com esta conversa?
EVAIR:---Engano do senhor...o conheço muitíssimo bem.Admiro o trabalho do Pastoreado.Tanto é que aqui estou.E sem máscaras.
PASTOR:--Já sei! É oração! O que está precisando é de oração.Devia ter dito logo.(VAI COLOCAR AS MÃOS NA CABEÇA.ELE REFUGA).
EVAIR:--Tire isto de cima de mim.
PASTOR:--O que queres então?
EVAIR:---O senhor pastor,o senhor! (QUE FICA MAIS CONFUSO AINDA)
PASTOR:--E o que quer de mim?
EVAIR:--Nada.Não se imagina quer o que já é seu.(NISTO EVAIR CLOCA AS MÃO SOBRE A CABEÇA DO PASTOR,QUE TENTA RESTIRAR E NÃO CONSEGUE)
PASTOR:--Mas,se é din...quero dizer. Estamos....Olha aqui se...eu fui comprado pelo...ai,uma tonterazinha repentina! Que dor!
EVAIR--Senta aqui pastor...Pecado não é a forma lógica,mas é a moeda. É um bom o preço.Não doi nada e ainda compensa a forma.
PASTOR:--Esta igreja é santa.Foi consagrada por Deus.Têm sujeira nas outras, aqui não!
EVAIR:--É boa a motivação.Uma assim, supera no seu valor.Eu compro!!!
PASTOR:--Estou tonto. A mente confusa! Nem mais sei o que tenho à dizer.
EVAIR:--É feito pingo d'água espatifando no chão,contra o vento nas frestas da erosão.
PASTOR:--Será que tomei algo que fez mal? Desculpe a minha indisposição.Estou me sentido lerdo.
EVAIR:--Em que vicículo está escrito,que crianças devem pagar dízimos? Ou dar ofertas?
PASTOR:--Nem podem.Isto cabe aos pais somente.
EVAIR:--E pra tecer a teia ,temos que fazer.É contribuição como outra qualquer.Criança também paga dízimo sim senhor.
PASTOR:--Isto é desonesto na casa do senhor.É,ilegal.
EVAIR:--Desde que me contemple,como as luvas que saciam os dedos,nada ...nada é ilicito.Nada é ilegal.Tudo é lícito.E tudo pode.
PASTOR:--O senhor me pega de surpresa.Estou sem condição de...dê-me tempo....É só o tempo de me recompor.Ainda me doi a carne.Minhas pernas tremem dentro das calças.
EVAIR:--É o que não temos.O tempo forma crostas.E a gente acaba roendo unhas.O grande vilão...é o tempo caro pastor.
PASTOR:--Sem tempo nada se pode fazer....Estou me sentindo indisposto,não quer voltar noutra hora?Amanhã quem sabe!
EVAIR:--Sente-se muito bem pastor.Não quero tomar o lugar da razão.Correu tudo bem até aqui.Não vamos exagerar.Nem perder a viagem.Amanhã seria outra tentativa.Pra que amanhã se estamos nos encontrando agora.
PASTOR:--Tem algo estranho aqui.Não sei o que ,mas que tem,tem!
EVAIR:--Pode ser...o entusiasmo! É a hora dos negócios! Está perfeito! É um negócio, rentável e plural.(ELE DA UMA VOLTA EM TORNO DO PASTOR.OLHA,VÊ O GAZOFILÁCIO.PÕE AS MÃOS,NAS COSTAS DO PASTOR.) Vê,ali?
PASTOR:--O Gazofilácio?
EVAIR:-- É seu.
PASTOR:--É não,é da igreja!
EVAIR:---Fiz pergunta não...Tô dizendo que é seu! Estou dando mesmo.É seu! Dando,como quem dá algo à alguém.
PASTOR:-- Deve ter uma boa quantia ai dentro.Hoje teve mais fieis do que de costume.Foi o dia dos dízimos e das ofertas.Pertence a igreja.
EVAIR:--É não meu chapa! Pega, é teu...Doravante,seremos íntimos e tal. Vamos entragar nas tuas mãos coisa melhor.Uma outra igreja.Melhor,maior,e real.O senhor superará tudo.O senhor administrará tudo e bem.Nova igreja...é tudo novo pastor.
CENA II
PASTOR:--acompanhá-lo como?.E os meus fiéis?