
A Tragicomédia
Acadêmica
– Contos Imediatos do Terceiro Grau –
— Yuri Vieira —
Edição:
karaloka.net e yurivieira.com
© Copyright 1998, 2007 by Yuri Vieira Santos
Capa e ilustrações: © Tulio Caetano
eu@yurivieira.com
Mensagem do filósofo e escritor Olavo de Carvalho
Prezado Yuri
Andei lendo seus contos. Raras inteligências perceberam tão bem quanto a sua o "vácuo atormentado" da sua geração. Não creio que essa experiência pudesse ser descrita senão pela mistura do engraçado e do tétrico, que você consegue dosar com muita habilidade. O "Abominável Homem do Minhocão" me deixou num estado indefinido entre o tremor de riso e o tremor de medo. Estou muito satisfeito de Ter lido este livro. Muito obrigado. (...)
Um abração e os melhores votos do
Olavo de Carvalho
Para
Helena e José Walter
Que me educaram
“Strepsiades: Ali é o ‘pensatório’, a escola dos espíritos sabidos. Lá dentro vivem pessoas que, falando a respeito do céu, nos convencem de que ele é um forno que cobre a gente e de que a gente é o carvão dele.”
Aristófanes em
“As Nuvens”
“Desde pequenos nós comemos lixo/ Comercial, industrial/ Mas agora chegou a nossa vez/ Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês!”
Renato Russo(L.U.) em
“Geração Coca-Cola”
Índice
O Aluno Genial 13
O Wândolo Error: Reference source not found
Estilo Próprio Error: Reference source not found
Paralíticos e Desintegrados 31
A Virada Error: Reference source not found
A Volta Dos Que Não Foram 46
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A Vingança de Piupiu Error: Reference source not found
Maria Eu-gênia Error: Reference source not found
Memórias da Ilha do Capeta Error: Reference source not found
Marco Aurélio Error: Reference source not found
O Culturaholic Error: Reference source not found
Frida Error: Reference source not found
A Revelação Error: Reference source not found
O Boitatá Quântico ou O Samba do Bobo Doido Error: Reference source not found
Piptadenia peregrina Error: Reference source not found
Matando um Mosquito Com um Tiro de Canhão Error: Reference source not found
O Abominável Homem do Minhocão 179
Sobre o autor 187
O Aluno Genial
“O belo é a manifestação sensível da verdade, já dizia...”
“Aaah...”, bocejou sonoramente Maimônides.
Teófilo, professor de Estética e de Introdução à Filosofia na Universidade de Brasília, irritou-se:
“Quem é que dizia isso, Maimônides?”, quis perguntar sem no entanto o fazer. Afinal, o professor Teófilo não era assim tão estúpido. Era evidente que Maimônides o provocara daquela forma apenas para que ele, Teófilo, o interpelasse. Com certeza Maimônides queria apenas exibir seus conhecimentos. Era óbvio que aquele aluno metido a gênio já havia lido toda a obra de Hegel.
“...já dizia Hegel”, concluiu o resignado Professor Teófilo, que, com visível irritação, apertava a garrafinha de whisky que sempre trazia no bolso do paletó.
Às terças e quintas-feiras, Teófilo já acordava de mau humor. Nas tardes desses dias deveria voltar a confrontar-se com aquele maldito geniozinho. Maimônides fazia perguntas embaraçosamente complexas e tinha sempre um argumento cabeludo na ponta da língua. Era um saberete a par de qualquer assunto. Seus conhecimentos ultrapassavam de muito os do professor, afinal, este passara toda a infância e parte da juventude cultivando sem sucesso um talento musical inexistente e, portanto, apenas bem tarde pôde iniciar seus estudos filosóficos. E isso deixava o professor Teófilo, não direi apavorado, mas extremamente tenso e apreensivo. Pois, claro, estava sempre tentando reciclar seus saberes. Não podia deixar sua respeitável imagem de intelectual delir-se na frente dos demais alunos por causa de um pedantezinho qualquer.
Numa certa tarde do mês de Outubro – uma tarde irritantemente quente, é bom lembrar – o professor Teófilo, que já bebera metade da garrafinha de whisky antes de entrar na sala, interrompeu a exposição de um seminário preparado por Maimônides – algo sobre “o artista e o belo como ideal transcendente” – dizendo que este, devido à falta de rigor metodológico, teria seu seminário adiado para o final do semestre. Para o aluno, aquilo tinha um significado claro: o professor estava aquém de compreender o que estava sendo exposto e, portanto, precisava de tempo para inteirar-se do assunto. Pensou, então, em questionar esse método pedagógico tão conveniente, o qual exime o professor da obrigação de ministrar aulas, método esse seguido, com abuso, por um grande número de professores que não têm o que dizer por mais de um mês, esse prostituído método dos seminários. Mas não, preferiu tocar direto na ferida de Teófilo:
“Professor, é verdade que o senhor toca violino com maestria?”
“Não”, replicou asperamente Teófilo. “Infelizmente nunca tive tempo para praticar.”
“E o senhor canta, pinta, desenha... escreve poesia?”
“Não”.
“Tem visto os lindos crepúsculos desses últimos dias... a lua cheia?”
Teófilo irritou-se: “Onde você quer chegar com tudo isso?”
Os demais alunos, percebendo a entrada de ameaçadores cúmulos-nimbos na sala, e aproveitando que já era hora, começaram a abandonar discretamente a aula, como ratos que deixam um navio que está prestes a ir a pique.
“Ora, professor”, prosseguiu Maimônides, “como o senhor espera ensinar-me algo de estética, algo sobre a Beleza, se o senhor não passa de um artista frustrado, de um homem insensível incapaz até mesmo de se vestir decentemente?”
Teófilo pôs-se furibundo. Com a mão direita no bolso apertava com vontade a garrafinha de whisky. Agora, pelo menos, estavam a sós na sala.
“Olha aqui, menino, quem você pensa que é pra me tratar desse jeito?! Você não...”
“Eu sou um gênio”, interrompeu Maimônides.
“Rá!!”, berrou Teófilo perplexo. “Era só o que me faltava... perder meu tempo com um presunçoso, um Einstein destes!” e, resmungando, começou a recolher suas coisas.
“Sou um gênio”, repetiu o aluno, “e o senhor pode me fazer três pedidos. Farei o possível para realizar seus desejos”.
Teófilo olhou-o sério por alguns momentos. Depois soltou uma debochada gargalhada. “Que absurdo”, pensou, “professor tem de ouvir cada uma...” E pôs-se a esvaziar a garrafinha goela abaixo.
“Estou esperando”, tornou Maimônides.
“Olha, menino”, começou sarcástico, “já que você é desse tipo de gênio, por que não folheia a ouro as paredes desta sala?” e indicou-as com a garrafinha.
“É pra já”, respondeu Maimônides, que, com um estalar de dedos, causou um estouro tão estridente quanto um trovão. Teófilo caiu sentado de tanto susto. Ficou mais pasmo ainda quando, olhando em volta, viu as paredes cobertas por puro ouro. Aquele garoto era mesmo um gênio.
“Seu próximo pedido, por favor”, disse o aluno-gênio.
Teófilo largou a garrafinha vazia e colocou-se de joelhos. Seus olhos ficaram marejados.
“Eu confesso, gênio, eu confesso, sou um insensível, não compreendo realmente o que é tudo isso que a filosofia fala a respeito da beleza, não entendo nada, nunca vi nada que me despertasse um mísero sentimento estético... Sim, infelizmente é verdade. Mas não é minha culpa, acredite, eu... eu... queria... bem...”
“Diga.”
Teófilo respirou fundo: “Eu quero que você me mostre o que é a Beleza.”
O gênio estalou os dedos. A sala ficou escura como breu, não se enxergava a um palmo do nariz. Os olhos de Teófilo saltavam das órbitas. Nunca estivera tão apreensivo como agora. Finalmente conheceria a beleza e poderia tornar-se um verdadeiro músico, talvez um grande compositor.
De repente, um ponto de luz. Na altura dos seus olhos, ali, no canto da sala. Foi se intensificando concomitante com o fortíssimo som de uma melodia, que não parecia deste planeta. “Sim”, ele pensou, “sempre soube que a beleza e a verdade seriam ditadas pela Luz. Lá está, há algo ali querendo revelar-se. Algo será dito.” E, de repente, uma mulher nua de quase um metro e oitenta de altura, oitenta e oito de busto, sessenta de cintura, noventa de quadril, cabelos que quase atingiam sua cintura, lábios fartos, olhos vertiginosos como dois abismos, colocou-se entre o perplexo professor Teófilo e o ponto de luz. Ela virou-se, pegou o ponto de luz e usou-o como uma lanterna, iluminando o próprio corpo ora aqui, ora ali, em meio a uma fantástica dança em câmara-lenta. Uma chuva de flores e estrelas caia sobre ela. Teófilo quis jogar a garrafinha na mulher, mas estava paralisado. Será que ela não tinha visto que o ponto iria dizer-lhe, mostrar-lhe o que é a beleza? Piranha desgraçada!
Logo, tudo desapareceu:
“Satisfeito?”, perguntou o gênio logo que reapareceu.
“Como satisfeito se apareceu uma vagabunda que estragou tudo?”, disse Teófilo acabrunhado.
O gênio arregalou os olhos:
“Você é um bruto, um estúpido mesmo – não é, professor? Será que é cego? Nunca ouviu falar de Afrodite? Ou será que nunca sequer reparou numa mulher?”
“Chega de enrolação! Não quero saber de mais nada, isso é tudo uma armação, você não é gênio porra nenhuma!”
“Ah, é?! E o que aconteceu aqui, então?”
“Estou bêbado, tendo alucinações...”
“Que bêbado o quê! Faça logo seu último pedido. Peça algo que considere impossível – excetuando, é claro, uma nova tentativa de contemplar a beleza – e terá sua prova.”
Teófilo pensou, pensou, pensou. Por fim, pegou a garrafinha:
“Se você é mesmo um gênio, deve morar numa garrafa. Quero ver se você é capaz de entrar nesta aqui!”
“Isto é ridículo”, suspirou Maimônides. “Está desperdiçando um pedido...”
“Foda-se, entra se isso não for uma armação, seu covarde mentiroso!”
Melindrado, o gênio obedeceu imediatamente. “Que idiota!”, pensou ao vaporizar-se. E assim que ele entrou, Teófilo, num átimo, fechou a boca da garrafa.
“Vai ficar aí uns mil anos, meu chapa!” e foi até a beira do lago Paranoá, onde, a despeito dos pedidos de misericórdia do gênio Maimônides, atirou a garrafa. Nem mesmo a promessa de se comportar em aula, feita pelo desesperado gênio, demoveu o insensível professor.
“Finalmente vou largar esse emprego de merda...”, pensou este enquanto corria, com um formão na mão, de volta à sala de paredes de ouro.
O
Wândolo
Mariana era uma garota sem sorte. Filha única, desde pequena acostumara-se a ouvir o pai dizendo que preferiria criar um filho. “Mulher é tudo igual, só serve pra gente esquentar a cabeça...”, resmungava o velho. Ainda na infância, após muitas brincadeiras com o filho da vizinha, ela decidiu que seria médica quando crescesse. “Clínica geral”, dizia ao amiguinho, que, segundo seus desejos, seria seu futuro marido. Infelizmente, seis anos após terminar o segundo grau, ainda não lograra passar no vestibular. Chegou a ir à colação de grau do Marcelo – o filho da vizinha – que se formara em medicina e se preparava para especializar-se em ginecologia. Ele ficara tão bonito... Já Mariana, coitada, não tinha diploma algum nem o ex-futuro marido. Lembrava-se ainda quando, aos quinze anos, ele lhe dissera que não gostava de garotas branquelas e desengonçadas. E isto depois de praticar tantas vezes a futura especialização com a amiga. Tadinha da Mariana...
Notícia feliz: finalmente Mariana ingressou na universidade! Mas foi aprovada nos exames para estudar enfermagem. Fazer o quê? A vida não era assim mesmo? De qualquer jeito andaria vestida de branco. Se os vizinhos pensassem que estudava medicina, problema deles. Afinal, ela era incapaz de mentir e se lhe perguntassem, ela diria: “Enfermagem”. Se não perguntassem, ela não tinha nada com isso. Problema deles. Sim, problema deles...
O primeiro ano de estudo foi bastante agradável. Tinha muitas aulas em comum com os estudantes de medicina, o que muito a ajudou em sua auto-estima. Contudo, terminado o segundo ano, Mariana começou a sentir da parte daqueles futuros médicos um certo tom de “ponha-se no seu lugar”. Aquilo passou a desmotivá-la pouco a pouco. Agora andava triste pela casa. O pai preocupava-se: “Mulher só serve pra gente esquentar a cabeça...”, dizia entre dentes.
Mas a sorte parecia querer sorrir à pobre moça. Certo dia, andando pela Faculdade de Ciências da Saúde da UnB, onde estudava, deparou com um pequeno cartaz no quadro de avisos, o qual oferecia uma bolsa de estudos a um estudante de enfermagem. As outras quatro bolsas eram para estudantes de medicina. Era sua chance de reaproximação. Mariana não pensou duas vezes. Sem sequer verificar de que afinal se tratava o projeto de pesquisa, arrancou o cartaz e foi atrás da professora Denise, de quem, por sinal, assistira a algumas palestras no ano anterior. Denise era uma médica com PhD, uma profissional extremamente conceituada. Os alunos a disputavam como orientadora.
“Então você quer participar da pesquisa?”, perguntou a professora.
“Quero demais!”, sorriu Mariana.
“O trabalho não vai ser fácil”, replicou Denise.
“Tudo bem, estou super disposta.”
A estudante foi aceita e o grupo fechado. E Mariana ficou entusiasmadíssima quando conheceu os outros quatro bolsistas. Todos homens, cada um mais bonito que o outro. Interessou-se muito por um deles, Fábio, o mais velho. E foi justamente este último quem manifestou a intenção de especializar-se em ginecologia. “Ai!”, suspirava a moça.
No princípio o trabalho foi tão pesado – Mariana virava a noite no hospital universitário – que a moça resolveu deixar a casa dos pais, na Ceilândia, e tentar uma vaga no alojamento estudantil. Assim economizaria o tempo despendido nos deslocamentos da satélite até o Plano Piloto. Seus pais não gostaram muito da idéia. Argumentaram que a Casa do Estudante ficava num lugar isolado, perigoso à noite e que, além de assaltos, até atos de vandalismo físico foram registrados ali nos arredores.
“Vandalismo físico?! Que idéia é essa, mamãe?”
“Tarados, minha filha, tarados...”
“Ora, mamãe, se diz es-tu-pro.”
“Pssiu... Não diga coisas de mau agouro!”
Ignorando as preocupações maternas, Mariana inscreveu-se no serviço de moradia para conseguir um apartamento vago. Para sua infelicidade, porém, o alojamento não aceitava estudantes oriundos do Distrito Federal. Dava prioridade aos estudantes de outros estados. Sem alternativa, a estudante mendigou uma vaga por sua própria conta e entrou no alojamento como clandestina. Mudou-se para um apartamento onde viviam outras três estudantes, muito sérias e distintas, que lhe pediram que tentasse regularizar sua situação o mais breve possível. Mariana, agradecida, concordou.
Passaram-se dois meses e a moça, que já se aborrecia terrivelmente com suas tarefas dentro do grupo de pesquisa, meteu-se num delicado incidente. Uma noite, antes de sair para uma reunião, jantava sozinha no apartamento, quando Gabriel – namorado da única companheira de moradia que ainda defendia sua estada ali – apareceu. Ele fora jogar futebol no Centro Olímpico da universidade, pegou uma chuva e, como já estava gripado, correu para o alojamento, temendo uma piora do seu estado de saúde. Mariana fê-lo tirar a camiseta molhada e deitar-se. Era melhor não facilitar, disse-lhe. Sentou-se ao lado dele no sofá, onde estava deitado, e tocou-lhe a testa para verificar se estava febril. Sônia, namorada de Gabriel, entrou nesse instante. Foi um pega pra capar. Mariana tentava explicar-se contando a verdade, mas Sônia não a ouvia. Esta apenas gritava desaforos e a ameaçava dedurar pra administração do alojamento, caso não saísse no dia seguinte. Mariana ainda tentou argumentar usando uma mentira inocente. Disse que já era comprometida, que seu colega de bolsa, o Fábio, era seu atual namorado e que jamais o trairia. Não adiantou, Sônia estava impossível. Gabriel, por seu turno, não balbuciava palavra. Sua expressão pouco inocente – na verdade nada inocente – não permitia que ajudasse Mariana, a qual, não vendo saída para o impasse, concordou em deixar a vaga no dia seguinte. Avisou que naquela mesma noite, porém, iria até a casa da orientadora, onde tinha um trabalho a fazer. A mudança ficaria pro dia seguinte.
Para melhor imaginar o estado de nervos da pobre Mariana, seria necessário conhecer a natureza das suas mais recentes atividades dentro do grupo de pesquisa. Depois de encerrada a coleta de dados junto aos pacientes do hospital universitário, Denise passou a valorizar apenas o trabalho dos alunos de medicina. A princípio, Mariana acreditou que deveria adequar-se àquele estado de coisas, afinal, não é realmente uma enfermeira quem dirige uma cirurgia. Mas quando a orientadora passou a utilizar sua disposição de trabalhar para que varresse a sala da sua casa, lavasse a sua roupa e a do seu filhinho, e para que fizesse cafezinho enquanto todos os outros bolsistas discutiam um assunto importante, Mariana enfezou-se. Não era uma diarista, era uma bolsista! Onde já se viu?! Resolveu informar-se e descobriu que o valor da sua bolsa equivalia a um terço do salário duma empregada doméstica ou a uma bolsa de couro minúscula da Calvin Klein. Aquela noite, ela passaria essa história a limpo.
Ao chegar no apartamento de Denise, mal teve tempo de articular um “a”. A professora depositou uma enorme pilha de papéis no seu colo e pediu-lhe amavelmente que a organizasse segundo os números das páginas. Mariana ficou sem reação com semelhante amabilidade e com tão grande calhamaço entre as mãos. Amansou-se. E, resignada, pôs mãos à obra.
Enquanto isto, Denise andava às pressas pra lá e pra cá, arrastando o filhinho de três anos pela mão. Parecia preocupada. Consultava o relógio com insistência. De súbito, estacou diante de Mariana:
“Querida, preciso sair pra resolver um problema. Será que você pode cuidar do Tiago pra mim?”
Mariana ficou muda. O garotinho a olhava divertido. Ela precisava dizer qualquer coisa.
“Bem...”
“Obrigada, querida. Eu volto daqui a uma hora.”
“Mas...” e interrompendo-se colocou a mão na testa. Suspirou:
“Tudo bem, vou ter que ficar aqui mesmo.”
Até que o garoto não era arteiro. Na verdade, exigia pouca atenção. Mas Mariana começou a ficar intrigada com aqueles papéis. Estavam praticamente em ordem! Esta constatação fez-lhe o sangue subir à cabeça. Agora ela não passava de uma babá. Sim, era apenas uma reles babá... Logo ela, a moça que os antigos vizinhos criam ser uma futura médica. Isto não ficaria assim.
O telefone tocou:
“Alô? Mariana? Tudo bem com o Tiago?”
“Onde é que você tá, Denise?”
“Eu tô no shopping. Vou demorar um pouco mais. Vou no cinema.”
Mariana sentiu ganas de jogar Tiago pela janela. “Ai!”, suspirava, procurando-o com os olhos. O menino lhe encarou sorrindo, uma fofura. Coitado, ele não tinha culpa.
“Como? Mas eu já acabei, Denise. Preciso ir embora, já tá tarde”, replicou.
“Me faz esse favor, menina. Eu tô aqui com o Fábio, aquele rapagão lindo. Se você estivesse no meu lugar, eu te faria esse favor... E aí? Tudo bem?”
Mariana já não conseguia distinguir o certo do errado. Então aquela predadora estava com o Fábio entre as unhas? Tudo bem... tudo bem... Ela não perdia por esperar.
“Tá legal, Denise. Depois a gente se fala.”
“Valeu, menina!” e desligou.
Mariana iria embora. Levar o Tiago? Não, não... Precisava dar um jeito nele por ali mesmo. Não, nada radical, apenas inventar algo para que ele, quando sozinho, não abrisse o berreiro. Não podia causar um trauma no garoto. Claro, perfeito! Era só arranjar um remédio para fazê-lo dormir. Ela entendia destas coisas, não havia perigo. E, no entanto, após vasculhar todo o apartamento, nada encontrou. Denise é médica, sabe que todo remédio é mais veneno que propriamente remédio, não iria deixar nada assim à vista. E agora?, pensou. Bater com algo na cabeça dele? Tiago sorria – tão fofinho... Não, não... Sim, já sei, o vizinho, é a única solução. Levantou-se.
“Será que eu posso deixar o filho da Denise com vocês?”
“Claro, será um prazer”, disse o homem, afável.
Mariana saiu apressada. Aquela mulher..., pensava. Ela ia ver uma coisa. E chega de alojamento! Chega de trabalho forçado! Pelo menos ela se livrara do Tiago. Caso contrário, não sabia o que teria sido capaz de fazer.
Andava de cabeça baixa, pensando em coisas pesadas. Como Denise morava na Asa Norte, Mariana teria pouco mais que vinte minutos de caminhada. Assim teria tempo para desopilar o fígado e chegar mais calma em casa.
Já no campus, quando Mariana se preparava para atravessar as últimas vias antes do alojamento, um carro desconhecido aproximou-se e parou. A moça ficou paralisada. O medo não a deixava recuar, o carro não a deixava avançar. Àquela hora da noite, boa coisa não seria. Devia dar mais ouvidos aos pais, pensou com pesar. De dentro do carro, ouvia-se o rádio: “Eu quero me embolar nos seus cabelos/ Abraçar seu corpo inteiro...”
“Por favor...”, disse um homem saindo do carro.
Mariana deu um passo para trás:
“Vai embora, senão eu grito!”
“Calma, eu só quero pedir uma informação...”, e avançou, entrando sob a luz do poste.
“Pode falar daí mesmo...”
Ele sorriu e só então Mariana percebeu que aquele era o homem mais lindo que já vira em toda a vida. Muito mais bonito que o antigo amiguinho de infância ou que Fábio. E que sorriso! Esta visão a desarmou. O rádio prosseguia: “Morrer de amor, de amor me perder...”
“Eu só queria saber como faço pra chegar no Lago Norte”, disse ele.
Mariana aproximou-se:
“É só você seguir essa via até a ponte. Sempre em frente.”
“Tira a roupa!!”, bradou subitamente o homem.
“O quê?!!”, murmurou Mariana, vendo ruir seu mais recente castelo.
O homem sacou um revólver da cintura:
“Tira a roupa! Agora! E nada de escândalo.”
Mariana perdeu naquele momento qualquer esperança que pudesse lhe restar quanto à sua sorte. Era evidentemente uma desgraçada. Sua vida idiota não era senão uma seqüência de sonhos tombados, qual fileira de dominós. Se tinha que ser estuprada que pelo menos o fosse por aquele homem bonito.
Tirou, então, a roupa com a mesma naturalidade que se despia para o banho. Parecia despir-se também da alma, para não maculá-la. Estava inconsolável. Como era possível? Tão bonito...
O homem estava impaciente:
“Rápido, moça!”, e brandiu o revólver.
Ela juntou seus trajes e os depositou na calçada, deitando-se em seguida com as pernas abertas. As roupas ficaram entre seus joelhos. Se seu mundo tinha que acabar, que acabasse logo...
“Eu quero, eu quero, eu querôoo...”, continuava o rádio.
O homem aproximou-se e Mariana, respirando fundo, fechou os olhos. Sentiu quando ele se ajoelhou entre suas pernas – e ela esperou... esperou... esperou...
“Mas o que é isso?”, pensou, abrindo os olhos.
O homem já estava a alguns passos, próximo do carro e, enquanto cheirava a calcinha que furtara dela, observava-a com uma mão dentro da própria calça.
“Você é louco, é? Seu depravado!”, e, envergonhada, começou a recolher suas coisas.
O homem deu uma risada seca, colocou a calcinha roubada no bolso, entrou no carro. E logo afastou-se, a toda velocidade, levando a música embora.
“Aaaaaaaaah!!!”, berrou a estudante.
Mariana jamais se esqueceu daquela última noite em seu antigo apartamento do alojamento estudantil. Uma terrível noite de insônia. Noite infinita, não se esquecia do que Denise lhe fizera e tampouco das risadas daquele tarado miserável. “Ah!”, suspirava, “como ele era maravilhoso...” A pobre moça não tinha sequer o pérfido consolo de saber que deixara o filho de Denise com um ex-condenado por pedofilia e abuso sexual. Coitada da Mariana, era mesmo uma garota muito, muito sem sorte...
Estilo Próprio
“Nossa! Eu a-do-rei seu trabalho”, disse o professor de Introdução à Pintura. “Ficou muito bem resolvido. Finalmente, hem!”
“Minha tela é esta aqui, professor”, contestou o aluno. “Essa aí é minha paleta.”
“Ah.”
Já não sabia mais o que fazer. Tudo o que criava, quando premeditado, não era visto com bons olhos.
“Isso aí, o Jasper Johns já fez há uns trinta anos atrás.”
Queria contestar o maldito Sistema. Mas tudo o que fazia era, ainda que por acidente, mero plágio. Era o Sistema.
“Você precisa desenvolver, realizar um trabalho próprio, sacô?”
Não, não tinha sacado. Todos os artistas do seu meio, quando reverentemente aceitos, apresentavam obras que apenas eles próprios compreendiam. Talvez fosse isto o tal trabalho próprio. Portanto, resolveu soltar-se mais. De pura sacanagem, inscreveu-se em dois salões de arte: um no Rio, outro em Curitiba. Enviou seus trabalhos mais espontâneos. E ganhou, apesar da crítica não tão favorável, o primeiro prêmio em ambos. Ganhou, também, dois meses de depressão. Por fim, seus quadros, esculturas e instalações, mesmo os que o agradavam, já não significavam nada para ele. Não lhe transmitiam nenhuma sensação, nenhum sentimento, nenhuma mensagem. Até que se sentira bem após realizar cada um daqueles trabalhos. Mas ele não queria fazer terapia ocupacional, queria fazer Arte. Os críticos, quando do anúncio da premiação, afirmaram que ele tinha talento, mas que ainda não possuía uma linguagem própria. “Talvez seja esse o papel da arte, hoje”, pensou. “Mostrar o quanto nossa vida tornou-se vazia, insossa e apenas de cada um de nós próprios.” Então, mesmo sem abandonar o curso de Artes Plásticas na Universidade de Brasília, desistiu da Arte com “A” maiúsculo.
Agora aderira ao Sistema. Trabalhava numa agência de publicidade, no Plano Piloto. Estava bem melhor, finalmente ganhava algum dinheiro. Comprou um carro, aprendeu a usar o computador e vários softwares gráficos. Sua vida, porém, continuava vazia, insossa e apenas dele próprio. Pensou em matar-se em nome da Arte – ainda era um artista – mas isto também já haviam feito: Schwarzkogler, um austríaco, em 1969, o fizera propositadamente durante uma performance. Sem contar os inúmeros artistas mortos no embate cotidiano com as circunstâncias. Não havia saída. Nem mesmo num meio recente como o computador.
“O jeito é ir levando”, disse um amigo.
Foi o que fez. Continuou na agência, na faculdade e pintando um quadro ou outro em casa. Apenas para manter a prática. Com o tempo, essa atividade caseira tornou-se uma obsessão. Até que um dia, desmaiou de exaustão sobre uma de suas telas. Sua cara ficou estampada ali.
“Fantástico!”, afirmaram os críticos. “Ele encontrou um estilo próprio. Sente-se sua marca, sua personalidade em cada uma de suas obras. Um gênio!”
Aquilo o aborreceu. Quando caíra sobre a tela, borrara a idéia inicial. Mas vá lá, precisava de dinheiro. Pelo menos poderia largar o emprego.
Assim, aos domingos, derretia-se de tédio na frente da TV. Deitado sobre uma tela lambrecada de tinta.
“Fantástico!”, diziam os críticos. Ele faturava.
Fazia esculturas com argila. Usava-as, quando ainda úmidas, como travesseiro. Sua casa tornara-se um processo de criação artística. Os críticos aplaudiam. O dinheiro e a fama entravam.
Numa segunda-feira cinzenta, o reitor da UnB mandou chamá-lo. Encomendou uma estátua do piloto Ayrton Senna que seria colocada, no campus, entre as estátuas do John Lennon1 e do Mickey Mouse. O curador do Museu Guggenheim, de Nova York, estaria presente na inauguração.
“Preciso de algumas semanas”, disse.
“Três.”
“Três?!”
“É, três semanas.”
“O.k. Três.”
Ao fim de dezessete dias, ainda não havia começado. Seria sua grande oportunidade. Era preciso cumprir o trato. Precisava levar seu trabalho a sério. E em poucos dias, com certeza, estaria expondo em Nova York. Talvez fosse esse o caminho para a Arte: ser apreciado num museu da Grande Maçã.
Comprou, pois, tintas, resinas, pigmentos vários, arames, solda, ligas de ferro doce, bacias e uma caixa d’água – onde prepararia a resina. Com arame, ferro doce e a solda montou um esqueleto. Só faltava cobrir com resina e depois pintar. Mas não conseguiu. Estava levando o trabalho a sério demais. Isto o travou. Exasperado, despejou os vidros de resina na caixa d’água, cuspiu lá dentro.
“Bela merda!!”, berrou. E saiu batendo a porta.
Quando voltou, às quatro da manhã, estava bêbado. Agora ele ia conseguir. Encheu as bacias com diferentes tintas. Levou o esqueleto de metal até a caixa d’água. Escorregou. Caiu dentro da caixa d’água. Levantou grogue, não entendia o que estava acontecendo. Coberto dos pés à cabeça com resina, tentava sair da caixa. Quando conseguiu, saiu tropeçando e caiu sobre as tintas. Engoliu mais de dois litros de cores variadas. A resina já estava quase seca. Teve tempo apenas de levantar-se e retirar uma bacia de tinta da cabeça. A resina endureceu.
Dois dias depois, foi encontrado assim. Em pé, o braço estendido, com a bacia na mão.
“Genial!”, disseram. “É o Ayrton sem tirar nem pôr.”
“Sem tirar nem pôr o capacete”, acrescentou alguém.
A estátua foi inaugurada com estardalhaço. O reitor estava orgulhoso do seu aluno-artista. Pena o rapaz não estar presente. O reitor discursava quando se ouviu um pum próximo à estátua.
“Você escutou esse barulho?”, perguntou o curador do Guggenheim em inglês.
“Eu não fui!”
“Nem eu”, sussurrou o reitor.
“Hmm... Que cheiro de tinta velha!”
Um mês depois descobriram que aquele outro cheiro ruim – que já não era de tinta – não era caca de pomba. Era da estátua mesmo.
“Que idéia fabulosa!”, disse o curador do Guggenheim pelo telefone. “Uma estátua que morre...”
Foi sepultada, três dias depois, numa sala especial do Guggenheim Museum, em Nova York. Era apreciadíssima pelo público. Só não se entendia por que o genial escultor não fora receber os cem mil dólares que recebera pela obra.
Paralíticos e Desintegrados
Durante a reunião, ficou decidido que eu realizaria a entrevista. Comentou-se que embora eu fosse o menos experiente nesse campo – e quem tem experiência num curso de jornalismo? – eu era o mais preparado em termos de leitura e informação necessárias para levar a tarefa a cabo. Claro que fiquei satisfeito. Mas como não poderia estar também apreensivo? Eu iria entrevistar duas grandes personalidades, duas exceções da nossa obscura intelectualidade, dois homens que tiveram suas trajetórias marcadas por polêmicas, escritos bombásticos e uma rara mistura de virtual reacionarismo com real vanguardismo: o jornalista e ensaísta Mauro Austris e o semiólogo e escritor Roberto Eca. Ambos estavam em Brasília, onde profeririam, na UnB, uma palestra sobre o primeiro – e segundo eles, também o último – livro escrito em parceria: Paralíticos e Desintegrados.
Nosso encontro se deu numa suíte do Kubitschek Plaza, no Setor Hoteleiro Norte, onde estava hospedado Roberto Eca. Quando cheguei, ambos estavam na metade dum Pinwinnie – 12 anos. Austris, com uma pompa irônica, ofereceu-me um Cohiba. Declinei da gentileza dizendo que não fumava charutos, senão outro gênero de fumo. Esperei de ambos um sorriso cúmplice que, para meu constrangimento, não ocorreu. Propositadamente, creio.
Austris era alto, corpulento. Eca era baixo, gordo. Ambos traziam uma avançada calvície que Eca tentava inutilmente compensar com uma barba espessa. Minha juventude parecia ao mesmo tempo ameaçá-los e descontraí-los. Charlavam com vivacidade, mas apenas entre si. Encontravam meu olhar inexperiente e aparte para apenas nele buscar minha admiração. Pareciam acostumados a atuar segundo a imagem que supostamente todos teriam deles.
A entrevista principiou por iniciativa de Austris, que me incitou a ligar o gravador. Não tinham a noite toda, lembrou-me com extremo tato. Se tivesse sido grosseiro não teria me enervado tanto. Eca sorriu, insuflando-me alguma tranqüilidade.
Segue-se a integridade do texto:
Gazeta Uenebense: Vocês sempre demonstraram um pensamento independente e até certo ponto rebelde. Por que resolveram escrever um livro a quatro mãos?
Eca: Já conhecíamos o trabalho um do outro e num encontro, em fins do ano retrasado, aventamos a possibilidade desta parceria. Pareceu-nos que poderíamos complementar a visão crítica que ambos possuímos, eu de um ponto de vista mais sistemático e metódico, acadêmico enfim, e Austris com seu apurado olhar jornalístico e, ao mesmo tempo, erudito.
Austris: Na verdade, nós pretendíamos delatar a vacuidade da cultura contemporânea e acusar seus principais fomentadores. Quando vimos que isto era inútil, ridículo e redundante, resolvemos fazer terrorismo escrito. Por covardia, por não termos peito para literalmente explodir os alicerces do refugo cultural em que estamos metidos, resolvemos tentar atacá-la literariamente. Nosso livro é uma singela granada de mão. Precisaríamos – para atingir nosso objetivo – dum míssil nuclear.
Gazeta Uenebense: Algumas pessoas afirmam que foram vocês que planejaram aquele atentado à bomba na Academia Brasileira de Letras...
Austris(muito irritado): Nada a declarar!
Eca: Estamos aqui para falar do nosso livro...
Gazeta Uenebense: Mas...
Austris(levantando-se): Eu bem que te falei, Eca! Não tenho que dar satisfações, vou-me embora.
Gazeta Uenebense: O.k., o.k., desculpe... Podemos continuar? (Austris torna a sentar-se, olhando indignado para o chão.) Bem, por que não pretendem repetir a dose? (Austris fita-me ameaçadoramente.) Refiro-me a escrever juntos...
Eca: Acho que por nos empenharmos tanto nesse trabalho acabamos também por nos ferir reciprocamente. Houve momentos em que um servia de espelho ao outro e, assim, víamos uma imagem bastante patética: um ser decadente que chora a derrocada do seu mundo. E, afinal, quem quer ver a verdade? Sim, esse trabalho foi deveras doloroso, não pretendo mais escrever frente a um espelho. É mais suportável, embora não menos doloroso, olhar para dentro de si.
Austris(resmungando): Claro que a gente tampouco concorda em tudo. Temos nossas divergências.
Gazeta Uenebense: Vocês falam e escrevem como se vivêssemos o fim dos tempos...
Eca(sorrindo): E não é o final dos tempos? O que é o Apocalipse? Não é o Livro da Revelação? As coisas hoje estão se revelando pra quem quiser ver, revelando-se em sua inconsistência e mediocridade. Nada mais é feito para durar além do tempo que dura um modismo. Você vê por exemplo essa idéia de editar clássicos da literatura em papéis higiênicos... Nada mais significativo.
Gazeta Uenebense: Mas se não fosse essa idéia eu jamais teria lido Joyce e Maupassant.
Austris: E também jamais teria cagado na obra de ambos.
Gazeta Uenebense: Mas vocês não acham necessário tornar a cultura disponível? Aproximá-la das massas?
Eca: A massa é um buraco negro – assimila tudo e não devolve nada. Na época áurea da Cultura – o período produtivo e são da nossa hoje civilização esclerosada – essa massa não existia, o que existia era o povo, e somente este é capaz de ação. Se tiverem entre eles uma única cabeça, claro...
Gazeta Uenebense: E qual a diferença entre povo e massa?
Eca(coçando a cabeça): O povo é um conjunto de presenças; a massa, de ausências... A massa é indício de fim...
Austris: O povo fede e a massa tem cheiro de Avon (risos).
Eca: Ou ainda: o povo tem peso, tem os pés no chão. Já a massa é um conjunto de corpos perdidos no espaço. Não tem peso, só massa.
Gazeta Uenebense: Quem são os Paralíticos e quem são os Desintegrados?
Eca: Paralíticos são esses europeus que já não tem nada de significativo a acrescentar à Cultura Ocidental, pois a alma ocidental já foi totalmente expressa, seja religiosa, científica, filosófica ou artisticamente. Com “esses europeus” quero dizer “todos os europeus”. Aos europeus só lhes resta contemplar a invasão de seus países pelos povos colonizados. Quando a língua árabe tornou-se a segunda língua na França, você viu quantas famílias francesas abandonaram o país? Só no sul do Brasil chegaram mais de cinqüenta mil num único ano. E eles vivem em verdadeiros guetos, guardando sua cultura e seus refinados costumes como se cuida de um frágil cristal, e com eterno medo de nós, bárbaros brasileiros. E o orgulho por possuírem tal cristal é agressivo. Se continuam assim, esses europeus correm o risco de serem os novos judeus, uma cultura terminada e sofisticada, fadada a viver em meio a outros povos jovens ou atrasados. É uma mistura explosiva. Os bárbaros não suportam serem olhados de cima pra baixo...
Austris: E feliz ou infelizmente é um processo natural. Os conquistadores, por cuidar da sua conquista, transformam-se em escravos e vítimas do que conquistaram.
Eca: Desintegrados somos nós, apêndices da cultura, povos colonizados, semi-ocidentais. Vivemos segundo a forma de uma cultura que não bate com nosso coração, e assim estamos condenados a viver.
Austris(fazendo um muxoxo): Esses imbecis do nosso país – pretensos artistas e intelectualóides – estão sempre tentando definir e descrever a “brasilidade” e o “brasileiro”, mas estes ainda não floresceram totalmente ou nem sequer existem. Na realidade, somos um aborto que sobreviveu, uma cultura com má formação genética, a qual se apropriou dos piores genes da Cultura Ocidental. Somos atrofiados culturais da mesma forma que os norte-americanos são hipertrofiados, mas somos ambos aberrações da natureza. O cérebro norte-americano é tão deformado quanto o cérebro duma pessoa que sofre de gigantismo, e, como esta, tende a morrer cedo. Duzentos anos é muito pouco para uma civilização.
Eca: A verdadeira cultura brasileira só existirá realmente quando pudermos visitar Manhattan como quem visita as pirâmides de Gizé...
Gazeta Uenebense: Esta não é uma análise muito pessimista?
Eca(muito sério): Se você se calar agora e serenamente encarar o fato de que estará morto um dia, isto seria pessimismo? Claro que não. Nossa consciência dos fatos não é desesperada, não vamos nos suicidar. É certo que, para um ocidental legítimo, a extrema preocupação com a morte da própria cultura pode ser algo muito perigoso, levando, inclusive, à insanidade. A rejeição deste fato natural foi – sem qualquer sombra de dúvida – um dos fatores que levou Hitler ao seu destino. No seu cotidiano, ele vislumbrou a decadência já em curso e, não sabendo compreendê-la, iludiu-se ao colocar a culpa de tal senilidade cultural na influência judaica. Tudo porque o ocidental tornou-se semelhante ao judeu. Isto está muito claro no seu livro Mein Kampf. Mas nós – feliz ou infelizmente, quem sabe? – somos apenas semi-ocidentais. Não nos entristece tanto ouvir os estertores do ocidente. O verdadeiramente triste é ficarmos órfãos do único pai que temos, muito embora ele não nos ame tanto, afinal, somos fruto de um estupro cometido por ele.
Austris(evasivo): Somos filhos de cigarra, condicionados a viver como formigas.
Gazeta Uenebense: Vocês poderiam falar dessa alegoria da cigarra presente num dos capítulos do livro?
Austris(fazendo careta): Bem... Primeiro é preciso entender um aspecto do caráter europeu. A alma é extremamente moldada pela paisagem e pelo clima. Imagine como era enfrentar um inverno europeu na idade-média, sem cobertores ou aquecedores elétricos, ou mesmo a gás, sem os tecidos sintéticos apropriados para baixas temperaturas, sem a penicilina, sem um saneamento urbano ótimo, sem as técnicas modernas de estocagem de alimentos, sem essa merda toda... O inverno era um inferno e o europeu-formiga, caso não trabalhasse metódica e sistematicamente na primavera e no verão, morria de fome e frio no inverno. A lógica sistemática era uma necessidade natural. Agora pense no Brasil. Imagine o que os índios achavam daqueles ETs brancos que trabalhavam a natureza como se a qualquer momento pudesse sobrevir uma nevasca... Aquilo era um absurdo! Para que armazenar alimentos que se encontram o ano inteiro? Para que pescar dez peixes se hoje só necessitamos de dois? Este é o país das cigarras, não se faz necessário um trabalho de formiga para depois se esconder e sobreviver ao inverno. Aqui se trabalha todo o ano pro carnaval e não pro inverno. Nada mais justo, trabalhar pra unir todas as cigarras na mesma cantoria. Que o mais representativo dos nossos eventos carnavalescos seja um pastiche insosso e de mau gosto, não passa dum sintoma circunstancial. E se hoje pensa-se que o brasileiro é preguiçoso e incompetente, é porque se espera que ele trabalhe segundo uma forma européia de existência. Se fomos programados pra funcionar segundo esse padrão europeu, nossos corações sentem que não estamos na Europa e daí o conflito. São Paulo não é uma cidade real, é surreal (risos).
Eca: E infelizmente toda essa lavagem cerebral só terminará junto com a dissolução de todo o mundo ocidental.
Gazeta Uenebense: Vocês falam da derrocada da civilização como se fosse um fato evidente. E a tecnologia? Não será ela um indício de progresso e evolução? E ela não poderia garantir a permanência da nossa civilização?
Austris: Se um homem está moribundo num hospital, os aparelhos apenas lhe podem dar uma sobrevida. Não garantem a vida eterna, nem mesmo um coma eterno. Se a tecnologia puder fazer algo, será apenas isto: prolongar o iminente estado comatoso. Se me permitem o pleonasmo, não é a tecnologia que anima o mundo, é a alma...
Gazeta Uenebense: Mas é fato que a tecnologia melhora nossa vida...
Eca(professoral): Esse extremo e avançado desenvolvimento tecnológico não é outra coisa senão uma característica da Cultura Ocidental. A técnica noutras culturas era desenvolvida para realizar uma função pré-determinada. Era mais uma das características daquela cultura. Mas a técnica, na Cultura Ocidental, é uma de suas maiores expressões. Aqui não se cria um aparato para simplesmente realizar determinado trabalho. Thomas Alva Edison é apenas uma exceção que confirma a regra. Porque aqui o que interessa é a “vitória”, é a “busca do infinito”. Não se descobriu a fissão nuclear para se construir usinas ou bombas, mas para “dominar” um fenômeno da natureza, para vencê-la. Não se “conquista” – atente bem para esta palavra – a lua ou Marte para que pesquisas científicas pretensamente essenciais sejam realizadas, mas para provar que isto é possível para a mais capaz das culturas. No fundo, tudo não passa de fórmula Indy, de competição com a natureza e com os deuses abandonados.
Austris: Não é à toa que essas naves espaciais tenham essas formas fálicas. Inclusive aquele foguete que foi a Marte era roxo...(risos). Só faltou escreverem nele: Nós somos Machos!! (risos).
Gazeta Uenebense: E em que tudo isto atrapalha o progresso?
Eca: A mente européia está velha e cansada. Não foram os norte-americanos que chegaram à lua. Foi Werner von Braun. Eles não fizeram a bomba atômica. Foi Oppenheimer. Atrás de toda grande conquista tecno-científica, há um europeu, muitas vezes um alemão. Os norte-americanos não têm capacidade para isso. Toda motivação norte-americana está na superfície e para se criar é necessário um impulso interior. Quando realizam algo de virtual importância, tudo não passa de uma colagem de veleidades fragmentadas. Eles só sabem inventar lanchonetes estúpidas onde quem lhe serve é o pior dos serviçais: você mesmo.
Gazeta Uenebense: E a realidade virtual?
Eca: A realidade virtual já existe há muito tempo. Todo gênero artístico – cinema, pintura, literatura, etc. – é num certo sentido realidade virtual. A diferença é que agora será eletrônico-digital. Como outros gêneros terá outros usos além do artístico. O próprio mundo forjado pela mídia e pelo consumismo, dentro do qual vivemos, é essencialmente virtual. É criação e idéia nossa. Convivemos e interagimos mentalmente – e até fisicamente – com imagens e simulacros de coisas reais. Os norte-americanos têm a Disney World na Flórida e palmeiras de plástico nas avenidas de Las Vegas. Os japoneses têm praias tropicais e pistas de esqui artificiais. Nem mesmo esses prostíbulos virtuais de imersão total, que acessamos pela internet, são uma inovação. Afinal, um prostíbulo verdadeiro só nos oferece afeto virtual.
Austris(pensativo): Os japoneses... Os japoneses só sabem aperfeiçoar: retirar o que está sobrando, acrescentar o que falta. São mais estetas que técnicos. Isto porque tanto para eles quanto para os outros povos, falta esse impulso interior de vencer a natureza. Nós outros, nesse campo técnico, só podemos reproduzir e muito, muito mesmo. Como crianças que aprendem a fazer bolhas de sabão, fabricamos e espalhamos produtos avidamente. Tanto que acabaremos por quebrar os norte-americanos e os europeus. Tanto que os afogaremos em lixo plástico-eletrônico. Eles nos deram o poder de liquidá-los com suas próprias armas. Somos mais numerosos e nossa força de trabalho é mais barata. Hoje em dia, mesmo nos EUA, só se vêem carros chineses na rua. A China ainda vai quebrar o mercado mundial.
Eca: É verdade. Isto liquidará o Ocidente: a falta de estímulo interior e o excesso de estímulos exteriores. Na Europa, qualquer jovem bem dotado prefere ser campeão de esqui ou snow-board a ser um cientista. Pra quê? Já não temos ciência o bastante? Pra que chegar a Marte se podemos conquistar os inúmeros picos nevados do planeta? No fim das contas é tudo a mesma coisa.
Austris: Você viu o que fez aquele tataraneto do Freud? Escalou o Fitzroy de ponta-cabeça(risos).
Gazeta Uenebense: Em meio a todos esses pretensos fatos que vocês enumeram, não vejo razões para não ser pessimista...
Austris: O Eca pode não ser, mas eu sou pessimista! É uma baita sacanagem eu ter nascido nesta época! Época gagá que esquece o passado...
Eca: Claro que nossa cultura ainda poderá dar frutos tardios. Mas por mais sofisticados que possam ser, não terão a força anímica dos frutos do passado. Um teclado computadorizado não possui o mesmo valor daquilo que Bach realizava com um órgão rústico. E nós, abortos do mundo ocidental, quase-brasileiros, ainda podemos fazer algo, algo realmente bárbaro: aproveitar-nos desses frutos, pervertê-los, pisoteá-los; sermos realmente antropofágicos, deglutir tudo o que vier de fora, toda a tradição e, então, vomitá-la. Destruir as formas de existência ocidentais que não se harmonizem com nosso clima e paisagem, atirá-las ao solo como adubo, e daí algo nascerá. Não estamos falando aqui do fim do mundo, do final dos tempos, falamos de Culturas, no sentido mais lato desta palavra. Uma Cultura é um ser vivo e, como todos nós, é mortal. Outras Culturas hão de nascer, sempre foi assim e assim continuará sendo. Talvez o Brasil seja realmente o país do futuro. Só que até lá, estaremos todos mortos.
Austris: Aquele papo de sermos espelhos um do outro, eu até que engoli, Eca. Mas você quer atacar novamente de profeta e, pra mim, isto sim é o fim. É por isto que nos envenenamos tanto neste trabalho. Já te disse e torno a dizer: esta idéia, Eca, me parece uma bobagem. Você conseguiu vestir um pessimismo cru com as roupas do otimismo. Quem é você pra dizer o que virá a ser?! É bem provável que as sementes duma próxima grande cultura estejam no Paraguai ou mesmo na Rússia, que é uma terra similar ao Brasil, um país semi-ocidental. Toda essa especulação é ridícula e vã! Estamos presos ao presente e a ele devemos dar atenção.
Eca: Estou apenas sendo realista, Mauro. O presente não nos pertence. Só nos resta, então, preparar o solo para o futuro. O que vier, tudo bem, virá. Nisto você tem razão. Já discutimos isso.
Austris: Infelizmente essa sua noção de tempo é ocidental. Eu, nesse ponto, sou índio. Só me interessa o agora, e o agora é uma merda. (Irritado:) Que se foda o futuro!! Não quero me sacrificar por nenhuma geração futura...
Gazeta Uenebense: Austris, você morou vinte anos em Nova York. E você, Eca, mais ou menos o mesmo tempo dividido entre Milão e Paris. Onde vocês estão em casa? aqui ou lá?
Austris: Aqui eu me sinto em casa no sentido de que posso cuspir no chão, se quiser. Em Nova York, posso andar de meias em casa, pois sei que não pisarei no escarro de ninguém(risos). Em outras palavras: aqui me sinto um ser virtual num mundo real; lá, sou real num mundo virtual. Como o Eca já disse, essa pretensa nova criação, a realidade virtual, na prática, já existe há muito tempo...
Gazeta Uenebense: E você, Eca?
Eca(pensativo): Não sei, eu realmente não sei...
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Nota: Ainda não consegui compreender por que vetaram esta entrevista. Em seu lugar foi publicada uma reportagem sobre a difusão de cultura brasileira através de suas telenovelas. Austris enviou-me o seguinte email: “Rá, rá, rá, rá, rá...”
A Virada
Dédalo era estudante de arquitetura na Universidade de Brasília. Estava eufórico, aqueles dois dias seriam decisivos. O professor não adiaria mais – “Sem procrastinações!”, dissera categórico. Aquela palavra o assustou. De um jeito ou de outro teria que entregar o projeto final. Ou jamais se formaria.
Tivera a idéia no primeiro semestre de curso, há oito anos e meio, após quase ter sido atropelado dezessete vezes, numa só semana, dentro do próprio campus universitário. Planejaria um sistema reticular de túneis subterrâneos – para pedestres – que ligaria os pontos principais do campus. Nos trechos de maior distância – como do Instituto Central de Ciências até o Centro Olímpico – haveria carrinhos; como os da montanha russa que sua irmã conhecera, durante a lua-de-mel, em Orlando.
Na manhã do primeiro dia, Dédalo chegou cedo no ateliê. Pegara o primeiro ônibus que saíra da Ceilândia. (Sim, existem estudantes de arquitetura que moram na Ceilândia.) Estava tranqüilo, trouxera tudo: régua paralela, esquadros, curva francesa, papel vegetal, papel manteiga, penas, nanquim, disquetes e CDs de computador – com o projeto já pela metade – e o principal: pó-de-guaraná, cafeteira elétrica, coca-cola e chocolates. Estava pronto para virar as duas noites, se necessário. Ocupou a mesma sala na qual dois amigos já se haviam instalado. Foi um primeiro dia de muita conversa, música, trabalho (sim, trabalhavam) e calibradores psíquicos.
“Passa a bola, Délado.”
“Délado?!”
Risadas. Mais risadas. Muitas risadas. Passavam a bola.
O dia foi tão proveitoso, o trabalho ficara tão adiantado, que Dédalo resolveu ir dormir em casa. Deixou apenas os instrumentos no seu armário do ateliê, pois não conseguia se separar do projeto. Levou os CDs, os disquetes e a papelada. Em casa, não conseguiu dormir. Ingerira muita cafeína. Passou a noite pensando no trabalho. Já podia ver todos aqueles túneis. Faltava pouco...
No dia seguinte levantou cedo e foi à universidade. Estava sonolento. O sono que não chegara à noite, chegava agora. Dormiu no ônibus, os objetos no colo. Quando acordou, na rodoviária, estava sem carteira, sem mochila, sem projeto, sem nada. Ladrão desgraçado! Desesperou-se.
“E agora? e agora? e agora? e agora?”, e concluiu: “Merda! Merda! Merda! Merda!”
Pediu dinheiro na fila e pegou o ônibus pra UnB. Lá, mergulhado em enfurecido êxtase, trancou-se numa sala do subterrâneo, sozinho, com todo o material de desenho. Recomeçaria. Daria tempo. Sim, ele sabia, ia dar tempo. Os amigos apareciam periodicamente com o suprimento de pó-de-guaraná, café, coca-cola e incentivos.
“Fica tranqüilo, Dédalo, dá tempo.”
Ele fechava a porta:
“Eu sei, eu sei”, dizia lá de dentro.
De fora, horas depois, ouviu-se sons estranhos vindos da sala. Papel rasgando. Madeira quebrando. Monólogos incoerentes.
“Tudo bem aí, Dédalo?”
Ele abria a porta, o olhar perdido, pegava o café e voltava a trancar-se. Já não dizia nada. Os amigos preocupavam-se.
“Você não quer ir no banheiro, Dédalo?”, pausa. “Dédalo?”
Abriu a porta o suficiente para mostrar o rosto. Estava com um olhar iluminado de Jack Nicholson. Sorriu estranhamente. Trancou-se de novo.
“Relaxa, galera, ele tá legal.”
Agora ouvia-se risadas. Muitas risadas. Gargalhadas. Depois silêncio.
“Ele deve estar fumando”, disse alguém.
Mentira. Desde que quase fora pego pela polícia oito vezes num mesmo dia, dentro do campus, nunca mais carregara beque.
O silêncio prosseguia. Depois, mais gargalhadas. Então ficou em silêncio por mais de quatro horas. Não respondia aos chamados. Resolveram arrombar a porta. A sala estava com terra até o teto. Alguém foi buscar uma pá e um carrinho de mão. Toneladas de terra. Encontraram um buraco no chão com uma mensagem na borda: “Digam ao rei Minos que eu voltei. Dédalo não mais existe”. Entraram no buraco e descobriram um imenso labirinto de túneis interligados. Três alunos se perderam e jamais voltaram a ser vistos. No dia seguinte, Dédalo não entregou o trabalho. O teórico.
Quando o limite de velocidade das vias internas do campus passou a ser de 120Km/h, resolveu-se usufruir as Vias de Dédalo. Foram iluminados e calçados apenas os túneis que uniam os principais pontos do campus. Um grupo de espeleologia – alunos da geologia – organizou uma expedição para, além de mapear o labirinto, encontrar Dédalo e os outros alunos desaparecidos. Apenas um dos espeleólogos regressou. A roupa rasgada. O corpo cheio de escoriações e hematomas.
“Foi um louco com cabeça de boi”, disse antes de desmaiar.
Soube-se depois que o labirinto era muito maior do que se imaginava. Talvez ligasse todo o Plano Piloto.
“Talvez vá até Machu Picchu”, disse o aluno da geologia já no hospital.
Um segurança do Centro Olímpico relatou que vira um monstro de chifres assistindo ao nascer do sol à beira do lago Paranoá. Quando o monstro o viu, correu e entrou num buraco.
“Procrastinação! Procrastinação!”, rugia o monstro. Devia ser ele.
Dias depois, na sala do Núcleo de Vídeo, apareceu um cabeludo sujo de terra e maltrapilho que fora assistir a um filme. Era um filme sobre o Minotauro da ilha de Creta. Dizem que o cabeludo trazia uma sacola na qual deixava-se entrever um par de chifres.
“É ele”, disse alguém.
“Não é não. É o Zeca da antropologia.”
“Olha...”
Numa das últimas aparições, foi visto ao lado da estátua de Dédalo – erguida pelo reitor ao lado da estátua do John Lennon2 em homenagem ao criador dos túneis. Dizem que chorava.
Mas a última vez mesmo, foi numa foto. Era uma foto do Palácio do Planalto que saíra na primeira página da Folha de São Paulo.
“Olha ele aí.”
“Aonde?”
“Atrás do presidente.”
“Que nada!”
“Ah, é? Então de quem são os chifres?”
Desde então, ninguém mais o viu.
A Volta Dos Que Não Foram
Werner estava a ponto de se graduar em Física e, por isto, angustiava-se ao extremo. Finalmente deveria se decidir se permaneceria ou não na vida acadêmica. Não conseguia, por mais que se esforçasse, antever o melhor caminho. Seu futuro era uma incógnita, um x numa equação incompreensível. No momento, o melhor a fazer seria sondar alguns amigos da pós-graduação. Talvez eles lhe dessem alguma luz.
As salas dos pós-graduandos em Física da UnB localizavam-se no bloco intermediário do Instituto Central de Ciências, o Minhocão. De longe, Werner reconheceu dois de seus amigos, sentados no banco à entrada do corredor que dava acesso às salas. Isaac e Alberto estavam sempre por ali, olhando o intenso movimento, principalmente o movimento das ancas e quadris. Aquele passadiço era um verdadeiro acelerador de partículas. Infelizmente, o que menos lhes ocorria era um encontrão com as alfas e betas que por ali passavam. Naquele instante, estavam ambos entretidos com algo acima de suas cabeças.
“E aí, moçada?”, saudou Werner, acomodando-se no mesmo banco que os amigos.
“E aí?”, responderam os doutorandos, baixando os olhos na direção de Werner, que sorriu.
“O que é que vocês tanto olham lá em cima?”
“É só uma casa de marimbondos”, disse Alberto. “Sabe como é, a gente precisa matar o tempo com alguma coisa...”
“Sei...”, disse Werner. “Mas não é perigoso? esses bichos... num lugar desse...”
“Que nada”, fez Isaac. “Além de mansos ainda dão sorte.”
Ficaram em silêncio observando o movimento dos laboriosos insetos.
Alberto: “E tu, Werner, já resolveu o que vai fazer da vida? Ou ainda tá no princípio da Incerteza?”
“Bem...”
“Por que não faz logo como a gente e escolhe a profissão de eterno-estudante?”, continuou Alberto. “Tu recebe uma bolsa de quatro anos, sendo que, se espremer esse tempo, não dá um ano de trabalho. É uma beleza!”
“Eu ainda nã...”
“Eu tava aqui contando uma história pro Alberto”, cortou Isaac, que não apreciava entrar naquele assunto esotérico com terceiros, “e ele tá achando que é piada. Diz que fiquei doido depois que aquela caixa de maçãs caiu na minha cabeça, lembra? Ela nem estava tão alta, a energia potencial era baixa...”
“E qual é a história?”, perguntou Werner, que, conhecendo Isaac, já esperava uma daquelas.
“Acho que já te contei sobre aquele velhinho maluco que conheci em Paris, não contei? Não? Então escuta. Eu tava fazendo mestrado na Sorbonne e, certo dia, chamaram meu orientador pra ajudar na identificação de um velho italiano, que fora preso sem portar qualquer documento. O maluco foi flagrado tentando quebrar – no museu do Louvre – o vidro que protege a Mona Lisa. Provido de fósforos e de um tubo de desodorante cheio de querosene, ele pretendia queimá-la. Gritava, em italiano, algo do tipo: ‘Não era pra ela viver tudo isto!!’ Bom, você poderia perguntar: E o que um professor de Física tem a ver com essa história? Vou te dizer. O Dr. Jean Louis, meu orientador, era o maior especialista em relatividade geral e restrita e, ao mesmo tempo, em quântica, sendo um grande defensor duma teoria unificada. A polícia, por mera curiosidade, queria que ele checasse as teorias estapafúrdias do velho louco, que dizia ser o próprio Leonardo da Vinci. Fomos juntos, eu e meu professor. Como não conseguimos ler os manuscritos do velho, que insistia em escrever de trás pra frente – com as letras ao contrário – resolvemos interrogá-lo com a ajuda dum intérprete... Do que é que vocês estão rindo?”
“Nada não”, disse Werner, contendo-se. “Pode continuar.”
“
Só
tô contando o que aconteceu, não tô inventando nada”,
indignou-se Isaac. “A única a inventar algo foi a mente insana do
italiano.”
“Tudo bem”, acrescentou Alberto. “Se é ou não simples piração depende de vários fatores. Isso é relativo. Agora vai, continua.”
“Bom, o Leonardo da Século Vinte – como o apelidamos – nos mostrou uns rascunhos esquisitos dum engenho, que supostamente o ajudaria a penetrar e sair dum buraco negro rotacional no tempo e lugar que quisesse. Vocês sabem que meu doutorado, hoje, é uma tentativa de desmistificar esses falsos autores que a gente vê por aí, seja de auto-ajuda ou misticismos similares, que usam e abusam de conceitos e teorias da física moderna pra defender uma idéia imbecil qualquer. Não entendem nada e abusam da ignorância equivalente do público pra bombardeá-lo com bobagens. Aquele pseudo-Leonardo era um exemplo típico. Não passava dum hippie que – após derreter o cérebro com todas as drogas possíveis – tentava protestar contra a massificação das obras de arte, as quais, segundo ele, já não são compreendidas por 99% das pessoas, a começar pelos próprios estudiosos do assunto. Ele dizia que preferiria queimar a Mona Lisa – ‘encarem como uma performance’, dizia – a vê-la enfeitando, através duma tosca reprodução, a geladeira duma dona-de-casa norte americana. ‘Meu quadro não é pingüim!!’, concluía ele.”
“E o que aconteceu com o cara?”, quis saber Werner.
“Calma, já vou dizer. Depois que o Dr. Jean Louis demonstrou pro cara, por A mais B, que seu delirante engenho era de existência improvável, mesmo hipoteticamente, o velho explodiu. Gritava dizendo que possuía uma máquina daquelas muito bem escondida e que a utilizaria para vingar-se de nós dois, interferindo no curso de nossa ‘ignorante e inútil vida’. Disse que com ela tinha poder sobre umas certas Parcas. (Nunca vi mais gordas.) E perguntou-nos ainda se sabíamos o que era uma antipartícula e o que ocorre quando esta se encontra com sua partícula correspondente. Claro que utilizamos esse seu comentário para confundi-lo, dizendo que da Vinci não tinha conhecimentos sobre tal matéria. ‘Isto é o que vocês pensam!’, grunhiu ele. Nós o deixamos e só depois ficamos sabendo, pela TV, que, após cumprir uma curta pena num hospital psiquiátrico, ele fora liberado. Nunca mais ouvimos falar do Leonardo da Século Vinte.”
“Bacana sua história”, disse Werner, irônico. “Agora vai ver se eu tô lá na esquina. Se você encontrar alguma aqui em Brasília...”
“Vocês são uns otários, uns incrédulos, não é?”
“Ei!”, interrompeu Alberto. “Olha como aquele cara que vem ali de olho arregalado se parece contigo, Isaac. É a tua cara!”
“Que ca...”, começou Isaac, sem concluir. A casa de marimbondos caíra na sua cabeça. Debatendo-se em desespero, levantou-se e saiu correndo na direção do antiIsaac. Este arregalou ainda mais os olhos, tentou dar passagem à vítima dos insetos, mas não foi rápido o suficiente. Chocaram-se de frente e formou-se, por frações de segundo, um intenso clarão. Logo, desapareceram no ar sem deixar vestígios.
“Meu Deus!!”, exclamaram Werner e Alberto ao mesmo tempo.
“Ah! Rá! Rá! Rá!”, gargalharam do alto do mezanino, logo acima do local onde antes estava a casa de marimbondos. Quando olharam viram um velho cabeludo e barbudo com uma vara na mão. Ele estava eufórico. Após mais algumas risadas, saiu correndo e desapareceu.
Os dois estudantes sentaram-se em meio a um mudo estupor. Além deles, ninguém parecia ter testemunhado o extraordinário acontecimento.