Cotidianos Versos – 93

Dedicatória
A todos que me fizeram sorrir.
Sem sorrisos, não há vida.
Agradecimento
A todos que me fizeram sofrer.
Sem sofrimento, não há poesia.
Índice
Calendário 6
Liberdade 7
Sétimo Dia 8
Binômio 9
Demografia 11
Amor em Tempus Fugit 13
Na fumaça 17
Fome 18
Amor Lilás 19
Loucura 20
Na chuva 21
Ode à Vingança 25
Tesoura 27
Mundo Avesso 28
N´alma 33
34
Adorador de Fotografia 34
Descartes do Renne 35
Abreviatura 36
Ela 37
X 40
Para entender Maria José 41
Diz-me 42
Chocolate com Café 44
Assalto 46
Eternamente Efêmero 47
Oblíqua 49
Desesperadamente 50
Esquina 53
Cão 54
Isabela 55
Hospital 57
Janela 58
Jornal 60
Mundo Estranho 61
Olhos de Luar 65
Porta 66
Papeleiro 67
Saudade 68
Relações 70
Semelhanças 71
Sumiço 73
Vida 74
Simpatias 75
Quimera 77
In com Ciência 78
Merda 81
Palavras 82
Aos doze anos 87
Amor e Paixão 88
“I need a miracle” 90
“Eu preciso de um Milagre” 92
Calendário
além de um calendário
(preso à porta do armário)
que guarda o que passou -
em gavetas, cabides e caixas
nas roupas rotas por traças
lembranças de quem se amou.
Liberdade
Saiu de casa (mulher)
Saiu do trabalho (patrão)
Saiu da cela (prisão)
Saiu da cidade (qualquer)
Saiu do bar (não quer)
Saiu da boate (oficio)
Saiu do cassino (vício)
Saiu da vida (éter)
Sétimo Dia
Seis dias de labuta,
quatorze horas de trabalho,
humilhação e achincalho,
mas continua na luta.
E todas as noites matuta
que existe o sétimo dia.
Domingo é só alegria
mesmo para quem é puta.
Binômio
Homem, mulher,
macho, fêmea,
garfo, colher,
reza, blasfêmia,
Não quero, quer.
Violeta, amarelo,
preto, branco,
sapato, chinelo,
descalço, tamanco,
Não quer, quero.
Calmo, violento,
impulsivo, contido,
seguro, ciumento,
humilde, metido,
com razão, sem argumento.
Indiferença, emoção,
caído, sarado,
broxa, tesão,
solteiro, casado,
sem argumento, com razão.
Adoro, detesto,
odeio, idolatro,
sou o cara, não presto,
sinfônica, teatro,
esqueço todo o resto.
Durmo cedo, amanheço,
agitado, pare,
encolho, cresço,
cocaína, curare,
só do resto não esqueço.
Bígamo, bissexual,
bilíngüe, bissexto,
bisonho, binômio,
bipolar ao avesso
e isso é só o começo.
Demografia
A população da terra flutua
em sua demografia.
Reduz quando a noite cai,
aumenta quando a lua sai
e o sol nos devolve o dia.
Os responsáveis por isso?
Não são guerras, mortes, nascimentos,
nem sequer tragédias, tormentos
descritos em famosos anais.
São apenas alguns casais
que por serem tão especiais
e da vida não terem lamentos,
de dois, viram um só,
já na cama, sonolentos.
Quatro pernas se unem em nó,
braços enlaçam com jeito,
cabeça dorme no peito,
torsos e rostos colados.
Tão perto,
tão abraçados
que sentem respirar o parceiro,
e dormem tão agarrados,
que só precisam de um travesseiro.
Amor em Tempus Fugit
Um homem desejou,
certo dia,
separar-se do pensamento.
Fez tudo o que podia
para fugir ao tormento:
lavou a cabeça mil vezes
com água e creolina,
comeu galinha de esquina
e milho de encruzilhada,
deixou a mente nublada
com cem barris de vinho,
dançou por horas, sozinho,
sozinho viajou aos confins da terra,
escalou duzentas montanhas,
foi soldado em uma guerra,
amputou o dedo,
pregou-se na cruz,
arrancou os cravos,
lambeu seu pus.
E dez mil poesias recitou.
Todas elas em alto brado,
mas de nada adiantou
ao nosso valente soldado,
pois a lembrança e a memória
jamais o abandonaram
nem transformou-se em história
para sempre, continuaram
ali,
bem ao seu lado.
Então, já em desespero,
transformou-se em Florentino
que,
em completo desatino,
teve seiscentas amantes.
Mas com todas, em todos os instantes,
a cada vez que olhava,
era Ela que enxergava,
ainda a amava como antes.
E aquilo tudo era
bem mais do que suportava.
A carga que carregava
vergou d’alma a espinha.
Despido de tudo o que tinha,
o resto de vergonha perdeu.
Ajoelhou, rezou, confessou:
de tudo se arrependeu.
Não parou de prometer,
a todos os céus pediu,
em frente a Ele se ajoelhou,
a todos os santos clamou:
me façam dela esquecer!
Pois ele a vê para onde quer que olhe.
Sente seu cheiro em todas as flores.
Escuta sua voz em todas as bocas,
mesmo saída de gargantas roucas,
mesmo vindo de mulher louca
que da própria roupa esquece.
Suplica:
Atendam minha prece!
Me façam dela esquecer!
Pois viver só de lembranças,
sem poder com ela falar,
sem poder nela tocar,
dói bem mais
que morrer.
Na fumaça
Anda, pára, pisca, buzina,
um dia depois do outro.
Avenida Paulista, Viera Souto,
semanas, meses, esquina
onde trabalham meninas
que não mais são bonitas
e flutuam em noites aflitas
na fumaça de gasolina.
Fome
Corre, salta, pula muro,
parado aí, seu pivete.
Tô com fome, um croquete.
Tá seco, velho, escuro.
Não roubo mais, juro.
Mais passos, mais perto, alaridos,
um, dois, três estampidos -
na barriga vazia o furo.
Amor Lilás
Meus olhos só em você
são batatas virando purê,
e o padre que em nada crê,
junto ao cego que nada vê,
está brincado com o ABC,
escrevendo o que ninguém lê,
com respostas para o porquê
do bolo conter glacê,
da cor que sai da TV.
E
lhe
pergunto:
é A?
Ou Z?
Loucura
O conceito de loucura
é fazer o que se quer?
Sendo homem ou mulher,
adolescente ou madura?
É quebrar a amargura?
Realizar todo desejo?
É jamais negar o beijo
que foi dado com ternura?
A resposta ao segredo?
Com certeza é só uma,
que emerge em meio à bruma
e se espalha neste enredo,
porque ao se viver sem medo,
fazendo o que se quer,
sendo homem ou mulher,
somos loucos em degredo.
Na chuva
Parada,
imóvel,
na chuva,
olha
a mão
com luva
e chora.
Pensa:
Por que agora?
Tantos passos,
ternura,
beijos, carinho,
abraços
e ora.
Deus,
quem consegue
fingir,
enganar,
dissimular,
não sentir?
E implora.
Tenta esquecer,
não pensar,
em tamanha traição.
Luta para acreditar
que possa
virar perdão.
E cora.
Parecia amor,
mas vira dor,
e muta.
Tanta dor
que subtrai
direito à luta.
E demora.
Logo tu,
logo ela.
Não era eu a escolhida,
não era eu a mais bela,
tua flor amarela,
tua luz, tua vida?
E senhora.
Oh, enorme,
inominável
tormento:
te ver amar minha irmã,
no altar,
em nosso casamento.
E deteriora.
Corro,
não grito.
Gosto de fel,
desapareço,
me dispo
do véu.
E demora.
Vestido, sapato,
buquê,
luva.
Último ato:
esperar a morte
debaixo da chuva.
E evapora.
Ode à Vingança
Vendetta, revanche, vingança
sentimento que faz viver.
Infligirei dor, sem perdão,
àquela que faz sofrer.
Machucarei a quem machucou,
tirarei coisas de quem coisas me tirou.
Perdi meu amor, tu perderás o teu,
apodrecerei teu íntimo, como apodreces o meu.
Mas
subirei das profundezas nas quais fui jogado em vão,
e te farei descer, todos os dias, à mais profunda escuridão.
Pois
alimento com minhas entranhas esta chama que arde,
e tomarei o que me tomaste, pedaço a pedaço, cedo ou tarde.
E
sei que somente assim, a paz voltarei a ter.
Poderei caminhar, respirar, viver,
pois cuspirei em tua alma destroçada,
vomitarei em tua face assustada
e darei uma sonora gargalhada
vendo-te chorar
por não poder morrer.
Tesoura
Teobaldo amou Tereza.
Tereza amou toda gente.
Cada noite um diferente,
mas sempre uma dama à mesa.
E quando veio a certeza
do pior dos seus temores,
com a tesoura, seus rancores
retalhou em sua princesa.
Mundo Avesso
Lá no Mundo Avesso
é um baita fuzuê.
Casais só têm um bebê,
e isso é somente o começo,
porque cada filho travesso
tem várias mamães e papais
a paparicarem seus ais
por qualquer coisa à toa.
Já pensou que coisa boa:
presentes em profusão
e aquela competição
por quem dá mais carinho?
Pois lá naquele mundão
ninguém se sente sozinho.
Sempre tem alguém querendo
brincar com a criança
(esconde-esconde, futebol, dança),
passear quando está chovendo.
E quando estamos crescendo
para o mundo adolescente
tem toda aquela gente
para nos levar na festa,
comprar a roupa da hora,
ensinar como namora,
deixar o cabelo bonito.
E quando chegamos de volta,
com ou sem escolta,
na madrugada um ovo frito
e um papo bem bacana,
vendo se precisamos de grana
sem jamais recebermos um grito.
Quando chega o casamento
ser um polvo da noiva é o desejo,
pois dezenas de pais em cortejo
ela leva igreja adentro.
E a festa nunca é chata.
Dezenas de mães e de avós
para arrumar os nós
de apenas uma gravata
e deixar maravilhosa,
com jeito adolescente,
a jovem e bela nubente
e seu buquê cor de rosa.
E a lista de presentes
que é quase infinita,
quanta coisa bonita
que vem de todas as gentes.
Sem falar na lua-de-mel
e do belíssimo anel
que o noivo oferece
ao amor que acontece
nos lugares adoráveis.
Lembranças intermináveis
para a vida que floresce.
E quando chega o neto
com muitos, inúmeros avós
nas roupas presas por ilhós
com açúcar, com afeto,
brigam, se pegam as vovós
para ver quem troca a fralda,
quem faz o doce em calda,
quem rola pelo chão,
quem dá o banho -
Sou eu que limpo o ranho!
Mamãe não toca em cocô
em casa com tanto avô.
Dá para sair, ir ao cinema,
viajar, brincar, fazer o tema.
Tem criança com uma centena,
e outra com mil avós,
pois como já te disse,
em minha tagarelice,
lá ninguém fica a sós.
Só tem uma parte triste:
os inúmeros funerais.
Quem gosta de enterrar os pais?
É a pior coisa que existe.
E nós fazemos em profusão,
sem parentes para ajudar,
para dividir o pesar.
Sem primos, nem tios ou irmãos.
E tudo fica vazio,
escuro, sem graça, banal.
Todos se vão, afinal.
É triste, sem graça, sombrio.
Ficamos pura solidão.
E lá, mais nada é legal.
Pensando bem neste mundo avesso,
deixo de ser subversivo
por mais tentador que seja.
A falta de irmãos lateja:
prefiro o mundo em que vivo.
N´alma
Dor
que nasce n'alma,
n'alma feridas fere.
Se já não (mais) me
queres,
por que pulsa meu pulso então?
Porque quando me dizes
não
n'alma feridas fere.
E como já não (mais) me queres,
não
(mais) pulsa meu coração.
Adorador de Fotografia
Pedi a ela que
me Ofendesse
Implorei por seu
Adeus
Recebi silêncio
Nada
Voei, flutuei com
Asa quebrada
Desesperei
Na trilha gelada
Chorei, gritei, pranteei
Perante os olhos seus mas
Nem uma só palavra
Ou alforria do Adeus Tornei-me escravo de lembranças
Adorador de fotografia
Morto vivo que todo dia
se Esforça para entender
Como pode acontecer ser assim abandonado
Por quem sorria ao meu lado jurando sempre me amar
Sumindo do meu olhar
e assim
Passo noites em deriva
Coração, nervos, estiva
Profundo e revolto mar
Que um dia chamamos de lar
E
Luto todos os dias desesperadamente
Para ainda
poder respirar
Descartes do Renne
Penso.
Então hesito,
fico tenso
porque desisto
de pensar para que existo
como matéria, corpo denso
que existe só porque penso.
Abreviatura
Vivo em sala escura
entre livros e palavras.
Delas, sou escrava,
me alimento de cultura,
sei que é completa loucura
desejar tudo conhecer,
ínfimo será o saber.
Sou abreviatura.
Ela
O que gera uma paixão
e deixa transtornado,
deixando tudo de lado:
lógica, conduta, razão.
Quando o homem vai ao chão,
por mais forte que seja,
e só de ver a quem deseja,
perde rumo, destino, noção.
Seria o toque da mão
ou o dentinho quebrado?
Talvez o cheiro exalado,
mistura de perfume e suor,
aquele cheiro só seu.
Uma em três bilhões.
Inspira pele, pulmões
faz nobre virar plebeu.
E o mundo fica colorido
quando a vemos desfilar
de saltos a flutuar,
as pernas sob o vestido
longas, curtas, grossas, fascina.
Saltitando sobre lajotas,
música em suaves notas,
é formosa bailarina.
Às vezes, só o cabelo
já nos deixa encantados.
E olhamos, abismados
suas mãos a prendê-lo.
Suave franjinha morena,
longas madeixas castanhas
ou mesmo a punk estranha
traz a magia de Helena.
E jeito que dança na festa
com suas mãos tão pequenas,
a forma como caminha,
o sinalzinho na testa.
E quando assiste seresta
com olhos amendoados,
azuis, verdes, dourados,
janelas de alma honesta.
Pensamos: há de ser minha.
Na forma como rebola,
a blusa molhada que cola,
na chuva que vem à tardinha
talvez seja quase rainha.
Princesa, deusa romana,
linda e perfeita cigana
quando em meu colo se aninha.
X
Quem sou eu?
Do que sou feito?
Será que existe jeito
para o problema que não é meu?
E o que se pergunta o ateu,
uma incógnita vezes duzentos?
Me diz como agüento,
o que não aconteceu?
Para entender Maria José
Uso carinho como fuzil
de bomba que não explodiu.
e
Faço de mil palavras munição
para perfurar a emoção
que teima em ser um vazio.
Mas
não me falta coragem
para furar tua blindagem
que
impede a todo mundo
de ver teu eu mais profundo,
tua verdadeira imagem.
Diz-me
que te levo, meu amor.
Paris, Pequim, Japão,
Ilha de Tonga, Disney, Gabão,
Pólo Norte, Timor
Leste ou oeste, não importa
pois aonde quer que desejes ir
eu te levo, se reconforta.
Diz-me o que desejas
que te dou, meu amor.
Anel de ouro, de prata, rubi,
livro, revista, gibi,
casa, apartamento, cachorro,
já disse: por ti eu morro
e faço o que quiseres.
Serei sempre o teu homem
e você, todas mulheres.
Diz-me pelo que anseias
que lutarei por isso, meu amor.
Paz de espírito, fim da fome, do pavor,
do aquecimento global,
fim das doenças, de todo mal,
das queimadas, das enchentes,
da tristeza que assola as gentes,
te dou até a paz mundial.
Diz-me como me queres
que assim o serei, meu amor.
Cabeludo, careca, gordinho,
sarado, maltrapilho, terno de linho,
estico minhas pernas e fico mais alto,
ou corto meus pés para ser baixinho,
e me comporto como quiseres.
Posso ser lorde, nobre, cavalheiro
ou rude, grosso, matreiro,
mas sempre fiel escudeiro
se não me depuseres.
Sou tudo o que desejas
e tudo o que mais queres
Pois sei que sou teu homem
e que você nasceu
para ser todas as mulheres.
Queres?
Chocolate com Café
Certo dia me disseram
sussurrando em voz suave
que existe uma fórmula
capaz de tudo curar:
tristeza, choro, saudades,
dor de cotovelo, sono, cansaço,
paixão não correspondida,
ausência daquele abraço,
amargura, rotina, desentendimento,
brigas de namorado,
até problemas em casamento.
Nada,
nada
fica quebrado.
II
Então tudo parece bom,
nossa mente se torna alegre,
coração bate e rebate
em belo e pausado som
quando ouvimos este tom
doce como colo das avós
bem poucos segundos após,
em completo disparate,
sentirmos em nossa boca
a fórmula mágica e louca
do café com chocolate.
Assalto
Parado aí, meu irmão.
Susto, pânico, coração a mil.
Com a vida por um fio
me viro, encaro o ladrão.
E ali, na sua mão
reluz o cano cromado.
No gatilho o dedo pesado,
minha história por um tostão.
Eternamente Efêmero
(Toda verdade sobre o amor)
Definitivo,
palavra torta.
Para sempre, junção improvável.
Esteja
errado, seja louvável,
quase tudo pode mudar.
Agir, falar,
amar,
refletem apenas um momento,
e todo pensamento
sai em
busca de novo lar.
Sentimento
imutável, hipocrisia,
construção sólida, fragilidade,
preciso
experimentar, vem a idade,
somente a vida tem um fim.
Alma
insana, agora sim
despertar do desespero.
Todo um mundo em
atropelo
passando por sobre mim.
Quero
teu beijo, todo seu corpo,
preciso de sua alma.
Insanidade
cede, acalma.
Vida é céu, não mais inferno.
Primavera,
verão, fim do inverno.
Corpo, alma, coração,
de novo,
verdadeira emoção.
O momento fica eterno.
Oblíqua
Disse que nasci torta,
sem rumo, desastrada,
feia, sem graça, errada,
burra como uma porta.
Mas tenho a faca que corta,
e mamãe vai me pagar,
sofrer, gemer, gritar -
eu viva, ela morta.
Desesperadamente
Desesperadamente
preciso de uma mulher
que me deixe sem chão sob os pés,
que me desmonte por dentro,
que derrube minhas barreiras,
que dizime minhas defesas,
que me deixe todo errado,
que me faça arrumar o cabelo,
que me faça escolher as roupas,
que me faça pulsar de desejo,
que me tire a fome e o sono
e que eu só pense no seu beijo.
Desesperadamente
preciso de uma mulher
que me faça suar frio em pleno inverno,
que me faça fazer força para ficar em pé,
que eu gagueje cada palavra que tente dizer,
que eu feche a boca para que o coração não fuja,
que eu tente parecer normal e não consiga,
que eu não saiba em que posição ficar,
que eu não saiba o que dizer,
que eu não entenda nada do que vejo,
que eu só sinta seu cheiro no ar,
que eu só pense no seu beijo.
Desesperadamente
preciso de uma mulher.
E não temos que ser um só.
Seremos mais do que dois,
seremos alguns milhões,
saberemos do que outro gosta,
adivinharemos nossas vontades,
nos acompanharemos, estaremos lado a lado,
cúmplices absolutos, serenos,
grandes, enormes, pequenos,
alegres, felizes, cheios de desejo,
assim seremos nós.
Mesmo que eu só pense no seu beijo.
E se eu encontrá-la,
se eu realmente amá-la,
ficarei tonto ao abraçá-la,
sorrirei sem motivo algum,
cantarei o dia inteiro,
sonharei de olhos abertos,
não deixarei que nada de ruim lhe aconteça,
farei tudo, tudo por ela,
colorido será o que vejo,
viverei o momento eterno,
mesmo que eu só pense no seu beijo.
E quando a tiver em meus braços,
sei que já posso morrer,
posso de tudo esquecer
romper todos os laços.
Porque junto ao abraço,
doce e suave desejo,
flutuo, delírio imortal,
assim que sinto o seu beijo.
Esquina
Naquela estranha esquina
sobre caixote amarelo
baila graciosa Catarina
tal qual primeira bailarina
de um lindo castelo
que nem soberano tem
e onde não mora ninguém.
Universo paralelo.
Dança e a todos encanta,
faz padedês, flutua
mesmo que ninguém a veja.
Sobre a caixa de cerveja,
baila no mundo da lua
peças clássicas, modernas,
coreografias de tabernas
ali ao lado da rua.
E este é seu teatro,
seu Coliseu,
seu legado -
na esquina da avenida Brasil
com o Beco do Enforcado.
Cão
Faminto, rasteja,
pede, suplica, implora
com olhar que quase chora,
gane, mostra costelas, fareja
comida é só o que deseja,
mesmo podre, decomposta,
mastigada, imunda, deposta,
migalhas e restos festeja.
Isabela
No dia em que Isabela
decidiu amar de verdade,
mesmo que em tenra idade,
menina quase mulher,
uma estrela qualquer
riscou o céu da cidade
desenhando linda tela
para o sol nascer mais tarde.
De sua beleza imensa,
que nem em seu nome cabe,
brotou ternura suave,
vontade, toque, desejo.
Faria tudo por um beijo,
um carinho, um afago,
qual pedra que cai no lago
e toda superfície deforma,
ou compressa d´água morna
que cura qualquer estrago.
verdades de quem se importa,
que tornam viva a alma morta
na casa em que sonho dormir,
desejo ficar, não quero ir.
É nesta calma que vou habitar
ao seu lado me deitar.
Bato, peço passagem -
é o fim de minha viagem.
Suavemente abro a porta.
Pois entre todas as mulheres do mundo,
só a desejo, só quero a ela,
um milagre particular,
uma vida,
Isabela.
Hospital
No longo corredor
empilhado sobre maca
só espera pela faca
que possa tirar a dor.
Em meio a todo pavor
do corredor gelado
com semimortos ao lado
exalando fétido odor.
Janela
Eu penso nela,
ela pensa em mim,
e no caminho sem fim
que surge pela frente
o homem se aventura,
a mulher se ressente.
Ela olha para mim,
eu olho para ela,
e por essa janela
que se abre n’alma
o homem se perde,
a mulher se acalma.
Eu toco nela,
ela toca em mim,
e quando o não vira sim,
o talvez uma certeza,
o homem vira vassalo,
a mulher, uma princesa.
Ela abraça a mim,
Eu abraço a ela,
e a vida fica bela
em apenas um instante.
O homem quer excesso,
a mulher, só o bastante.
Eu beijo ela,
ela beija a mim,
E quando parece que enfim
o amor vai florescer,
o homem passa a chorar,
a mulher, a tremer.
E
ela se entrega a mim,
eu me entrego a ela,
e ao ter a certeza de ser aquela
a pessoa que se quer,
a mulher se torna o homem,
o homem se torna a mulher.
Jornal
Vê na capa de jornal
a foto do seu rebento
e celebra o momento
que chegara, afinal
o sonho de ser o tal
era calçando as chuteiras,
mas cheirou tantas carreiras -
face branca de cal.
Mundo Estranho
O mundo anda estranho, torto, confuso.
Compro, jogo fora, nem uso.
Seis bilhões e muitos no mesmo fuso.
Quem sou eu, o que está acontecendo?
Serei o recém-nascido que já está morrendo?
Ele distorce, atrapalha, escorre.
Hoje, quem não mata, morre.
E quem não teme, mesmo parado, corre.
Até o dinheiro agora é de plástico.
Nosso domingo virou algo Fantástico.
Assassinos presos em algemas de elástico.
Por quê? Vamos, responda!
Tire de mim esta maldita sonda!
Felicidade? Pode ser medida, tem valor.
Compram-se no atacado doses de amor.
E no varejo, porções de terror.
Estamos imóveis em velocidade infinita.
Mulher que nasceu feia fica bonita.
Chamamos de alimento a batata frita.
Pior de tudo, em minha horta,
só nasce ervilha torta,
e essa lâmina que não corta!
E quem é você que eu beijo no cais?
Se o que você era não existe mais?
Mas estou atento
ao que diz o vento,
pois a culpa é toda sua.
Aí parado no meio da rua.
Lendo revista de mulher nua.
Mas a perda foi toda minha.
Gastando tudo que tinha.
Fazendo você, rainha.
preciso condenar um ser humano.
Fazê-lo entrar pelo cano.
Fazê-lo boneco de pano.
Penar por desconstruir Luciano
E alguém há de pagar,
por esta falta de ar,
de um par, de um bar,
de lar.
E outros vão ter que sofrer,
pelo que sou obrigado a ter
e pelas coisas que vejo
e que despertam terrível desejo
De algo que não quero ser.
E você que enxerga e não vê?
E ele que tem fé e não crê?
E aquele outro que quer ser você?
Porque detesta o reflexo que vê.
E eu que
escrevo, escrevo, escrevo, escrevo,
escrevo, escrevo, escrevo,
escrevo, escrevo,
escrevo,
por que tenho certeza de que ninguém lê?
Olhos de Luar
Ausência que despedaça,
nada resta, estou vazio.
O corpo vida sai à caça
recolhendo pedaço frio.
Busco abrigo, calor, alma,
tremo, paraliso, quero calar.
Minhas suplicas pela tua calma,
ressurreição, teus olhos de luar.
Porta
Assim suporto a dor,
ausência de seu amor -
dias olhando a porta
em noites a esperar
qual máquina de chorar
bem menos que uma casca
de ovo sem conteúdo.
De pássaro que canta mudo
pousado em galho fino
querendo que o destino
contenha minha revolta.
E olhando a mesma porta
de mogno, tão pesado
vivo só o passado
enquanto ela não volta.
Papeleiro
Livros, jornais, revistas, que joça.
Manuais, compêndios, relatórios,
memorando de escritório,
documentos aos quilos na carroça,
homens fazendo troça
porque não sabem ler,
e todo aquele saber
recicla, vira pasta, empoça.
Saudade
Ah, se antes eu soubesse
que saudade tem forma,
cor, cheiro, tamanho,
seria para ela um estranho,
teria mudado de calçada,
não atenderia ao telefone,
talvez não fosse mais homem
e sim animal que não pensa,
livre de dor intensa.
Saudade sente muita fome.
Tento segurá-la por entre as mãos
como uma bola gigante
tão difícil de carregar,
tanto medo de perdê-la
qual criança pequena
que da boneca tem pena
e respeita o sentimento
do brinquedo que num momento
torna-se disforme, liquefeito.
tento evitar, de qualquer jeito
que escorra por entre meus dedos,
mas saudade é feita de medos
de ausência do ser perfeito.
É laranja, verde, às vezes rosa,
na maioria dos dias vermelho,
cores tão fortes que ofuscam,
tão escuras que não as vejo,
arco-íris de desejo
que minhas retinas buscam.
E o cheiro, é sempre o mesmo,
alecrim, lavanda e suor.
Dos perfumes, sempre o menor
senti no seu regaço,
e se fundiu num abraço
essência do que há de melhor.
Mas tamanho, tamanho não tem,
pois já não cabe em mim,
é maior do que onde vivo,
expandindo-se além do fim,
quase uma coisa infinita,
tão imensa, tão poderosa
qual bola amarela,
tão forte e relevante
que vira pó no instante
Relações
O destino de nosso mundo
seria fétido e imundo
se não houvesse o altruísmo.
Porque o egoísmo
é tão devastador
que faz a bomba atômica
e sua explosão cônica
parecerem tapas de amor.
Semelhanças
Você é céu, eu sou
terra.
Se eu sou nuvem, você é espaço,
e no calor do teu
abraço
nossos corpos a tremer,
desejando enlouquecer,
vencidos
pelo cansaço.
Você
se acalma, eu me agito.
Quando sussurro, você berra.
Somos
semente coberta de terra
lutando, querendo crescer,
torcendo
para o sol nascer,
buscando paz nesta guerra.
Você quer
mais, eu peço tempo.
Eu solicito, você paralisa.
Suas
palavras viram brisa
refrescando toda emoção,
envolvendo meu
coração,
sonho se realiza.
Tão
distintos, tão diferentes,
sensação de não dar mais
repetindo
nossos ais,
construindo um futuro,
mas só uma coisa
asseguro:
somos dois, exatamente iguais.
Sumiço
Como sempre acordou Maria
nos últimos cento e vinte meses,
sem contar quantas vezes
vira raiar do dia.
Fez tudo o que podia
para tentar entender
por que foi João desaparecer
levando na mala sua alegria.
Vida
E se fosse mesmo verdade...
Que a vida pode ser boa
com vento, chuva, garoa,
sol, nuvens, tempestade,
será que é mesmo verdade
essa sensação tão boa,
essa palavra que entoa
capaz de falar sem alarde,
de noite, de manhã e de tarde,
a cada hora da vida
na volta, na vinda, na ida,
quando todo meu corpo arde
e amor nos ouvidos ecoa,
musica, cinema, caminhar, comida,
dormir, chorar, sorrir, bebida,
tudo.
Com ela a vida
é mesmo boa.
Simpatias
Luto
todos os dias,
noites e madrugada
esta guerra desgraçada
que travo minuto a minuto
contra minha alma de luto
para tirar
ela de mim.
Bebo chá de capim
em ponto de ebulição.
Me banho com chocolate,
coloco em três esquinas
galinha e amendoim,
pepino com mandolate,
charuto de procissão
com nome escrito a nanquim.
E
pulo em um pé só
dizendo esqueça, esqueça
pelo bairro onde ela mora
batendo em minha cabeça
até que meu corpo chora
e coloco ramos de amora
detrás de minha orelha,
mas só do lado direito,
porque no esquerdo do peito
ela ainda mora.
Mora,
habita, vive,
em fortaleza indestrutível
que resiste a todos os assaltos,
com muros cada vez mais altos,
na mais linda das torres,
segura e inatingível.
E...
posso tentar o que for,
já me conformei,
pois este amor
É...
indestrutível.
Quimera
Todos temos um fardo,
um peso, uma cruz.
Ferida cheia de pus,
olho furado por dardo,
filho que nasce bastardo,
defeito, erro e falha
que cansa, pesa, atrapalha,
perfura sonhos, petardo.
In com Ciência
Eisten Alberto
mostrou ao mundo a língua
e o átomo foi aberto.
Newton José
deitado, sob a macieira,
sentiu a maçã no pé.
Da Vinci Leonardo
fez de tudo na vida,
foi até veado.
Cruz Osvaldo
de muitos salvou a vida,
vacinou, curou ferida.
Mozart Amadeus
por pouco não foi um deus
com suas músicas sacras.
Zoroastro, Maomé, Jesus,
Pedro, Vishnuu, Buda,
ser crente ou ateu,
a vida de muitos muda.
Ter um deus é direito seu,
e nossa! Como ajuda.
Mão, Pinochet, Trumann,
Hiltler, Mussoline, Videla,
todos porcos imundos.
Estes não entram no céu
nem pela porta dos fundos
nem por alguma janela.
Todos, todos diferentes.
Todos, todos meio loucos.
Mudaram o mundo aos poucos,
para o bem e para o mal,
mas nenhum era normal
como eu ou você
e sabes bem o porquê.
Gênios e demônios não são humanos,
pois passam anos e anos
causando morte e espanto,
risadas, surpresa, pranto
a todos os demais.
Por isso são sempre lembrados,
não morrem,
são imortais.
Merda
Escuta aqui, retardado,
tá pensando que vai me fechar?
Vai te fuder, te cagar,
desgraçado, animal, veado,
corno, puto, mal acabado,
tô cagando que tu tá de luto,
veado, corno, puto,
te quebro a cara, desgraçado.
Palavras
Não existem algumas palavras
que parecem nascidas tortas?
Desengonçadas, capengas,
Mal acabadas, semimortas?
Não me conformo, protesto,
me expliquem por que “resto”
é a sobra do que não presta
deixada em soleira de porta?
E onde esta o "h" de umidade,
uma letra quase molhada
que devia existir em água
que é feita de H2O
e que nunca se usa só
porque nem som tem
e que sem avisar ninguém
foi parar lá na entrada horta?
Por acaso alface, tomate,
Cebola, nabo e repolho
precisam de algum “h”
para virarem molho?
E as palavras que são tacanhas,
confusas, sem sentido
que doem no fundo do ouvido
com sons que a garganta arranha?
Estranho não pede um "x"
no lugar daquele "s"
que se meteu em meio a cresce
sem a menor cerimônia.
Imagine a palavra esdrúxula
misturada com amônia -
isto é coisa de bruxa,
ou talvez de feiticeira
com seus dois “i” soltos
que deixam palavra faceira,
mas pode ser só magia
que também tem “I” sobrando
e para que botar mais um “s”
se só queremos descer?
O que tem na piscina
é para quem está afundando?
E por falar e “x”,
a letra do aprendiz,
pois é sempre incógnita,
com este “g” sem sentido,
que dói no fundo do ouvido,
que tem um “u” sobrando,
que não falta no tal de chuchu
nem no filé de urubu.
Meu deus, é tudo com “u”?
Só a palavra nada é perfeita.
Parece que não está lá,
pois quase não a vemos
em todas as frases lemos.
E o “u” na palavra louco,
será o mesmo que te deixa rouco?
Mesmo que digamos
que aquele LOCO tá ROCO,
achas isso pouco
ou POCO?
Letras que não têm som,
ditongos, sílabas no ar.
O português parece que foi
feito só para me complicar.
MÚSICAS
Aos doze anos
Querem que eu beba leite, sucos vitaminados...
Mas no churrasco de domingo, eles bebem, ficam alterados...
Me dizem para ser correto, crescer honestamente...
Mas compram sem nota, na estrada correm loucamente...
Tenho que ser da paz, fugir da violência...
Mas à noite, na televisão, assistimos a imagens que são pura demência...
Querem que eu cresça com amor, seja carinhoso...
Mas eles quase nem se tocam, vivem num clima odioso...
Me dizem para ser sábio, desenvolver minha inteligência...
Mas eles não lêem para mim, falta vontade ou paciência...
Tenho que ser feliz, ser bem-sucedido na vida...
Mas falam muito mal dos outros, me pergunto se há saída...
Espero que eles entendam. Tudo o que falam fere meus ouvidos...
O que preciso são exemplos, são modelos...
Pois só o que vejo faz sentido...
Amor e Paixão
Já me apaixonei
Milhares de vezes
E todas as mulheres
Me deram prazeres
Mas nenhuma delas
Entrou na minha vida
Pois foram paixões
Sempre mal-resolvidas
Paixão só de olhar
Que queima por dentro
Paixão de tocar
Mas sem sentimento
Paixão de uma noite
Que dura uma vida
Paixão de verão
Correspondida
Mas você
Tocou meu coração e me trouxe a verdade
Só de virar o rosto já me dá saudades
Trouxe a minha vida o verdadeiro amor
E com seu beijo doce fez sumir a dor
Paixão de homem
Que busca o corpo
Paixão de mulher
Que quer o conforto
Paixão de menino
que sufoca a gente
Paixão com namoro
Adolescente
Mas você
Tocou meu coração e me trouxe a verdade
Só de virar o rosto já me dá saudades
Trouxe a minha vida o verdadeiro amor
E com seu beijo doce fez sumir a dor
“I need a miracle”
I am fourthy years old
And my life become a mess
You just appeer like a tunder
And all my no became in yes
The choices I made when I was young
I know I tried to made my best
I bilt a hole life without you
But now I know you I just can´t rest
I need a miracle in my life.
I just dont know what to do.
There are many paths that i can follow,
But in wicht one i can reach you ?
(2)
I need a sign, I need the north
I must decide my future life
There are no winning without loosing
I want you. But whats the price ?
My heart are slip in many picies
In every one are love in pain
Bring the sunshine to my days
I tired to live under the rain
I need a miracle in my life.
I just dont know what to do.
There are many paths that i can follow,
But in wicht one I can reach you?
(2)
“Eu preciso de um Milagre”
(tradução livre – I need a Miracle)
Eu estou com quarenta anos
E minha vida virou uma confusão
Você apareceu como um trovão
E todos meus não transformaram-se em sim
As escolhas que fiz quando era jovem
Eu sei, eu tentei fazer o meu melhor
Construí toda uma vida sem você
Mas agora que a conheço não consigo descansar
Eu preciso de um milagre em minha vida
E não sei o que fazer
Há muitos caminhos que posso seguir
Mas em qual deles chego a você?
(2)
Eu preciso de um sinal, de um norte
Tenho que decidir minha vida futura
Não existem ganhos sem perdas
Eu te desejo. Mas qual o preço?
Meu coração está partido em muitas partes
Em todas há amor e dor
Traga o brilho do sol para meus dias
Estou cansado de viver sob a chuva
Eu preciso de um milagre em minha vida
E não sei o que fazer
Há muitos caminhos que posso seguir
Mas em qual deles chego a você?
(2)