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Uma luz no fim do túnel !!!

Uma luz no fim do túnel

Xavier T.

Edição eletrônica

São Paulo – Maio – 2001

Copyright © 2001 – BN – 230.194–405-354

Todos os direitos reservados e protegidos por lei.

É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios,

sem autorização prévia, por escrito, do autor.

Carta ao leitor


Nunca imaginei que um dia poderia escrever, não gostava de escrever nem de ler, mesmo querendo nunca teria conseguido tempo para fazê-lo, porque tive uma vida muito agitada e sempre fui uma pessoa extremamente ocupada. O que me leva a fazê-lo, é simplesmente a gratidão por ser quem sou hoje graças ao meu passado alcoólico, um passado negro e sofrido que já sem esperança de vida mudou de repente após viver uma “experiência sem nome”. Sinto a necessidade de que todos saibam que há uma solução para os desequilíbrios emocionais e especificamente como aconteceu comigo, para a dependência do álcool.

Este livro nem é nem tem a pretensão de ser técnico ou profissional, espero conseguir relatar a pura verdade sobre fatos reais vividos através da dependência e do sofrimento, e mais tarde da recuperação.

Enfrentando sem opção responsabilidades de adulto, e ainda na adolescência, queimei algumas etapas da vida para atingir as metas por mim preestabelecidas. Vivi o que para muitos pode significar chegar até o topo. Viajei bastante, morei em alguns países por este mundo afora e conquistei altos cargos em grandes companhias, não foi o suficiente para mim, e para concluir minhas ambições precisava ser um empresário bem sucedido, obcecado por esta idéia também tive minhas empresas.

Após tal experiência de vida, quando tudo parecia indicar que tinha conseguido realizar meus sonhos com um certo sucesso, percebi ter chegado ao fundo do poço. Era tarde demais e me confrontei com um quadro irreversível, inconformado tentei várias alternativas, porém em vão, já não tinha mais forças e sofria até o ponto angustiante de pensar que estava ficando louco ou poderia morrer a curto prazo.

Vivemos em um mundo perturbado e sempre o será, desastres e calamidades nunca pararam até o presente momento, continuam as fronteiras que delimitam os países e pelas quais já se brigou muito, parece ter chegado a calmaria, mas as guerras tecnológicas são assunto de atualidade, tudo indica que o ser humano é movido por ideologias e sede de poder, nada mudará se não mudarmos nós mesmos.

Gostaria que esta pequena leitura desse uma visão de esperança para uma vida melhor, existe sim, a possibilidade de viver de uma maneira feliz com serenidade e sabedoria, mas a vida me mostrou que isso acontece a maioria das vezes somente quando chegamos a derrota total. Entendo que hoje vivo uma vida feliz e minha família também, em outras palavras tenho mais uma chance, uma nova vida. Hoje, ao contrário do passado não preciso mais ser o diretor do show, a verdade é que minhas prioridades e conceitos mudaram.

Valeu a pena . . . .





Conteúdo


Introdução


Da infância - Nas discussões e brigas familiares os adultos tornam-se crianças e, as crianças sofrem como se fossem adultas - Uma criança frágil e sensível vive num ambiente caótico que o marcará para toda a vida


Liberté – Egalité – Fraternité - Apresenta-se uma oportunidade única para vencer - Basta ter coragem e vontade de chegar ao topo


Possuído pelo cupido, amor à vista - O amor não tem pressa, e sem ele é impossível viver - Não existe o acaso, o destino estava predeterminado


O Cristo Redentor esperando por mim - Querendo chegar ao topo por causa das ambições doentias - Mais uma fuga procurando a própria identidade


No desespero, minha família afundava junto comigo - Desnorteado voltava ao inferno - A queda livre estava começando - Após os benefícios chegam os prejuízos


Tinha que aproveitar a ultima oportunidade - Estava derrotado, sem mais nenhuma expectativa de vida - Forçado em aceitar a realidade para manter-me vivo


Uma luz no fim do túnel - Estava começando uma segunda vida - Os primeiros tempos de sobriedade


Os Doze Passos de A.A. - Sugestões para quem quer abandonar a bebida - Um programa de vida que pode ser adotado por qualquer um


Perguntas e respostas sobre os Doze Passos de A.A.Se você nunca ouviu falar de Alcoólicos Anônimos, mate sua curiosidade


Minha opinião sobre A.A.Resumindo - Capitulo V do livro azul


Bibliografia



Introdução


Durante esses últimos anos tal qual um recém nascido tenho me interessado de um modo “real” pelo ser humano e tentado entender o que houve de errado comigo por mais de trinta anos. Sinto um alívio ao pensar que todos temos com maior ou menor intensidade certos desvios ou imperfeições que nos levam sistematicamente a algum tipo de dependência. Há aqueles em que estes dissabores estão enraizados dentro deles mesmos fazendo parte de suas próprias personalidades e que possivelmente nem saibam, o que poderia se chamar de neurose pura, e também há aqueles que de uma ou outra maneira sentem a necessidade consciente de consumir algo que possa lhes trazer de alguma forma relaxamento ou euforia conforme cada caso, de todas maneiras todos encontram conforto através de algo ou alguém (canalizando o estado emocional provocado pelos defeitos de caráter), o que determina uma dependência. Existem inúmeras maneiras de depender de algo ou de alguém, algumas delas são aquelas vistas pela sociedade como dependências graves porque progressivamente podem levar a morte prematura ou a distúrbios psíquicos irreversíveis, na medida que se consomem drogas em excesso, nocivas para a saúde, quase sempre se tenta esconder a verdade porque envergonha os que convivem com a “vítima” e também porque a maioria das pessoas não sabe que é uma doença, portanto acreditando ainda que o paciente possa ser recuperado do “vício” se costuma tratar os efeitos e não as causas, em outras palavras uma espécie de anestesia, acho inconcebível ter que viver uma vida inteira na base de tranqüilizantes. Outras dependências mais suaves são vistas com tolerância porque se acha que ser dependente do chocolate, doce ou comida não é tão grave assim, e há aqueles que não consomem absolutamente nada talvez porque não tiveram nenhuma ocasião ou motivo para experimentar, porém isso não impede que tenham distúrbios emocionais que eles próprios não vêm mas que podem ser percebidos pelos outros.

Freqüentando inúmeras reuniões, palestras, e conversando com especialistas sobre o alcoolismo, aprendi que se tratava de uma doença e que não eram eles que tinham feito tal descoberta, me disseram que assim foi divulgado pela O.M.S. (Organização Mundial da Saúde), que era progressiva, incurável e que podia levar a loucura ou a morte prematura de seu portador. Quando ouvi a palavra “doença” a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi que eles tinham toda a razão, estavam totalmente certos, porque dito por eles se fosse verdade seria mais fácil de suportar. Falavam que era uma doença total já que não se limitava ao simples fato de pessoas que bebiam até cair, era total porque abrangia tanto a parte física, como a mental e a emocional.

É por estas características que o alcoolismo é universal, pode atingir qualquer habitante de qualquer país, não discriminando cor, sexo, grau de cultura, religião, idade ou classe social.

Até o presente momento não existe nenhuma vacina ou remédio contra o alcoolismo que realmente tenha comprovado algum resultado confiável e duradouro, isso em função de suas características, porque estamos falando de algo mais complexo que a parte física pura e simplesmente. Não estou querendo menosprezar nem a classe médica nem as religiões, porque as vezes tem conseguido bons resultados e sei que muitos profissionais tem trabalhado no sentido de recuperar alcoólatras sacrificando uma boa parte do seu tempo, porém tem-se observado que quando terminado o tratamento médico e o paciente retoma sua vida normal são mínimas as chances de reintegração bem sucedida. Lá fora são quase permanentes as oportunidades que se apresentam para tomar um drinque, a aí como fica?, é justamente este primeiro gole que pode fazer com que comece tudo de novo, pois o alcoólatra não pode controlar seu modo de beber. Precisam ser reconhecidos o esforço e a contribuição que tanto a classe médica, psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e outros, assim como várias religiões têm exercido para ajudar aqueles que sofrem com a doença. São forças somatórias para o bem-estar da humanidade.

Daí a existência de grupos de auto-ajuda tais como: Alcoólicos Anônimos para os dependentes do álcool, Al-Anon para os familiares que convivem com o alcoólico, Al-Ateen para filhos de alcoólicos com idades de treze a dezenove anos, Narcóticos Anônimos para dependentes de drogas (chamadas ilícitas), Nar-Anon para familiares de dependentes de drogas, Neuróticos Anônimos para pessoas com desequilíbrios emocionais (neurose), C.C.A. Comedores Compulsivos Anônimos, F.A. Fumantes Anônimos, M.A.D.A. Mulheres que Amam Demais Anônimas, D.A.S.A. Dependentes de Amor e Sexo Anônimos, S.I.A. Sobreviventes de Incesto Anônimos, Jogadores Anônimos, estes são alguns dos grupos de auto-ajuda existentes no Brasil atualmente, existem no exterior outros grupos que tratam de outros tipos de dependência e que muito provavelmente não irão demorar muito em se formar aqui. Todos os grupos chamados de Anônimos tem se espelhado através do programa de Alcoólicos Anônimos e cuja essência são os DOZE PASSOS, valiosa ferramenta para a recuperação do dependente. Baseado na troca de experiências entre seus membros é que se consegue deter a doença mudando radicalmente de vida. Existem outras irmandades e associações voltadas para esta finalidade, que também contribuem para uma recuperação satisfatória do alcoólico. Todas elas são bem-vindas, pois apesar de terem estruturas diferentes o que realmente importa é que o alcoólatra possa ter mais uma alternativa para não morrer.

Consultei várias literaturas que me ajudaram muito para escrever o texto deste livro, a relação consta no capítulo Bibliografia no fim deste livro. As matérias contidas neste livro são exclusivamente de minha responsabilidade e representam apenas o meu pensamento pessoal que, mesmo coincidente, não deve ser considerado de A.A. ou outros como irmandades.

Todos os relatos escritos neste livro, são simplesmente a experiência vivida por mim, foram momentos difíceis e outros maravilhosos durante minha recuperação como alcoólico. Não existe nenhuma receita ou poção mágica para se recuperar do alcoolismo, cada ser humano é diferente do outro e o que serve para mim pode não servir para outro doente alcoólatra.

Quero aqui agradecer e dedicar este livro a minha esposa que foi uma peça chave para minha recuperação devido a sua compreensão e conhecimentos sobre a doença, que com um convívio feliz e duradouro possamos terminar esta segunda fase de nossas vidas, também quero agradecer aos meus dois filhos por terem me dado a oportunidade de tentar ser um “pai”, mudei muito mas ainda acho pouco, sei que isso só acontecerá lentamente mas não desanimo, amo vocês. Obrigado do fundo de meu coração a todos aqueles que hoje são meus amigos e que conheci durante estes últimos nove anos, aos que moram no Brasil, no exterior, a vocês amigos reclusos, amigos internados, vocês esposas e esposos, filhos e filhas de alcoólicos, vocês que me ajudam a tratar do meu pânico e de minhas fobias, a todos vocês que igual a mim foram atingidos por “algo” que nos tornou “diferentes”, e especialmente a você . . . . . . Henrique.





Da infância

Nas discussões e brigas familiares os adultos

tornam-se crianças e, as crianças sofrem como se fossem adultas.

Uma criança frágil e sensível vive num ambiente caótico que o marcará para toda a vida.



Sitges é a cidadezinha onde nasci, parece um cartão postal, fica a uns 35 km. no litoral sul de Barcelona, até hoje é uma cidade turística, na pós guerra muitos estrangeiros descobriram esse lugar maravilhoso e o tornaram famoso. Na “costa dorada” com o mar azul e ainda com pequenas embarcações dos pescadores tinha todas as características adequadas para passar férias e descansar, dava para perceber que era uma cidade artística aonde muitos artistas vinham de longe para pintar seus quadros a beira mar. Era um ambiente boêmio que evidentemente estava ligado aos artistas de modo geral, escultores, escritores, poetas e por ai afora. Os turistas (nacionais ou estrangeiros) tinham alto poder aquisitivo, alguns deles eram proprietários das mansões construídas frente à praia na parte mais nobre da cidade. Todo ano durante as férias o numero de habitantes duplicava, eles curtiam alem das belas praias as diversas opções de lazer, como o golfe, tênis equitação entre outras. Recordo-me perfeitamente do ambiente no verão, sentia-me um privilegiado pelo fato de morar lá o ano inteiro.

Meu pai também nasceu ali, sua família era totalmente catalã, tinha duas irmãs, a mais velha “Josefina” era viúva e seu marido tinha feito fortuna em Cuba, infelizmente nunca tiveram filhos. A outra irmã “Eulália” era a caçula e minha madrinha, demorou em se casar, casou-se já coroa com aproximadamente uns quarenta e cinco anos de idade, tentaram fazer um filho mas infelizmente nasceu morto. Portanto, uma família cuja sucessão somente poderia ser feita por parte da linhagem do meu pai. Três anos mais tarde Eulália e seu marido adotavam uma menina e a registraram como legitima filha deles. Obviamente que por trás disso tudo tinham em mente o que iria acontecer depois quando fossem tratar dos assuntos de herança, pois entre as posses dos meus avos e da Josefina somados valeria seguramente a pena brigar.

Minha mãe é francesa, nasceu em Denain ao norte da França, ela completou noventa e cinco anos de idade em fevereiro de 2001, ainda moça trabalhou alguns anos como secretaria de diretoria numa firma em Paris, tinha uma irmã, a Jane mas seu apelido era “Nonô”, meu avo foi transferido para Sitges com a responsabilidade de construir uma usina de cimento a seis quilômetros da cidade num vilarejo chamado Vallcarca. Quando minha avó, minha tia Nonô e minha mãe foram pela primeira vez de férias e visitar meu avô a Sitges, ficaram impressionadas. Foi la que meus pais se conheceram, namoraram e casaram. Minha mãe, mulher bonita elegante e de forte personalidade se adaptou sem maiores problemas no país, ela gostava muito do meu pai.

Eu era o caçula da família com cinco filhos, quatro homens e uma mulher (éramos seis, mas o Gustavo que morreu com dois anos de idade por causa de um tumor na cabeça, nunca o conheci), e como costuma acontecer sempre nas famílias com mais de um filho tive mais mimo e proteção que meus irmãos mais velhos pelo simples fato ser o caçula.

Tinha cinco anos de idade quando meu pai, por causa de um derrame ficou deficiente em uma cadeira de rodas para o resto de sua vida e foi aí que começaram a complicar as coisas no seio de minha família. Ele era alfaiate de renome e conhecido, com muito boa freguesia após longos anos de exercício da profissão, sempre no verão tinha mais serviço, trabalhava em casa e as vezes até virava a noite para cumprir o prazo prometido aos clientes, morávamos numa casa no centro da cidade com três andares e haviam umas três ou quatro costureiras que ajudavam o meu pai durante o verão.

Nos anos cinqüenta as esposas estavam restritas a criar os filhos e se manter às tarefas rotineiras do lar, diante o novo quadro que se apresentava, como levar adiante uma família de cinco filhos com idades entre cinco e dezessete anos?

Havia mais um ingrediente para temperar tal situação, o relacionamento entre a família do meu pai e minha mãe não era dos melhores. Talvez por causa da nacionalidade de minha mãe, simpatia e relacionamento fácil que ela tinha com os que a rodeavam, ou talvez por ciúme sabendo que éramos nós os sucessores para efeitos de herança. Dez anos mais tarde minhas tias forjariam um testamento assinado pelos meus avos deixando somente uma legitima parte dos bens (correspondente a um dozeavo do total) ao meu pai e ainda com valores sub estimados, em outras palavras ficou praticamente sem nada.

Nos primeiros tempos minha mãe conseguiu com algumas reservas financeiras levar a família adiante, mas depois todos meus irmãos e irmã sem alternativa tiveram que partir a fim de tratar de suas próprias vidas, cada um por si mesmo para sobreviver.

O Santiago que já tinha se formado em engenharia iria à França para começar sua vida profissional, chegando lá e estando em idade de servir o exército foi enviado à guerra da Argélia, voltando a Paris três anos mais tarde. Desde aquela época até os dias de hoje mora na França a 80 km. de Paris no estado de Seine et Marne. Recém aposentado, casou-se três vezes e tem quatro filhos homem e duas filhas.

A Odette, minha única irmã foi para Inglaterra onde trabalharia como baby sitter pois não tinha nenhuma profissão. Faleceu em 1987 de causa desconhecida, morava perto de Paris, sei que doente tomava sedativos antidepressivos e que também gostava e bebia bastante álcool. Teve quatro filhas e um filho em dois casamentos e um amante.

O José Maria, optou pela vida religiosa e ingressou nos Padres Escolapios, dez anos depois era ordenado sacerdote naquela igreja, dez anos mais tarde eu o influenciaria a abandonar a batina. Hoje, é o único que mora perto de Barcelona numa cidade chamada La Garriga, tem quatro filhas, duas já casadas.

O Daniel demorou ainda algum tempo antes de ir à França, pela idade e porque estava apaixonado pela “Maribel”, uma garota de Sitges. Ele tinha 9 anos quando meu pai teve o derrame, continuou uns dois anos ainda na escola, mas precisou começar logo a aprender uma profissão manual para ajudar minha mãe porque as reservas financeiras estavam terminando. Diante da situação, o Daniel ajudava em casa com seu pequeno ordenado e as gorjetas que ganhava trabalhando na portaria do grande hotel Terramar em Sitges abrindo as portas dos automóveis para os clientes descerem dos luxuosos carros, mas como somente ganhava no verão começou em outra profissão numa oficina mecânica como ajudante, ele sempre foi apaixonado por motores e velocidade. Alguns anos depois também iria morar na França e trabalhar no inicio com o Santiago que o acolheu na sua casa. Ele tem uma única filha e mora a 130 km. ao Norte de Paris no estado de l’Oise.

Minha mãe montou uma loja do tipo armarinho, mas não deu certo, as despesas eram maiores que as receitas, pois o maior movimento como de costume era durante os três meses de verão, lembro-me que num Natal não tínhamos a mínima possibilidade nem sequer de comer um frango assado, na véspera enquanto estávamos nos fundos da loja tocou a campainha (ela tocava automaticamente quando alguém abria a porta da loja), minha mãe for ver se era algum cliente e, surpresa, alguém tinha deixado umas sacolas com todos os produtos típicos para poder festejar com fartura as festas de Natal e Ano Novo e ter uma boa mesa nestas datas, nunca soubemos quem foi que deixou as sacolas, acredito eu que seria alguém que conhecia nossa situação e que realizou este ato de modo totalmente anônimo.

Eu, criança com cinco anos presenciei a pulverização da família, quase sem mais irmãos para brincar e em particular minha irmã que estava sempre perto de mim, o lar de repente ficou vazio e reinava um ambiente depressivo, minha mãe e minhas tias brigando sempre até por qualquer coisa sem importância, era uma situação muito triste.

Continuei indo a escola das freiras até os sete anos, sei que pela situação econômica em casa não cobravam quase nada. Fiz minha primeira comunhão, minha educação e os colégios sempre foram voltados à religião católica, aos oito anos comecei a estudar em outra escola, desta vez eram os Padres Escolapios, ali estudei até os doze anos, conseguia passar de ano raspando, minhas notas não eram muito boas, acredito que por falta de concentração minha mente sempre esteve muito dispersa.

Aos oito anos de idade fizemos uma viagem minha mãe e eu à Paris, possivelmente ela tivesse brigado mais uma vez com minhas tias, ficamos lá três meses de outubro a dezembro e, era a primeira vez que ia à França, conheci la uma amiguinha em Versailles se chamava Dominique e era meu primeiro amor com oito anos de idade, aprendi durante nossa permanência também nessa ocasião a andar de patins, e andava razoavelmente bem, quase que perdi meu ano escolar dessa vez, mas minha mãe conversou com o diretor da escola e não tive maiores problemas.

Mais tarde, aos dez anos continuava estudando no colégio dos “Padres Escolapios” e um dia a professora quase no fim do período da tarde (ia ao colégio a manhã e a tarde) foi chamada pelo diretor e saiu da classe, na volta me disse na frente de todos; Javier, sua mãe chamou pelo telefone e esta pedindo para você ir rapidamente para sua casa pois sua irmã acabou de chegar da Inglaterra, saí correndo sem me entreter no caminho para chegar logo em casa, minha irmã Odette estava lá, com o marido inglês e a primeira filha, Ana Maria que em inglês a chamavam “Annette”. Era minha irmã, que saudades !!! aquela que sempre cuidava de mim poucos anos antes, fiquei muito feliz pois ela era como minha segunda mãe.

Outra das alternativas pela qual minha mãe optou para tentar sustentar a família foi a de abrir um pequeno hotel na orla marítima de Sitges, o nome era “Residência Odette” justamente com o objetivo de chamar a atenção dos turistas de língua francesa, pois na língua hispânica não era usado este nome. Funcionava somente durante o verão, para mim era formidável pois me dava a impressão de morar num hotel, com a praia a poucos metros o que mais fazia era curtir e me divertir. Ficou aberto por duas temporadas somente, pois acho que o contrato de aluguel não foi renovado porque os donos do “Hotel Terramar” perceberam que muitos de seus clientes deixavam as acomodações do “Palace” para vir à “Residência Odette” de ambiente familiar e com poucos hospedes.

Num daqueles verões tive a experiência do meu primeiro trabalho durante as férias, como que não consegui passar duas matérias na escola trabalhei como entregador de telegramas nos telégrafos, para mim era uma punição muito divertida pois ganhava gorjeta a cada entrega e assim podia comprar e comer bastante sorvete de chocolate, café ou creme. Uma das entregas de telegrama era numa mansão de veraneio, toquei varias vezes a campainha e ninguém abria a porta, mas tinha um cão de guarda que não parava de latir e eu o xingava porque sabia que nada podia me fazer porque a porta estava trancada, de repente um funcionário abriu a porta e não deu outra, o feroz pastor alemão avançou e me mordeu na coxa esquerda, logo foi dominado pelo funcionário, eu chorava apavorado e apertava forte à coxa com as duas mãos pensando que se o cachorro tivesse a raiva (doença comum naquela época para os cães não vacinados), assim poderia evitar que a raiva subisse pelo meu corpo e ficasse contagiado, mero pensamento de uma criança de dez anos de idade.

Dos treze aos quatorze anos estudei como interno em outra escola bastante distante de Sitges, era a primeira vez que me separava dos meus pais, minha tia Josefina era quem pagara esse curso que também consegui passar de ano raspando. A primeira vez que ela me levou até o colégio fomos de trem, lembro que quando ela voltou e eu fiquei lá me deu a impressão de estar numa penitenciaria, tranquei-me no banheiro e chorei soluçando.

Esses anos de minha infância me marcaram muito e, percebi frente aquela situação que caberia a mim (pois não havia nenhuma alternativa) sustentar meus pais como arrimo. Aquilo que estava acontecendo não era justo, não me conformava que meus irmãos progredissem e construíssem suas vidas e que eu por ser o ultimo (caçula) tivesse que ficar de mãos atadas carregando esta responsabilidade para toda minha vida. Achei que Deus tinha me obrigado (na forma religiosa concebia Deus como castigador, pois eu tinha uma formação religiosa e orava o tempo todo para que Ele acertasse a situação) a viver para sempre aquela situação, e inconformado pelo meu destino senti-me punido.



Liberté – Egalité - Fraternité

Apresenta-se uma oportunidade única para vencer.

Basta ter coragem e vontade de chegar ao topo.


Diante o impasse para resolver a situação e as dificuldades pelas quais minha mãe passava, ela resolveu que o melhor seria mudarmos para França, pois lá já estavam meus irmãos Santiago e Daniel, alem de meus tios (Nonô, marido e dois filhos). Meu pai deficiente e doente por causa do derrame, ficava ali sentado e contrariado pois ele adorava sua cidade “Sitges”.

No segundo semestre de 1.961 mudamos para a França no subúrbio leste de Paris, exatamente na cidade de Gournay sur Marne, era lá que moravam minha tia Nonô e família, afinal minha mãe se sentiria menos sozinha perto de sua irmã caçula, naquelas alturas minha irmã Odette estava sozinha com três filhas e veio conosco. Meus tios já tinham mas o menos arrumado algo para alugarmos, era uma edícula térrea no fundo de um grande terreno, somente havia dois quartos e no meio a cozinha, o banheiro (privada) estava fora, para se lavar não era nada cômodo, precisávamos esquentar água e dar um jeito para lavar o corpo em pé numa bacia na cozinha, ou seja nenhum conforto, e um frio desgraçado porque somente havia o fogão a lenha na cozinha e deixávamos as portas dos quartos abertas para que esses quartos não estivessem muito frios. Ali morávamos meus pais meu irmão Daniel, minha irmã Odette com as três filhas pequenas e eu, para dormir era um quarto para os homens e outro para as mulheres.

Tinha estudado na Espanha ate os treze anos, não sei se o meu histórico escolar era ou não reconhecido lá na França, mas o que sim sei é que ninguém (nem meus tios nem meus irmãos) acharam que eu poderia continuar a estudar na França, e pelo visto tinha chegado minha hora de “pegar no batente” quero dizer de começar a ganhar algum ordenado para contribuir com as despesas de casa.

Após os traumas da infância vividos em Sitges, onde me senti um “afligido” sem direito a um pai e um modo de vida “normal” como tinham todos meus amigos, me encontrava de repente num outro país aonde ninguém me conhecia nem sabia das minhas aflições e problemas, lá seria mais um cidadão como os outros e com as mesmas chances, viva a “Liberté, Egalité, Fraternité”.

Não tive nenhum problema quanto à língua, pois já de criança minha mãe sempre conversou em casa em francês, as vezes brincando outras não, também na escola tinha o francês como matéria e sempre tivera muito boas notas sem fazer o mínimo esforço. Agora, seria necessário aguardar o meu aniversário em dezembro para completar quatorze anos, pois pela lei francesa era a idade mínima para trabalhar. Tinha tentado conseguir um emprego antes mas sem sucesso por causa da idade, numa concessionária Peugeot no almoxarifado e numa fabrica de doces, confesso que em ambas as tentativas durante a entrevista estava muito nervoso e frustrado por ser candidato a um cargo do tipo “operário”.

Em fevereiro de 1.962 tinha rabiscado no jornal “France soir” alguns anúncios, um deles era para trabalhar como office boy num escritório, a S.E.T.A.P. era um renomado escritório de urbanização e arquitetura cujos donos eram os três maiores arquitetos de Paris na época, entre os grandes empreendimentos estavam terminando o projeto da cidade de Abidjan na costa de marfim na áfrica. Meu tio (o marido da Nonô) que tinha um cargo executivo na diretoria de uma empresa fez questão de me acompanhar na entrevista de apresentação de modo a dar uma força e me ajudar a obter o cargo, e deu certo, no dia da entrevista foi quase somente ele quem falou, explicando a situação em casa e da importância e necessidade em eu conseguir aquele trabalho. Nos primeiros dias do mês de março de 62 começava neste meu primeiro emprego, ficava próximo ao arco do triunfo (Place de L’Etoile), na zona oeste de Paris, para chegar ao trabalho pegava um ônibus de minha casa até Paris e depois o metrô que me deixava a 50 metros do serviço, minha mãe preparava para mim todo dia a marmita para poder fazer minhas refeições no trabalho, bastava somente comprar meia baguette enquanto deixava a marmita esquentar no banho maria. Minhas atribuições eram de ir onde me mandassem para levar ou trazer documentos, passagens de avião para os arquitetos que viajavam muito, comprar cigarros para quem precisasse, ou simplesmente comprar um doce para alguma secretária. Entrosei-me muito bem com o trabalho, após alguns meses conhecia Paris e as linhas de metrô como a palma de minha mão, o pessoal gostava muito de mim. Foi nessa época que comecei a tomar gosto pelo fumo, aguardava o horário do almoço e durante o tempo que o pessoal saía para ir almoçar fora eu fazia uma blitz no escritório e pegava cigarros daqueles que por ventura tivessem esquecido seu maço de cigarros no escritório. Eram muitos desenhistas trabalhando nas pranchetas e rapidamente me interessei pelo que faziam, pois é claro que eu não iria passar toda minha vida comprando cigarros e doces para os outros . . . . tinha pressa.

Soube que na escola de “Arts et Métiers” havia cursos de desenhista, fiz a inscrição e comecei, somente fui duas ou três semanas, eram cursos noturnos gratuitos mas para mim se tornou inviável continuar por causa dos horários porque morava no subúrbio. Mesmo assim, no trabalho, durante o horário do almoço aproveitava para treinar em alguma prancheta vazia, inicialmente calcava (copiava), ou seja, fixava um desenho original na prancheta e por cima punha um papel vegetal, daí calcava por cima reproduzindo o desenho. Em poucos meses eu achava que já sabia desenhar, e tinha outros colegas mais antigos que também desejavam uma promoção para desenhista, como que não tinha paciência para ficar esperando na fila, achei que deveria procurar uma oportunidade em outra empresa me candidatando de cara como desenhista.

No mesmo bairro, perto do meu primeiro emprego surgiu uma vaga para desenhista numa das maiores empresas de instalações hidráulicas, desta vez fui na entrevista sozinho e marcamos num sábado de manhã para fazer o teste de admissão, desta maneira se não passasse pelo teste não perderia o emprego onde trabalhava. Passei muito bem no teste, não sei se era pela qualidade do teste ou se o empregador percebia que estava com muita garra para subir na vida, resultado, fui admitido imediatamente. Nesse novo emprego eu era o único desenhista e como havia bastante trabalho aprendi rapidamente a desenhar. Com o passar do tempo estava curioso em saber como se faziam os cálculos das tubulações que eu desenhava, seguindo o mesmo procedimento do meu primeiro emprego durante o horário do almoço lia os livros técnicos e sempre havia por perto um engenheiro que me explicava com detalhes o “como fazer os cálculos”. Eu brincava com todos os funcionários, eu era o mais novo da empresa e tudo indica que eles gostavam muito de mim, ninguém sabia sobre meus assuntos pessoais e meu passado, mas meu dinamismo e persistência no trabalho agradavam a todos. Um dia havia uma greve do metrô mas os ônibus funcionavam normalmente, não tive problema para ir de minha casa até Paris de ônibus, mas depois percebi que o metrô não funcionava mesmo, fui andando e atravessei Paris da zona leste até a zona oeste onde trabalhava, demorei umas duas horas a pé mas cheguei ao trabalho, os diretores não acreditavam mesmo e, minha reputação neste dia foi la em cima, foi bom para mim. O almoço de confraternização de fim de ano, foi feito num dos melhores restaurantes do XVI distrito de Paris perto do trabalho, era no famoso restaurante “Le Berlioz”, como caçula da empresa virei atração todos brincaram comigo, um garçom passou com uma bandeja de prata oferecendo cigarros a charutos avulso, enfiei as mãos e ia botando no meu bolso incentivado a fazê-lo pelos colegas mais antigos, acho que estoquei cigarros para mas de um mês. Neste almoço se a memória não me falha tomei o meu primeiro porre de minha vida, pois por se tratar de um banquete com cada um dos pratos era servido o vinho adequado e, haja mistura até chegar ao licor, voltei como pode até casa mas lembro que estava completamente tonto e minha mãe percebeu.

Um dia, saindo do serviço no fim do expediente ia pegar o metrô para voltar para casa, havia um camelô vendendo seus truques de magia, era o “Renelys”, fazia demonstrações com muita habilidade, me chamou muito a atenção e me interessei no assunto, alem do mais no trabalho havia um colega que era prestidigitador daí fiquei realmente contagiado, comecei a sonhar que poderia estar um dia fazendo um show onde sozinho iria intrigar os espectadores curiosos para conhecer meus truques, e desta vez eu dominaria a situação, não iria mais ser aquele “mais um” e me destacaria entre multidões, poderia ser alguém famoso. Além dos meus empregos comecei a engrenar nesta direção da prestidigitação, comprei bastante material, livros e pratiquei bastante na manipulação de cartas, lenços e muitas coisas mais, também me inscrevi em associações, levava o assunto muito a serio.

Fiquei neste emprego um ano e meio, meu irmão Daniel tinha resolvido retornar a Sitges por causa da Maribel sua ex-namorada que nunca tinha conseguido tirar da cabeça, por este motivo minha mãe resolveu que poderíamos voltar a Espanha. Lá vamos nós mais uma vez, ficamos de favor em casa de minha tia Josefina durante algumas poucas semanas até que houve novamente desentendimento entre minha mãe e a Josefina. Durante esta curta estadia continuava treinando as minhas mágicas, havia em Sitges um teatro desativado, tomei a iniciativa de conversar com a diretoria da associação para pedir autorização para fazer um show um domingo a tarde, a resposta foi afirmativa, fiz contato com um amigo que tocava o piano e planejamos o roteiro das musicas que ele tocaria durante minha apresentação. A associação de sua parte colocou um cartaz na praça principal de Sitges anunciando o evento para o domingo a tarde, eles colocaram o nome artístico que eu lhes dera, o grande “Xavier Magicus” que tinha feito muito sucesso em Paris (era tudo mentira). No dia do show o teatro estava quase lotado pois haveria uma trezentas pessoas, era gratuito e podia assistir quem quisesse, o espetáculo foi um sucesso e agradou a todos, nos dias após o evento era cumprimentado por todos na cidade, era o que eu mais queria, em outras palavras reverter a situação da infância quando totalmente impotente pela desgraça do derrame do meu pai. Meu orgulho falava mais alto querendo mostrar que eu era alguém importante e viajado, nessas alturas eu tinha somente dezessete anos de idade.

Logo fomos morar ainda de favor num casarão vazio de uma grande amiga de mamãe, seria provisório porque logo iríamos morar em Barcelona porque era lá que estava morando o Daniel numa pensão familiar. Ainda estávamos morando no casarão em Sitges quando arrumei um emprego como técnico projetista em instalações hidráulicas e de calefação para trabalhar em Barcelona que ficava a uns 35 km de distancia, ia todo dia de trem e voltava, eram uns 45 minutos de viagem. Consegui negociar com o dono da empresa para que me pagasse o transporte que pesava bastante no meu salário, ele concordou, e mesmo assim disse a minha mãe que era eu quem tinha que pagar, como era um passe anual para circular no trajeto durante um ano, ela me adiantou o dinheiro para comprar o passe, depois a empresa acertou também comigo esta despesa o que significa que lucrei com o dinheiro equivalente a um ano de transporte por trem de Sitges a Barcelona, guardei este dinheiro nos meus acessórios de mágica para que ninguém pudesse achá-lo, e conforme ia precisando ia tirando dinheiro do meu esconderijo. Minha irmã com suas filhas pequenas continuavam morando conosco, ela arrumou um emprego como telefonista de um hotel recém construído, era o Hotel Calípolis, já na condição de mãe solteira porque tinha se desquitado do marido inglês pai das três primeiras filhas, nesse emprego ganhou mais uma gravidez com um rapaz casado (mas que dizia ser solteiro) que trabalhava no almoxarifado do hotel, a quarta filha Silvia nasceu posteriormente em Barcelona, sem recursos, minha irmã pleiteou em deixá-la com umas freiras e abandona-la, mas o amor de mãe foi mais forte e a pegou de volta.

Quando mudamos para Barcelona meu irmão Daniel não morava mais la, simplesmente brigou com a namorada e tinha voltado à França, fomos morar num bairro bem central, meus pais, irmã e filhas, a uma quadra da Universidade, como o apartamento era muito grande minha mãe alugava um quarto em permanência para estudantes da universidade, assim conseguia mais um recurso para as despesas da casa, eu continuava a trabalhar no mesmo emprego mas não precisava mais pegar o trem, ia ao trabalho a pe e demorava uns quinze minutos, uma das vantagens era que não precisava mais comer sanduíche no almoço podia ir almoçar em casa. Conheci neste emprego o que iria ser meu grande amigo da juventude o “Fede” diminutivo de Federico, foi uma amizade que marcou muito nessa idade e acho que deva ser para qualquer um, pois se passa por experiências inesquecíveis como o primeiro carro, a primeira garota, e o grande desejo de mostrar permanentemente aos outros que a gente existe. Com o Fede íamos de férias, passávamos fins de semanas em Sitges onde havia muitas garotas no verão e sempre cada um com seu carro porque não sabíamos se ficaríamos com alguém, quase todo fim de semana no verão estávamos lá, bebíamos muito desde cedo na praia, porque gostávamos e porque queríamos chamar a atenção das pessoas, tivemos mulheres muito bonitas e de todas as nacionalidades tanto em Sitges como em qualquer canto na Espanha, pois os dois tínhamos boa aparência. Uma certa vez fomos a Sevilla no sul do país, la ficamos durante as famosas “Férias de Sevilla”, uma festa em forma de feira onde se bebe e dança “flamenco” todas as noites até o amanhecer, conhecemos duas garotas e foi paixão a primeira vista, nos divertimos bastante durante nossa estadia, mas tudo terminou quando fomos embora. No ano seguinte fomos viajar de férias na “Costa del Sol” exatamente em Torremolinos praia que estava na moda, fizemos amizade na praia com duas moças francesas com as quais curtimos até elas voltarem à Paris, no desespero e saudade das “sevillanas” uma noite, num porre pegamos o carro e fomos até Sevilla, no dia seguinte de ressaca demos uma volta com elas e retornamos mas sossegados a Torremolinos. Com as duas francesas também havia sido a grande paixão, a que saía comigo se chamava Annie, tanto é que na volta a Barcelona eu comecei a forjar planos para irmos passar uns tempos na França, convenci ao Fede e ele também embarcou nesse projeto louco, os seus pais não queriam me ver nem de longe pois estavam achando que de uma, ou eu era veado ou louco por tirar seu filho da linha.

Em Barcelona, saiamos diariamente após o expediente seja em discotecas ou em barzinhos para beber uns vinhos e comer algumas “tapas” (petiscos), sempre íamos acompanhados de moças que conhecíamos aos domingos numa boite e que marcávamos encontro durante a semana para dar continuidade ao flirt. Aos domingos sempre estávamos enfiados em boites, muito bem alinhados com terno da ultima moda, pagávamos entrada com direito a consumação de um drinque, para nós não era o suficiente para passar quatro horas filosofando com belas garotas, daí a razão que levássemos um estojo bem cheio com conhaque que guardávamos no bolso do paletó, assim era mais barato beber que se fossemos pedir mais bebida ao garçom, todo domingo era a mesma coisa ou seja tomávamos um porre para curtir “plenamente” às garotas, uma delas foi a Fuensanta, menina simpática e bonita de rosto mas de baixa estatura, só por este fato eu achava que estava lhe fazendo um favor de flertar com ela, hoje entendo que fui muito sem vergonha pois ela estava apaixonada por mim e não merecia ser tratada como a tratei. Desde a janela da minha sala de trabalho que era no décimo terceiro andar dava para perceber no pátio interno do prédio as janelas dos moradores do mesmo prédio, pois ele era triangular e tinha três alas, somente uma delas era destinada a escritórios, ficava olhando e paquerando tanto as empregadas na área de serviço como as moças de boa família cujos dormitórios também davam para o pátio, um dia conheci e fiz gestos para cumprimentar uma bela loira, com as mãos me deu seu numero de telefone, se tratava de uma moça holandesa que passava umas semanas em casa de amigas, seu nome era Ans, marcamos encontro pelo telefone e saí com ela por vários lugares de Barcelona, se apaixonou por mim mas do que eu por ela, era de uma família riquíssima holandesa, após sua partida mantivemos contato por correspondência.

Totalmente decidido a voltar à França comuniquei a noticia aos meus pais e ficaram assustados, pois minha ajuda financeira em casa era indispensável para sua sobrevivência, eu argumentei que precisava construir minha própria vida e que lhes enviaria dinheiro do meu salário. Minha irmã apenas ganhava o suficiente para o sustento dela e das quatro filhas. Fui preparando as malas como para uma viagem definitiva, não deixando nada em Barcelona, o Fede fez o mesmo mas combinamos que eu iria à frente para alugar algo onde a gente pudesse morar, o dono da empresa onde trabalhávamos ficou simplesmente furioso comigo, e eu nem quis saber.

Cheguei de trem na estação de Austerlitz em Paris sem endereço para morar, com muita bagagem, algumas economias, o suficiente para sobreviver até arrumar um emprego, meus irmãos moravam la mas não avisei ninguém sobre minha ida à França (questão de orgulho e independência), as viagens de trem eram sempre noturnas, as saídas era às 16 horas de Barcelona e chegava-se em Paris às 8 horas da manhã. A primeira coisa que fiz descendo do trem foi ir até a lanchonete para tomar o café da manhã, baguette fresca com manteiga e café com leite, tinha outro sabor, era uma delicia, liguei da cabine de telefone a Annie explicando que tinha acabado de chegar em Paris. Carregado com bagagem feito uma mula fui até a casa de um tio em Enghien para ver se poderia me hospedar durante os primeiros dias, almocei com ele e sua mulher mas inventaram que não tinham lugar para eu dormir la, entendi o recado e fui embora decepcionado. Peguei novamente o trem de subúrbio e o metrô e fui até o endereço de trabalho da Annie, aguardei na porta do escritório até que ela descesse, foi um agradável reencontro tête à tête matando saudades desde nosso ultimo encontro em Torremolinos, fomos até um hotel do bairro reservar um quarto para poder passar a primeira noite.

Em menos de uma semana tinha arrumado um quarto num hotel que alugava por mês sempre mais em conta que as diárias, ali dava para hospedarmos eu e o Fede. Durante os primeiros dias fiquei lendo os jornais para arrumar um emprego, costumava almoçar com a Annie e ia buscá-la no fim do expediente para passarmos alguns momentos juntos antes dela voltar pra casa no subúrbio sul de Paris.

Liguei para o Fede e disse a ele que já tínhamos onde nos hospedar, dei lhe o endereço do hotel e sinal verde para vir à Paris. Uns dias depois eu estava dormindo no hotel com a Annie e de manhã bateram na porta do quarto, surpresa era o Fede que tinha chegado, sem falar francês se virou para chegar até la. Foram uns dias muito divertidos vivendo as aventuras e sonhos de dois rapazes jovens com sede de viver novas emoções, ele dependia muito de mim, eu insistia em que aprendesse logo a falar francês senão ia se dar mal, um dia fiquei de saco cheio, íamos pegar o metrô e precisava comprar um passe semanal para viajar tranqüilo durante uma semana com o mesmo bilhete, la na França chamava-se de “carte de metrô” obriguei ele a se virar sozinho para comprar o passe e ele pediu no guichê “une lettre” a moça não entendia nada pois ali não era o correio, precisei intervir e ajuda-lo a comprar o passe. Ele saía com a amiga da Annie, saiamos os quatro, tentou vários empregos mas nada conseguiu, estava com muitas saudades de sua casa por ser a primeira vez que saía da casa dos pais, não demorou muito em querer voltar à Barcelona, alem do mais a grana ia acabando e não ganhava nada, acho que ele ficou no máximo um mês em Paris e voltou à Barcelona.

Arrumei logo um emprego e comecei a trabalhar, de noite dormia no meu quarto no hotel, às vezes aproveitava o horário de almoço e ia almoçar com a Annie pois não trabalhávamos muito longe um do outro, todo fim de mês quando recebia meu pagamento ia ao correio e enviava dinheiro aos meus pais em Barcelona.

Um dia estava no serviço e o carteiro trazia uma carta certificada aos meus cuidados, não entendia nem imaginava quem podia estar enviando, assinei o documento de recebimento e abri, era uma carta e uma passagem de ida e volta que à Ans (Holandesa que conheci em Barcelona) estava enviando para que eu fosse visitá-la na Holanda, não sei como chegou a me localizar mas acredito que tenha enviado ao meu antigo endereço em Barcelona e que de lá tenha seguido até o meu serviço em Paris. Pedi licença por alguns dias no meu serviço e la vou eu para Holanda de trem, mais uma aventura pela frente, a Ans de família riquíssima me apresentou à família e amigos como filho de um Conde de Barcelona, não sei porque ela tinha inventado essa historia, talvez assim fosse um romântico conto de fadas que ela estaria vivendo. Sua família gostou muito de mim, o tempo passou rapidamente na Holanda, todo dia com festas e sem fazer nada, passaram algumas semanas e retornei à Paris, os pais da Ans deixaram em aberto o convite para que fosse visitá-los quando bem entendesse. Quando voltei ao serviço fui comunicado de minha demissão, acertaram minhas contas e fui embora, aonde?, peguei o trem a noite daquele mesmo dia e voltava à Barcelona.

Meus pais superfelizes por eu estar de volta ao lar, o Fede já tinha arrumado outro trabalho e desta vez estava mais calmo e sossegado. Andei trabalhando por períodos curtos em vários lugares e varias profissões, como entregador de produtos para salões de cabeleireiro, numa fabrica de cimento como desenhista, etc. um estudante argentino que alugava o quarto para dormir em nosso apartamento me fez logo propostas para montarmos algum negócio juntos, sei que fomos os dois trabalhar numa firma que vendia lotes de terreno no litoral sul de Barcelona, nós dois cuidávamos da parte comercial e do quadro de vendas, trabalhamos durante alguns meses até descobrir que o suposto dono não era proprietário dos terrenos, simplesmente ele comprava do dono quando fechava a venda de um lote, não demorou e fomos embora.

Devido ao fato de ser filho de pai espanhol e mãe francesa tinha dupla nacionalidade até os 21 anos, idade esta que deveria optar por uma ou outra nacionalidade, como que me sentia alguém bem sucedido e importante na época que vendíamos terrenos, resolvi ficar com a nacionalidade espanhola e repudiar a francesa, foi o que fiz indo até o consulado francês, com um detalhe, não devolvi meus documentos franceses e prometi leva-los posteriormente, mas não os levei. Passou-se pouco tempo para que já me arrependesse de ter repudiado a nacionalidade francesa, pois quando terminou a fase eufórica dos terrenos fiquei sem nenhum emprego em vista, as saudades da França voltaram logo mas não podia mais voltar porque estava em idade de prestar meu serviço ao exército espanhol. Não tinha a mínima chance de voltar à França legalmente a menos que passasse a fronteira com os documentos franceses que nunca devolvi mas que não tinha o direito de usá-los por ter repudiado e assinado um documento, não pensei duas vezes em tomar o risco, afinal na fronteira os “gendarmes” nunca saberiam que não tinha o direito de usar o passaporte de todas formas ainda estava com data válida e era um documento original. O trem que me levaria à Paris novamente parava na fronteira em Cerbère a primeira estação em território francês, antes devia passar pela policia espanhola carimbando o passaporte e em seguida os gendarmes franceses o carimbavam novamente para a entrada na França, precisei interpretar o papel de legitimo francês perante a policia espanhola, quando me pediram o passaporte eu fiz questão de falar o francês de modo a não levantar nenhuma suspeita e com os gendarmes simplesmente falei seu idioma o que resultou numa entrada na França clandestina mas bem sucedida, uma vez dentro do trem francês quando partiu de Cerbère respirei fundo e aliviado, agora somente restava resolver mais pra frente o problema em Paris para regularizar minha situação.

Já tinha combinado com o Santiago, e ele se ofereceu para que me hospedasse em sua casa, como não gostava de favores por causa de meu orgulho, disse a ele que seria provisoriamente até regularizar minha situação, tanto para arrumar documentos como para conseguir trabalho. Sabendo que estava na França em situação ilegal, fiquei preocupado porque sabia que os franceses não brincam com as leis e que possivelmente poderia ser posto para fora e levado até a fronteira espanhola e entregue as autoridades. Uns dias após minha chegada fui até a Policia em Paris, expus meu caso e mandaram aguardar, veio o policial e pegou todos os meus dados para que pudesse ser localizado a qualquer momento, ele bateu um documento provisório explicando que já tinha me apresentado as autoridades Francesas e me diz para voltar na semana seguinte com dia e hora marcados para que me comunicassem a decisão, e saber se poderia ou não ficar na França. Voltei à policia na semana seguinte, bastante nervoso e preocupado tinha até me despedido do meu irmão Santiago e família, estava convencido que não voltaria e que seria deportado à Espanha, o policial mandou-me esperar e disse que iria ser recebido pelo seu chefe, pouco eu podia imaginar o que me estava esperando.

Fui convidado a entrar na sala do chefe da policia:

  • O que você está fazendo na França se você repudiou à nacionalidade francesa?

  • É que logo eu me arrependi, respondi.

  • Vou confiscar seu passaporte e sua carteira de identidade, você está infringindo a lei, não tem mais o direito de usar esses documentos, você não é mais francês. Vejamos, você já trabalhou alguns anos aqui quando era mais moço?

  • Sim, é verdade

  • Você é espanhol, nascido em ....... Sitges. Que coincidência, justamente na próxima semana minha mulher e minha filha estão indo à Sitges passar uns dias de férias, você conhece bem a cidade?, parece que é muito bonita, não é mesmo?

  • Claro que conheço, sou de lá e conheço todo o mundo (nesse momento acreditei que eu poderia interferir e ajudar em alguma coisa).

  • Elas fizeram reserva no Hotel Sofia, você conhece esse hotel?

  • Obvio, pois a Natália dona do hotel aprendeu a falar o francês com minha mãe que dava aulas de francês para ela, se o senhor quiser posso ligar para proprietária do hotel e tenha certeza que serão muito bem atendidas.


Não deu outra, nossa conversa foi muito simpática e amistosa, ele mandou bater uma certidão provisória para morar na França, válida para três meses. Quando voltei para renovar a validade do documento três meses depois não tive o menor problema, fiz questão de perguntar ao chefe de policia sobre as férias de sua esposa e filha e ele me agradeceu muito por tudo, daí em diante iniciei o processo de abertura para residente estrangeiro e tudo continuou normalmente, em fim poderia morar na França mesmo com o estatuto de estrangeiro, melhor assim que morar na Espanha que naquela época estava sob o regime da ditadura Franquista. Assim que minhas papeladas na França estiveram em andamento fui me apresentar ao Consulado Espanhol em Paris, ali as noticias eram menos boas, procuraram saber como estava minha situação militar e fui considerado desertor pelo exército. Foi lavrado um pedido de indulto, eu me apresentava periodicamente ao Consulado duas vezes por ano, após dois anos foi concedido o indulto e dispensado de me apresentar às forças armadas, isto é, podia novamente voltar a Espanha sem perigo de ir para cadeia.

Desta vez firmei pé na França, trabalhava na firma do Santiago e morava na casa dele em Gournay sur Marne, o escritório ficava no pavimento térreo e morávamos no primeiro andar, meu outro irmão Daniel que ainda era solteiro também morava lá. Sempre achei que não iria dar certo de trabalhar com irmãos, mas no momento não tinha outra escolha. Nunca esquecerei que minha cunhada Rolande esposa do Santiago era cozinheira de mão cheia, ela trabalhava fora, num escritório em Montrouge no subúrbio sul de Paris como secretaria e também secretariava a firma do Santiago por ser pequena. Eu, o ultimo a chegar na França contava piadas da Espanha o tempo todo, misturava o idioma francês com o catalão e eles não paravam de dar risadas, lembrávamos, longe de Sitges dos acontecimentos da nossa infância. O Santiago quando era época ia caçar aos domingos com seu dois cachorros; um epagneul Breton que chamávamos de Cartouche, e uma cocker preta e branco que se chamava Katy, sempre voltava com perdizes, faisões, patos selvagens, coelhos e lebres, durante a semana minha cunhada cozinhava e comíamos no jantar sempre com excelentes vinhos franceses. Durante a semana almoçávamos o Santiago, Daniel e eu sozinhos, mas a noite jantávamos todos juntos com a cunhada e os três sobrinhos.

Santiago era daqueles que gostava muito de bebida, não sei se ele é ou não alcoólico, mas com freqüência bebia alem do normal. Quando chegavam os tonéis com os vinhos que ele tinha encomendado era eu quem ia à adega para encher as garrafas, era divertido para mim porque bebia a vontade sem que ninguém percebesse o quanto tinha bebido, afinal eu dizia que somente tinha experimentado um pouco.

Fiquei somente três meses registrado na firma do Santiago, ele compreendeu que eu queria voar com minhas próprias asas, arrumei um emprego em Paris num escritório de engenharia para projetos de instalações hidráulicas e de calefação. Pegava o trem todo dia e meu serviço ficava próximo à estação Gare de L’Est, descendo do trem ia a pé até o serviço, durante uns meses peguei o habito enquanto aguardava o trem cedo de manhã, de tomar um cafezinho e uma aguardente no balcão da estação de trem, minha justificativa era porque estava frio e também porque tinha que ser macho.

Naquelas alturas, o Santiago chegou a ganhar algum bom dinheiro com sua firma, para investir decidiu comprar um terreno numa cidade vizinha para construir uma casa para meus pais, juntou o útil ao agradável aplicar seu dinheiro e ajudar aos meus pais, minha cunhada estava de acordo porque sempre foi gananciosa mas no que diz respeito aos meus pais, neste ponto ela nunca se deu muito bem com a minha mãe.

Como eu tinha voltado à França, as coisas em Barcelona não ficaram muito bem, pois com o pouco que eu enviava aos meus pais e o pequeno ordenado de minha irmã não era o suficiente para sobreviverem, tinha chamado a atenção varias vezes de Santiago e de Daniel sobre este assunto mas faziam-se de surdos ignorando a questão.

Quando o Santiago iniciou a construção da casa, empolgado disse aos meus pais para mudarem à França junto com a minha irmã e filhas e que uma vez lá na França daria um jeito, na casa somente tinha o porão pronto, faltava o pavimento térreo e o telhado. Meus pais avisaram que iriam chegar a Paris numa data determinada, meus irmãos muito irresponsáveis nem sequer foram até a estação do trem para buscá-los, eu tinha chegado cedo na Gare d’Austerlitz. Provisoriamente se hospedaram na casa de meus tios no porão, e as refeições eram feitas na lavanderia, diante da euforia do Santiago agora meus pais teriam que aturar o descontentamento de meu tio que por natureza era neurótico e “bocudo”. Uns dias depois eu fui la para morar com eles no porão, dormíamos os três no mesmo quarto, sabendo que a gente não podia ficar la por muito tempo e sem saber quando meu irmão iria terminar a obra para ir morarmos la. Durante este período minha irmã Odette aguardava em Barcelona para vir se juntar a nós com suas filhas.

Eu continuava firme no emprego, fiz novas amizades e a firma estava satisfeita com meu desempenho, logo comprei um carro praticamente novo com 6.000 km rodados, era um Fiat 124, me sentia a pessoa mais feliz da terra, comprado com minhas economias fruto do meu trabalho. O primeiro carro que tive em Barcelona era um Renault modelo “Dauphine”, minha mãe tinha sido meu avalista mas com meu trabalho ia pagando as prestações, desta vez já estava comprando o Fiat a vista, estava progredindo.


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