Bicho Solto
Hosmany Ramos
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Outros livros de Hosmany Ramos
Sequestro sangrento
Pavilhão 9
Delitos obsessivos
Olho mágico
Ladrões de banco
Agradecimentos
Agradeço ao meu primeiro editor Itagyba de Oliveira, que publicou meus dois primeiros livros: “Síndrome da Violência” e “Queima de Arquivo”. Agradeço também ao pessoal da extinta editora Clube do livro, que premiou e editou “Marginália” - que acabou encantando aos franceses.
Muito obrigado a Luiz Fernando Emediato, meu editor, que é também um amigo e revisor, e a Rose Diniz, Ana Paula Anselmo e o resto da família na Geração; e ao Patrick Raynal, meu editor na Gallimard.
Um agradecimento especial ao meu tradutor Michel Goldman, e ao Maurice Dantec que prefaciou meu livro na França; e, é claro, ao Milton Severiano, Paulo Condini e Marçal Aquino, pelo preparo do texto de “Pavilhão 9”, “Seqüestro Sangrento” e “Mulheres Perigosas”.
Pela colaboração, merecem todos, meus sinceros agradecimentos.
Hosmany Ramos
“Não se aprende, Senhor, na fantasia, sonhando,
imaginando ou estudando, senão vendo, tratando e lutando.”
Camões, Luiz. “Os Lusíadas”.
“Quem tem a chama de um ideal poderoso tem o dever absoluto
de levantá-lo acima das cabeças de seus companheiros.”
Romain Rolland
As pessoas e instituições mencionadas neste livro são imaginárias e nada têm a ver com verdadeiras pessoas ou instituições.
O Autor
Apresentação
Aí está “Bicho Solto”. Não sei se ele é uma forma significativa de arte. Não sei o que seja arte significativa. Imagino que haja arte apenas, e pouca e sem preço. Um bom livro, é raro... Por isso, para escrevê-lo, desenvolvi a obsessão e o hábito de acumular anotações pormenorizadas; pesquisar temas à exaustão e investigar os impulsos inconscientes do comportamento delituoso, sendo meticuloso e observador; usando o sexo e a violência com sérios propósitos artísticos e não apenas para causar impacto.
Retratei aqui, a aventura dessa gente antisocial, marginalizada; utilizando o linguajar deles: jeitos, gírias e sintaxe malandra, mostrando a vida desconhecida das favelas e prisões - locais onde mais se canta e onde mais existe espírito comunitário. Abordei fundo a complexidade dos problemas das drogas e do tráfico, a violência urbana e a corrupção; aspectos da vida brasileira eternamente deixados de lado, adiados no aguardo do escritor-marginal, que mergulhasse fundo e enfrentasse a temática com coragem, descarnando-se num conflito mortal, até ver quem sobra e o que sobra de cada lado. Enfim, uma literatura de soco e porrada, digna dos escritores que tiveram compromisso com a coisa genuinamente brasileira. Homens que brigaram e se consumiram por um ideal; e que não usaram a arte literária, como uma máscara de vaidade ou mecanismo esperto para ganhar prêmios, engordar currículos e conquistar cadeiras na academia.
Tudo que tenho feito na minha vida, tem sido precário. Mesmo quando termino um texto elogiável, não fico satisfeito; fica sempre um gosto de frustração. Detesto correr atrás do sucesso, e não sou competitivo. E, na esfera emocional, fui e sou um frustrado: amorosa e familiarmente, tudo foi um nada. A verdade é que não dei muita sorte na vida... E é este sentimento de culpa, que transparece nas entrelinhas - ótimo para espíritos intensos de vulcânica agitação e sublime vibração. Nesses quase 20 anos de prática literária diária, houve longos espaços de paixão maluca e também períodos de esmorecimentos inexplicáveis. Alternâncias de períodos de máxima produtividade, com fases onde a produção beirava a zero. Mas fui aprimorando. Reescrevendo e escovando cada frase, buscando o máximo de perfeição e levando tudo numa boa; pois afinal, este fascinante ofício possibilitou que eu construísse minhas pirâmides literárias, chegando mesmo a ser traduzido.
Há quem sustente ser a crônica moderna um produto tipicamente brasileiro, cabendo ao mestre Machado de Assis a definição dos seus princípios, hoje consagrados. Na estória curta, o autor pode levar a termo seu propósito, plenamente e sem interrupção. Durante o período da leitura, “a alma do leitor está sob o seu controle”. Hoje, temos necessidade de literatura curta, impactante e concisa; ao invés da extensa, prolixa, detalhada, inacessível... É um sinal dos tempos da era da informática, quando o homem é forçado a escolher o curto, o condensado, o resumido, em lugar do volumoso - objetividade em substituição aos devaneios, como queria. Puchkin, para quem a tensão e a concisão, eram as principais qualidades da prosa.
Vivemos num mundo fora dos eixos, onde muitas vezes, a lei é manipulada tendo em vista o lucro e o poder. Um mundo repleto de injustiças e guerras onde a civilização inventou uma variedade de armas letais, servindo-se delas, com o mesmo prazer imbecil de um gangster que experimenta sua primeira metralhadora. Um mundo, onde o assassínio, que apesar de ser uma frustração do indivíduo e um ato de crueldade infinita com sérias implicações sociológicas, é uma coisa tão banal hoje em dia, que deixou de ser notícia de primeira página dos jornais. Daí, o autor encontrar enormes dificuldades para abordar os assuntos de crimes, amarrar o enredo, conseguir boas cenas e responder suas próprias perguntas; já que toda forma de arte, exige um pouco de redenção de forma a transformar o mundo, tornando-o um lugar mais seguro para se viver, sem todavia ser sufocante demais para não valer a pena nele estar.
Confesso que sofri influências de bons escritores que me marcaram: Graciliano, Euclydes, Jorge Amado e outros... Com Dalton Trevisan, absorvi a dicção proletária, o cenário da ‘boca-do-lixo’ e um certo gosto pelos anti-sociais. Do Celine, aprendi a linguagem enervada que postula ser emoção, quando é puro trabalho de estilo. Com Flaubert, aprendi abandonar todo clichê e todas as ‘idéias-feitas’, antes de contar a minha estória. Com Dostoievsky, aprendi a não levar as coisas muito a sério, desenvolvendo um faro apurado para as pequenas taras e a consciência da falta de sentido da vida. Entretanto, sei que jamais serei capaz de conceber um romance social tão acerado quanto Madame Bovary ou uma tela tão variada quanto crime e castigo; mas convenhamos que Raskolmikov seria aprendiz, comparado com os criminosos dos nossos dias.
Não tenho nenhum desejo de atingir com minha escrita o nível mais alto de realização literária. Francamente, não sei o que seja isso. Sei entretanto, que o que é escrito com talento, exprime esse talento; e que um escritor que tenha demonstrado anteriormente, ser capaz de conceber autêntica ficção, não produz ficção inautêntica. Por isso, procuro sempre que posso, fazer uma desconstrução revolucionária, não só da linguagem, quanto do material de ficção, buscando eliminar a crosta de maneirismos característicos dos textos importados, mostrando o nosso “quintal”, baseando-me em fatos e inventando a partir de acontecimentos vividos. É óbvio, que algum crítico possa considerar que meu texto não passe de uma crônica exagerada das mazelas prisionais e da violência das ruas. Mas, para mim isso não tem a mínima importância, já que, o que importa, é que esteja bem escrito e seja capaz de satisfazer ao leitor.
Meu sonho de consumo, hoje, é a literatura. “No princípio era literatura, e a literatura já era deus...” O ser humano, caracteriza-se, na verdade por uma grande estupidez. Ele só descobre que algo é fundamental, após um grande sofrimento. Lidar com a palavras, foi para mim uma maneira eficaz de preencher o tédio e escapar da loucura, da melancolia e do temor-pânico inerente à condição prisional. A prisão é o mundo da cultura do terror... onde os personagens vivem um clima intenso e asfixiante de uma atmosfera depressiva, reveladora dos impulsos secretos da natureza humana. Contudo, através da escrita foi possível redescobrir a sensibilidade e solidariedade humanas, contrapontos indispensáveis à vida solitária e angustiante privada da liberdade.
Acredito, que hoje, mais que nunca, precisamos de uma literatura que exponha e evicere as nossas áreas de vida; sobretudo, mostrando que temos necessidade de escrever sem nos distanciarmos do povo. Temos necessidade de uma literatura que reflita a vida operária, o futebol, as prisões, a violência urbana e tudo que possamos chamar de radiografia brasileira. Por isso, em linguagem pessoalíssima, abordei os dramas das mil vidas do submundo da marginália, que afinal, é a identidade brasileira autêntica. Com minha característica própria de estilo, reagi contra a divagação, a filosofia, o comentário e a descrição supérflua, para conseguir um resultado impactante e objetivamente cru, despojado de retórica, e de efeito surpreendente.
Acredito que este, será meu livro de “saideira”. Por isso, procurei fazer com que ele fosse prazeiroso de ler, deixando de ser uma concatenação fatigante de idéias - já que é fácil abusar do estilo realista. Pode ser, que ele nem seja uma obra genial, já que ninguém sabe o que é “bom” e literatura; mas procurei levar o drama existencial ás últimas conseqüências, e compus com temperatura emocional elevadíssima, o material psicológica dos meus temas. Às vezes, excedendo os limites sem destruir o lado bom, recapturando o espírito, a inocência e a arte da escrita, sem usar maquilagem e jogando limpo, sem qualquer medo de me exceder.
Aqui, optei pela abolição total e extrema da estrutura formal, levando em conta a precisão e a brevidade como as principais metas. Também, adotei uma linguagem coloquial, suportada por uma completa ausência de forma literária no sentido em que ela é entendida. Se as coisas da vida não tem estrutura de composição, por que minha escrita haveria de ter? por que a literatura deveria ignorar o lado marginal da vida, suas desordens e suas maluquices? Escrevo aquilo que vi, vivi, convivi e aprendi da vida, de mim mesmo, deste mundo que sofri e me arranhei; mundo cão e sublime, coerente e contraditório. No texto, falo de minha experiência com os marginalizados, buscando transmitir suas emoções e o que aprendi com eles; minha experiência do outro lado do muro e forma de ver as diferentes justiças. Pincelo com tons fortes, o amor e a morte, o ódio e a alegria, o sexo e as anomalias psicológicas, buscando sempre um tipo de piedade que mesmo parecendo cruel, está quase sempre impregnada de graça e espírito, que proporcionam cenas emocionantes.
Meu convívio com a alta sociedade carioca, possibilitou que eu captasse a vazia atmosfera “sophisticated” das socialites, e descrevesse com um tom irônico, esse mundo de belas toaletes e falsos sentimentos, onde os protagonistas e os incidentes não representam senão um elemento de impressão e emoção, da experiência vivida.
Nós, prisioneiros do texto, somos como Sherazade: vivemos graças ao sortilégio das palavras. Por isso, incluí aqui algumas crônicas - publicadas no “Hoje em dia”, de Belo Horizonte - , que espero toquem o leitor, plenamente e sem interrupção. Pois foi graças ao garimpo dos temas, nos atalhos esquisitos e complexos da luta contra as palavras, que minha inspiração encontrou a intuição natural que possibilitou a concepção deste livro, sem um pingo de revolta ou ódio contra a sociedade e contra o mundo.
O Autor
Indice
Contos
2. O médico e o monstro da mídia
Crônicas
11. Dinheiro, o ‘deus’ do mundo
24. Hospital de Pronto-Socorro
Conto Novela
“Esta história não foi escrita para ser um libelo ou mesmo uma confissão, e menos ainda uma experiência - pois a droga não é uma aventura para aqueles que se viciam.
Procurei aqui relatar o destino de uma parcela da juventude, que como eu, mesmo tendo escapado das balas da polícia e das algemas da justiça, acabaram destruídos pelo vício.”
Capitulo 1
Quando nasci, acho que Deus esticou o dedo, olhou para mim e disse: “- Esse é o cara que eu vou sacanear...” Por isso, nasci sujo de arara, com anu preto pousado no mapa do destino. Nunca cheguei a saber quem foi meu pai e, da mamãe nem cheguei a conhecer. Me contaram que a mulher que me pariu, logo depois do parto sofreu complicações de hemorragia e não agüentou. Pouco antes de esticar, convocou a freira do hospital e autorizou que eu fosse doado a uma família. Acabei indo para um casal de alcoólatras que cuidaram de mim aos trancos e barrancos, desforrando os revertérios das ressacas. E, de tanto apanhar, me tornei um verdadeiro revoltado. Fui alimentando calado o meu ódio, até não agüentar mais e fugir de casa. Fui viver na rua por conta própria, misturado com a molecada da praça, levando a vida como podia. Logo aprendi afanar carteira, chavecar bebum, levar recado de traficante, bancar farol em ponto de venda de droga... Qualquer coisa que desse pró gasto e pra me defender. De vez em quando, dava uma escorregada e os homens me ganhavam e me metiam numa FEBEM. Mas a fuga dali, era moleza. Não ficava recolhido por muito tempo. E foi assim, que fui crescendo e me viciando nas drogas. Passava grande parte do meu tempo, montado numa arma esperando um loque recheado para assaltar. E ali, na tocaia, revia o passado e concluía que o homem lá de cima, havia pegado pesado comigo. A minha caminhada não havia sido mole. Tinha que ganhar respeito e fazer nome na malandragem sem vacilar. Já que escolhera o caminho do crime, o negócio era partir pras cabeças. O sofrimento, não foi meu único traço de caráter para me diferenciar dos meus comparsas. Estranhamente, eu recusava desde cedo a apoiar qualquer forma de violência gratuita, considerando-a desnecessária uma vez que a vítima estivesse dominada. Além disso, eu detestava o álcool; pois havia aprendido que os criminosos que bebiam, cometiam erros primários. Eu era do tipo perfeccionista e não me contentava simplesmente em participar de lanças. Queria me destacar escalando os degraus do submundo pelo escopo de minhas aspirações, alimentando sempre minha ambição irrequieta. Entretanto, por mais que me esforçasse não conseguia tirar o pé do lodo. Eu parecia atolar cada dia mais. Só tinha eu por mim, e isso era muito pouco. Quase nada. E foi assim que acabei com meus costados no morro da Lacraia; nas bocas escamosas onde a barra é pesada e a ordem é a do salve-se quem puder. Porém, fui levando como podia, encarando as sobras e enfrentando a fome e o frio. Claro que me machuquei muitas vezes, e fiquei no prejuízo. Mas, por não ter colo para chorar, segurei as pontas e me tornei bicho. O que conta, é que acabei escolado. Abri os olhos, aprendi os macetes e escolhi meu rumo. Agora, eu posso refletir sobre a diferença entre a vida nos bairros e a vida nos morros. La em baixo, é tudo organizado e sinalizado. Aqui em cima, em cada quebrada tem uma arma prestes a explodir. É cada um na sua. A vida dos outros, não interessa. Tem que ter humildade e tratar a todos, com respeito; sobretudo, agradas às crianças e “pagar” simpatias para as ‘minas’ popozudas.
O morro sempre foi discriminado. Dizem que é o reduto da moçada da pesada que não gosta de encarar um batente. Quando a polícia chega é um deus-nos-acuda. Quem deve, sai no pinote. Aqui é a morada da morte. Um lugar de muitos crimes, traições, cagüetagens e adultérios. Nos finais de tarde, a pelada corre solta no campinho do escondido. É a maior zorra. A catimba comanda o espetáculo, acompanhado pelas ‘minas’ do pedaço. Boleiro bom, ganha sempre a melhor ‘mina’, falando pra ela um montão de coisinhas bonitinhas. As apostas são na base da maconha. Os ganhadores, curtem adoidado...
Fico ali admirando aquele cenário de miséria. É um amontoado de casas improvisadas, cortadas por vielas estreitas e que aparentam uma fileira desordenada de cabinas de banhistas, salpicadas por casas de tijolos coroadas por antenas de tevê, contrastando com rústicos estuques zincados. A paisagem é complementada por igrejas, escolas, armazéns, barbearias; onde o formigueiro humano de todas as raças e idades tranqüilamente exercem o direito de ir e vir. Observo uma mulata vistosa com traseiros grandes e pernas grossas que desfila à vontade. Ela passa por mim, joga um olhar e exibe uma dentadura perfeita, num largo sorriso. Os seios fartos, começam saltar fora do decote apertado e balançam acompanhando o ritmo ofegante da respiração. Então eu falo:
- Onde vai com todo esse charme?
- Vou trampar. Beleza não põe mesa...
Já passava das nove da manhã e a moçada do batente se agitava para o trabalho. Ando até o barraco do Tota onde os demais já se encontram. Estão todos sentados na sala: o lépido Negritinho, o mais atlético de nós, que, foi bronze numa olimpíada até ser flagrado no dopping. Babalu, o músico, que carrega seu violão e sonha aparecer um dia na televisão. Lico, que prática surf nas horas vagas, e fala de mulheres o tempo todo; ele jura que já comeu mais de uma centena delas. Além de mim, que sou conhecido como Bicho Solto. Quase todos temos dezessete anos. Está ali também: Foguinho, um moto-boy boa-pinta que adora roupa de griffe e óculos escuros. Mané gordo, também da nossa idade, motorista de mão cheia e especialista em fazer ligação direta em carros, que mostra uma penca de “chaves-michas”, e ainda leva uma: “- Tá pra existir um carro que não consigo puxar...” Zé Flautinha, um criolo olhudo que não pensa em outra coisa senão num baseado e um gole de pinga; e finalmente, o Tota, o líder da bocada: musculoso, tatuado, ex-presidiário, com um bronzeado bem cuidado, cabelos na moda, e uma inteligência visionária para descolar altas lanças, boas drogas e pinotes sensacionais.
Estávamos ali no aguardo do crack. Ficamos impacientes, porque o cozinheiro adicionava muita pinga na mistura. Finalmente Tota grita:
- Manera aí, ô Galo Cego! Se manca que o bagulho vai ficar fraco demais.
Irritado, o Galo cospe no chão e rosna:
- Você tá ligado que eu manjo da mistura! Portanto, fica na tua e não amola...
Foguinho sorri:
- Esse crack ou invés de ligar, vai dar porre.
Galo Cego não diz nada. Continua mexendo a grossa mistura, tirando a espuma pelas beiradas, acrescentando bicarbonato de sódio e pasta de cocaína. Diz:
- E o Baianinho com seu irmão? Não apareceram?
- Você não tá ligado? Rodaram ontem à noite, nas mãos dos tiras da DRF.
- Não diga! Esses tiras são mesmo uns escrotos. Levam a grana da gente, e ainda recolhem os parceiros.
- É isso aí! Marcou bobeira, dançou. Não tem boi. Os home não dão colher de chá e tem gente que nasce sujo de arara e não consegue tirar o pé do lodo.
Escutei aquilo e imaginei a situação do Baianinho. Veio na piorada da Bahia e conseguiu se atolar mais, no Rio de Janeiro. Chegou sozinho e teve que se valer por si mesmo. E era pouco, na selva de pedra, onde o jogo é bruto e a ordem é a do “salve-se quem puder”.
- O Baianinho era ponta-firme. Encarava a sorte como dava. Claro que se estrepou e saiu no prejuízo. Mas agora, vai ter que segurar as pontas e puxar uma cadeia, de olhos abertos. Aprender os trampos e os macetes e acabar se entortando ainda mais.
- Tem razão! A cadeia é uma maneira muito cara de piorar uma pessoa. Cara demais!
Tota olhou para todos, quando o crack foi resfriado. Sabia o que tínhamos em mente. Aproximou-se do tacho da “pedra”, e começou a cortar e pesar, dizendo:
- Cuidem bem dessa mercadoria. É coisa de primeira, que não se encontra em qualquer lugar.
Negritinho carregou o cachimbo, ateou fogo e passou de mão em mão. Tota ficou com cara de bobo, enquanto todos gargalhavam à sua volta.
- Isso vai ligar no barato, e logo estaremos prontos para umas e outras - disse Babalu.
- Vai devagar! - recomendou Tota, como se preocupasse com o bem-estar dos demais. Parecia o paizão de todos. E, como se quisesse demonstrar que não era controlador, distribuiu o restante da droga, em porções equivalentes para cada um, em separado.
Sentamos no Bar da esquina e pedimos uma cerveja bem gelada. O vento do mar, uiva sobre os telhados de zinco suavizando o calor do verão. Jogamos dominó e discutimos futebol, fumando cigarros e trocando idéias. Poderíamos ficar ali, uma eternidade se não fosse pela passagem da viatura policial; quando nos entreolhamos. Alguém então diz: “- Esses tiras são uns canalhas” - e mergulhamos num silêncio contido.
Negritinho pergunta:
- Vocês viram o que aconteceu com o Zóio?
Todos conhecíamos as façanhas do Zóio. Era um sujeito parrudo que manejava uma arma com incrível perícia. Foi às custas da sua arma que havia feito nome no crime. Transformou-se num bandidão respeitado e temido. Nele, não existia uma mínima gota de perdão. Tudo que conseguira fora na base da violência. E sua maior neurose, era quando alguém duvidava da sua coragem. Teve uma mão, que ele se meteu numa briga de Bar, e acabou matando dois sujeitos na bala. Os sujeitos duvidaram da sua coragem e ele não regateou: sacou da pistola e mandou azeitonas quentes nos dois. Por essa e outras, o Zóio virou o terror do pedaço. Até que se apaixonou pela mulata Florzinha, uma protegida do mestre da escola de Samba. Esperta, ela tirou ele numa boa. Foi levando tudo na inteligência e ele acabou gamado na embaixada da mulata. Ela quis sair fora, mas levou uma prensa e acabou cedendo por força da congesta. Com o tempo, acabou arrastando ele para uma podre. Ela trabalhava na casa de um bacana e deu o serviço: “- Tem jóias e dólares de montão!”
Na verdade aquela lança não podia ser feita com um único homem. Então, ele escolheu o Paraná, um sujeito magro e calmo, que facilmente se deixou convencer que a lança era uma boa. Quando saíram para a colheita, ele notou que o Paraná estava montado:
- Pra quê essa arma?
O Paraná sacou e mostrou a pistola, dizendo:
- Só vou na lança, armado. Vai que acontece um desacerto e os home pintam na parada?
Zóio anuiu pois não tinha a mínima idéia do que estava por vir. Ele sabia que um roubo, às vezes, representava uma desgraça, mas naquele caso especial, a lança estava dada. A mulata havia passado que a família viajava todo fim de semana para o litoral, deixando na guarda um vigia armado.
Partiram para o assalto, que incluía a rendição do vigia e a entrada na mansão. Foi uma moleza, render o vigia e tomar sua arma. Depois, trabalharam apressados no interior da casa, ensacando tudo que consideravam de valor. Na saída, a polícia acionada pela vizinhança, deu voz de comando. Assustados eles se entrincheiraram na residência, e o Paraná revidou com tiros, a investida dos policiais. Quando o Zóio ia pular a janela, foi atingido por um balaço nas costas e acabou sendo levado para o hospital.
Antes de irmos visitar Zóio no hospital, fiquei horas refletindo sobre os perigos de um assalto. Os ladrões conceituados eram para nós, uma espécie de guias e mesmo, uma espécie de bússola para o futuro. Às vezes, zombávamos deles, lhes criticávamos, mas, no fundo, admirávamos eles. A idéia que roubar era uma arte, juntou-se aos nossos pensamentos como uma espécie de sabedoria. Mas o primeiro morto que vimos tombar num assalto, abalou nossa convicção. Tivemos que reconhecer que traficar era menos perigoso que assaltar. Entretanto, as alterações da lei com a criação dos crimes hediondos e aumento das penas, ruiu toda nossa concepção de dinheiro fácil, que o mundo do crime nos havia ensinado.
Enquanto o perigo aumentava, sentíamos que a miséria era a grande ameaça. O pavor da pobreza era mais forte e por isso, saíamos à luta, ignorando os perigos, nos encontrando, sobretudo terrivelmente sós - e, sós, nos tornávamos presas fáceis nas mãos dos chefões do tráfico.
Chegamos ao hospital e constatamos que o movimento era enorme. Os corredores estavam repletos de feridos sobre macas. Perguntamos em vários setores, por Zóio, até localizá-lo na enfermaria de recém-operados. Ele nos recebe, agitando discretamente as mãos e recomenda ao Tota, que apanhe os seus pertences. Explica que além do relógio e carteira com dinheiro, existe também sua arma. Tota concorda com ele, e promete providências. Todos nós observamos que ele parece em péssimo estado de saúde e possivelmente não escapará das complicações pós-operatórias.
- Está sentindo muita dor? - Tota pergunta.
- Não muita. Tiro não dói. O que mais incomoda é quando respiro. Aí, sinto dores horríveis. Só quando respiro...
Olhamos para ele, e um dreno está enfiado no seu tórax, e conduz uma solução sero-sangüinolenta até um frasco coletor amarrado à cama. Confidencio com o Babalu, sobre o que o enfermeiro disse a respeito do Zóio, e Babalu diz para eu ficar quieto, que é para ele não ficar sabendo. Sentimos que sua aparência é terminal. Tubos enfiados no corpo, por todos os lados e respiração convulsa. No rosto já se estampam aqueles sinais característicos que antecipam que a morte tem fome e busca o domínio do ser. Observo atento sua mulata que chora desconsolada ao pé da cama hospitalar, escorrendo a maquilagem dos olhos.
Despedimos desejando melhoras. Na saída, Tota volta-se para nós e diz: “- Categoricamente ele não durará muito. Está liquidado.” Deixamos o hospital sensibilizado. Babalu balbucia: “- Pode acontecer com qualquer um de nós...” Imagino que ele diz a verdade, e sinto uma sensação estranha sabendo que perdemos nossa juventude e nos sentimos em perigo constante.
Capitulo 2
Para mim é estranho pensar que as vezes, a droga misturada com álcool altera as minhas faculdades mentais e me deixa perturbado, tornando tudo irreal de forma que não consigo concatenar os fatos na memória.
Desde que aqui cheguei, a minha vida foi totalmente modificada, sem que eu tenha me dado conta disso. Meu primeiro contato foi com o Zé Flautinha. Na época tínhamos a mesma idade, 15 anos. Era veloz no lombo de uma moto, e ganhava todos os pinotes. O morro vivia na maior guerra e a polícia estava sempre por perto. Pra não entrar em ‘cana’, me escondia no buraco da lacraia, na casa do Gersão. Ele não gostava de assaltar. Seu negócio era a punga, que praticava nos trens da central. Ele tinha uma mão de pluma, e um coração apaixonado e quem desgraçou a sua vida, foi uma tal de Regina Peitada. O Gersão perdeu as estribeiras depois que ela trocou ele por um garotão de praia. Aí, a coisa fedeu.
A vida ali, era sempre cheia de confusão. Às vezes, procurávamos um motivo, uma explicação para continuarmos naquele caminho, mas não conseguíamos encontrar. Particularmente para nós, era uma vida confusa que eles chamavam de “Juventude drogada”. Os criminosos mais velhos, possuem laços firmes com o passado. Estão no crime desde crianças e já criaram laços tão fortes com a criminalidade, que é impossível para eles, abandonarem a profissão. Nós, entretanto, entramos nessa de embalo e renegamos a orientação dos nossos familiares - porque na nossa idade, é bonito ser rebelde, desobedecer aos pais, e não ser dominado pelas namoradas. Tudo que desejávamos, era curtir a vida com intensidade, buscando uma fuga nas drogas como uma espécie de fantasia. Vivíamos uma realidade ilusória. A droga foi uma rasteira que a vida nos aplicou. O tombo foi grande; e pior, não tínhamos a mínima idéia onde poderíamos chegar. Apenas sentíamos que nos embrutecíamos à cada momento, de maneira irreversível, estranha e dolorosa; mesmo que nem sequer nos déssemos conta disso.
As condições de vida ali, eram as mais precárias possíveis. Os becos eram imundos, os casebres horríveis e o calor, infernal. O ambiente parecia em constante ameaça. A malandragem zanzava suando em bicas, debaixo de um calor vulcânico que emanava dos tetos de zinco. Do lado de fora, uma moçada batia uma bola num terreno baldio, fazendo uma algazarra dos diabos. O Lico, que era um tipo nervoso, se emputeceu com o barulho e resolveu acabar com a pelada. Deu um chutão na bola, e disse para todos se mandarem. Ninguém reagiu, e o caso pareceu encerrado. Não estava. Na continuação o Pancada que fazia parte do grupo, declarou guerra ao Lico. Se encontraram e a chapa esquentou. Foi um festival de chumbo trocado. As balas saiam assobiando. Ninguém deu trégua. Então, uma chumbada acertou um cachorro que passava. O bicho saiu ganindo, deixando escapar toda a lamentação do mundo. O tiroteio entrou em pausa, e todos caíram na risada; depois esticaram as mãos e apertaram novamente os gatilhos, emendando o bangue-bangue, até que as balas se acabaram. Aí então, nossa turma cercou o Pancada e caiu matando de socos e pontapés. Obrigamos ele ficar nu e zoamos ele no barato. Ele pediu ‘pelo amor...’ e deixou cair sua arma. O Babalu correu para apanhar, mas um pivete magrinho e esperto, correu na frente e apanhou a PT. O Pancada saiu reclamando falando um montão, prometendo correr atrás do prejuízo.
Havíamos perdido a noção do certo, do errado e das normas do convívio social. Só a nossa realidade importava. Abominávamos os conceitos artificiais, e tudo era o resultado de um aprendizado maquiavélico. Quando iniciei no crime, não passava de um jovem imaturo que havia se barbeado pela primeira vez. Não alimentava nenhum plano especial para o futuro, e sequer tinha qualquer noção de uma profissão capaz de garantir a existência. Entretanto, minha cabeça estava sempre cheia de minhocas, que alimentava “castelos” e sonhava com a fortuna de forma idealista e romântica. Assim que cheguei, recebi duas semanas de instrução de “malandragem”; onde aprendi mais sobre a vida, que durante os anos de convívio familiar. Aprendi que o suborno pode ser tão importante quanto uma licença para roubar. No princípio, fiquei chocado com aquela estranha realidade, mas logo, estava indiferente à medida que fui me conscientizando de que a educação não era o essencial, mas sim o poder da arma; não a inteligência mas a liderança; não a felicidade, mas o dinheiro. Foi com entusiasmo e boa vontade que me tornei soldado do tráfico; para mais tarde me arrepender; e fazer de tudo para sair daquela vida. Simplesmente, eu não conseguia entender como uma favela, repleta de barracos tivesse tanta importância para nós, muito mais que nossos verdadeiros lares.
Com o passar do tempo, a minha visão foi clareando e comecei a enxergar que estavam me preparando para missão às vezes, suicida; como se prepara cachorro para briga. Nessa época o Foguinho ainda não assaltava. Rodou nas mãos da polícia e levou um pau de dar dó. Acabou se transformando em bandido sanguinário; do tipo que troca tiros com a pesada e barbariza posto policial. O Foguinho era um tipo alto, forte e de cabelos avermelhados, que não tava nem aí. Um dia, resolveu atacar uma ‘boca’ rival e pegou muitos tijolos de maconha. O caso foi levantado pelo pessoal de comando, e deu a maior cagada. O pau comeu na casa do Foguinho. Ele devolveu tudo e ainda escutou groza: “Sujeito esperto que assalta boca de aliado, não merece consideração”. Ele não disse nada. escutou tudo, olhando fixo para o chão.
Era assim a nossa gangue. Não passávamos de uns otários, metidos a valentões. O Negritinho era um sujeito simples, humilde, que não tinha pinta de bandido. Ninguém suspeitava dele. Era um irmão de cor, do barulho. O Babalu, era o maior barato. Um tipo com cara de lua, sardento, cabelos rebeldes encaracolados e pele bronzeada. Era um leve na pesada. O Mané Gordo um outro metido a bocó, era o mais velho de todos, que acabei tomando bronca dele, por ter matado um malandro que a gente gostava, enquanto estava bêbado. Outro que eu admirava, era sem dúvida, o Tota. Fugiu várias vezes da cadeia, e só matou o Luizão, porque esse o desrespeitou. Foi logo dando um tiro na bunda do vagau, que berrou e pediu arrêglo. Depois, na covardia, tentou reagir. Acabou levando uma saraivada de chutes e pontapés, que o deixou feito cobra que leva pancada na cabeça.
O Galo Cego, era conhecido como o sujeito mais “sujo” do pedaço, e orgulhava-se de ser assim. Baixo, atarracado e com olho esbugalhado que lembrava jaboticaba, estava sempre na nossa, visando especialmente João Beretta, Babalu, Zé Flautinha e a mim, porque sentia nosso mudo desafio. Já fui obrigado remontar uma metranca oito vezes numa tarde. Ele era o encarregado pela manutenção do armamento e sempre achava que alguma coisa não estava bem. Por várias vezes, implicou comigo e me obrigou a repetir todo trabalho, por inúmeras vezes. Outra mão, levei uma dura danada quando fui flagrado queimando um baseado. Ele apareceu no ‘sapatinho’ e nem tive tempo de engolir a mutuca. Pedi uma oportunidade. Jurei que não ia botar mais a erva maldita na boca, e ele deixou barato. Depois, ele deu outro ‘flagra’, semanas após. Passei a maior vergonha e fiquei sem palavras. Aconteceu no barraco do Flautinha. A gente estava curtindo o ‘pau-podre’ em alguns companheiros. Aí o Galo surgiu de repente e meteu o focinho na fresta da janela. Olhou pra nós, e fungou a narigueta. Eu senti um arrepio e suei frio. Ele pigarreou a garganta e comentou com seu jeitão desengonçado: “Eta fumaça fedorenta! Parece até pano sujo queimado!” Depois, encarou nós todos e vomitou: “- Da próxima vez que pegar vocês marcando bobeira, vai ter! Ah, se vai!”
Numa outra oportunidade, Tota e eu estávamos praticando tiro ao alvo, no alto do morro numa quebrada chamada “Gruta maldita”, quando o Galo apareceu turbinado. Plantou-se na nossa frente e exibiu sua ótima pontaria. Sacou seu ‘trêsoitão’ de sete polegadas e atirou até acabarem as balas. Foram seis tiros certeiros que atingiram o alvo, um ao lado do outro. Eu e o Tota, ficamos arrepiados. O Galo não era fácil. Enchia o saco da gente, mas tinha lá o seu valor. Todos sabiam que ele havia peitado muitos valentões, nos tempos em que o morro era terra de ninguém. Foi nessa época, que levou um tiro de raspão no olho, e perdeu a vista esquerda. Contam que o Espoleta tinha ripado o Bicudo no Turano, e pedido pela Justiça buscou refúgio por aqui. Galo mandou recado pra ele se pirulitar do pedaço. Espoleta não deu bola, e ainda levou uma pra cima do Galo. Irritado, ele disse: “Ai Espoleta, eu avisei pra se mandar daqui, sacou?” O Espoleta riu e respondeu: “Tu é grande mas não é dois...” Ai o bicho pegou feio. Galo sacou sua turbina e meteu bala no Espoleta. Levou vários furos no peito, e caiu estrebuchando no chão. Depois, berrou e pediu ‘pano’. Não adiantou nada. Caímos matando sobre ele, transformando sua cabeça numa bola de futebol. Quanto mais urrava, mais chute levava. Foi barbarizado, até desfalecer e morrer, feito cobra venenosa.
Depois disto, a gang do Espoleta resolveu se vingar, metendo broncas e apavorando a população. Nossa turma resolveu peitar os caras. A disputa durou meses, com a moçada não dando mole e atirando para matar. Tota não perdoou. Apareceu maquinado e meteu um balaço no Licão, que era considerado o braço direito da Espoleta. Ferido, o Licão pediu arreglo prós homens, e sua traição surpreendeu a malandragem do morro. Todos ficaram revoltados, pois não existia esse negócio de “ganso” naquela época, como existe hoje em dia. E deduragem, era pecado mortal. Todos os moradores sabiam disso. Tanto, que quando a polícia chegava os moradores ficavam de boca fechada e não sabiam de nada.
Enfrentando essas paradas quase diárias, nos tornamos duros, desconfiados, impiedosos, vingativos e brutais - e isto foi fundamental para moldar nossa personalidade. Se não tivéssemos passado por essas disputas e por esses treinamentos de formação, certamente, a maioria de nós já estaria morta ou na cadeia. Estávamos prontos para o que desse e viesse. Firmeza total! Podíamos suportar todo tipo de pressão; e éramos capazes de ser maleáveis: Lobo em pele de cordeiro. Quem olhasse pra gente, não aquilataria que apesar da nossa pouca idade, éramos tão perigosos quanto experimentes na arte do crime. O mais inusitado porém, foi que o ‘agito’ daquela nossa vida atribulada, despertou em nós uma tenacidade firme e forte, que nas escaramuças do tráfico, se transformaria na melhor arma que necessitávamos: a lealdade.
Capitulo 3
Bateu sujeira no caso do Espoleta e toda a cana saiu na captura do Galo Cego. Acuado, ele pinoteou indo se mocozar no barraco da Cidinha. Nem bem o sol se escondeu, quando a cana piou na bocada, e assustou o Galo no grito: “- É cana, malaco! O barraco tá cercado. Se sair numa boa, será poupado. Se reagir, vai pró saco.” O Galo sentiu que o jogo estava perdido. Gritou: “- Quem tá aí no comando?” “- Aqui é o Santana que tá no comando. Saía numa boa e não será esculachado”. Ele conhecia o Santana. Um tira experiente, corajoso e que gostava de aparecer nos noticiários, mas não era adepto à tortura e nem gostava de humilhar o preso. O Galo então gritou: “- Na moral, Santana!?” “- Pode sair na moral, que ninguém vai ralar a mão em você. Tem minha palavra”. Como resposta, o Galo jogou a pistola pela janela e saiu com as mãos para cima. Os tiras meteram as algemas e o conduziram até o camburão da polícia.
Galo Cego rodou numa boa. Acontece quando o sujeito não leva muita sorte. A sorte é importante, mesmo quando se está do outro lado da lei. Existe por aí, um monte de gente como ele. A cadeia não me deixa mentir. Depois, a polícia intensificou as buscas. Disseram que prender toda a quadrilha, era ponto de honra. Ai então, o ambiente ficou saturado por conjeturas e comentários. Isso fazia com que todos ficássemos temerosos. Podíamos observar a movimentação das viaturas morro acima, e sentíamos o cheiro antecipado de pólvora no ar. Alguns tiros são disparados. O eco se espalha assustadoramente vielas adentro fazendo tremer as pessoas assustadas. Em cada rosto pode-se ler o ódio pela polícia. Mas nós, que já tivemos tantos enfrentamentos, não nos deixamos assustar. Tota escuta e diz: “- Estão atirando com oitão. Posso distinguir pelo eco do disparo”. Olho para os companheiros e sinto que estão relaxados e tranqüilos; quase indiferentes. A consciência do perigo estabelece uma expectativa vigilante com aguçamento dos sentidos. O corpo fica relaxado, preparado para o que der e vier. Tota volta-se para todos e diz: “- O bico vai pegar”. A frase atinge a todos, com a agudeza de uma facada. Atravessa nossos pensamentos e balança nossos inconscientes. Confuso, Babalu deixa escapar: “- Não vou me entregar. Comigo é na bala...”. Sinto que o perigo ronda, e para relaxarmos entregamos às drogas. Tota prepara uma ‘bomba’ de ‘craconha’ que passa de mão em mão. Logo, sinto sua força, na aspiração que bate fundo no cérebro. Como uma estiletada sonora que me fornece forças defensivas. Para nenhuma pessoa a droga é tão importante quanto para um viciado. Quando ele aspira a fumaça com sofreguidão, quando ele entrega seu ser na angústia da dependência do vício; ai então, a química é seu único amigo, seu irmão, sua família. Nela ele afoga sem medo, e se agarra na sua segurança; ela o acolhe e o libera para mais alguns momentos de euforia, e depois o deixa entregue à sua depressão; às vezes, numa completa nóia.
Com um pulo para o lado, desvio de um balanço que atinge as proximidades. É o instinto animal que parece me proteger. É algo quase automático. Inconsciente que zela pela minha proteção, como um sentido clarividente que me defende, sem que saibamos como. Fumo novamente a minha droga, e sinto que já estou tão inteiramente entregue ao vício, que nada mais me afastará daquele “paraíso artificial”. Ela é algo precioso que eu guardo como um tesouro. Seu efeito estupefaciente, sua atmosfera de liberação me conduzem a um delírio romântico. Muitas vezes, me perguntam como e por que me tornei um viciado. Imagino que foi algo que chegou gradualmente, como alguém que penetra um desconhecido, tendo pleno conhecimento dos perigos que pretende desafiar. Ou, quem sabe, por pura ignorância de tais perigos. Foi isso que aconteceu. Foi opção minha. Se antes de iniciar eu soubesse os danos que ela causaria à minha saúde, teria pensado duas vezes, antes de iniciar. Entretanto, uma vez usada, sentia os seus poderes para me “ligar” e tirar fora da deprê, estimulando minha capacidade de gozo; e satisfazendo a necessidade, que todos os homens sentem, de segurar por 24 horas consecutivas, as suas energias animais. A manutenção dessas energias, me possibilitam um poder extra de gozo de qualidade superior. E por que não usar? Se é algo proibido e culposo, o que dizer então do álcool que ingerimos socialmente? Será que o álcool também não é uma droga? Não: todos nós, nos enchemos de álcool sem precisar da desaprovação da sociedade. Esta aprovação deveria estender-se também às drogas. A proibição é o estopim do desejo. Pois, é sabido que a maconha faz menos mal à saúde, que uma proporcional quantidade de álcool.
Em verdade, o poder fascinador das drogas é admitido nas classes intelectuais, que procuram não divulgar o assunto, para evitar que pessoas mergulhem na experiência. Pois, como alertam os médicos: tendo a cocaína muitas propriedades benéficas, se fosse universalmente conhecida, levaria à dependência rapidamente... E o resultado desse conhecimento, secundária numa desgraça geral”. Entretanto, gostaria de dizer aqui, que minha experiência com as drogas, teve sim, o seu lado positivo. Elas foram o mais poderoso agente contrário para controlar meu nervosismo e aplacar o tédio da minha vida solitária. Além disso, confesso que jamais dei créditos às denúncias da mídia, ignorantes quando não hipócritas, infantis quando não desonestas, para desmoralizar e desestimular sua aceitação.
De certa maneira, todos os medicamentos terapêuticos, são drogas que visam aliviar o sofrimento peculiar de determinadas moléstias. Por que não consideram também, num sentido especial, as drogas que aliviam o sofrimento do tédio da vida? Inquestionavelmente, a maconha e a cocaína, têm o maior campo de ação no combate à depressão. São tão eficazes que, chegaram a ser utilizadas nos rituais incaicos, por sacerdotes e por inteligências liminares, como Freud e outros.
Mas, por que cheguei às drogas? De onde se originou? Causada por que? Causada, posso afirmar, pela solidão de minha juventude abandonada. Aliás, as desgraças foram tantas que me entreguei às imperdoáveis loucuras que me arruinaram. Porque foi possível que um jovem adolescente por uma cegueira momentânea, ouvindo sugestões alheias, desse um passo errado e mudasse as correntes do destino, envenenando a fonte da sua paz num piscar de olhos, para no final, acumular arrependimentos para o resto da vida. Foi o que aconteceu comigo. Não desejo aqui, fugir da responsabilidade; e sim, remontar a motivação que me conduziu à este caminho. Admito que as angústias e sofrimentos do meu abandono na juventude, aliada à minha loucura, foi a motivação. O que reconheço, merece desculpa, não foi ter recorrido às drogas como único remédio e sim, as loucuras que produziram o mal. Reconheço que depois de me tornar um usuário regular de cocaína e até cair no excesso, por duas vezes, consegui parar e até, diminuir as doses. entretanto, não consegui parar completamente, por mais que tentasse. E isso, é o que merece pena.
Estamos sentados no Bar da esquina. Até que enfim, Tota está de bom humor, e começa a contar a confusão que aconteceu no dia anterior, entre uma mulata chamada Vera e o Valentão Tuiuiú. Ela conseguia um amante e os dois disputaram a preferência dela. Tuiuiú sacou uma peixeira e o desafeto, chamado Belo, segurou o braço dele. A briga foi apimentada. Parecia roda de capoeira. Um gingava e o outro se defendia. Curtiram a física assim, uns dez minutos. Até que a turma do deixa-disso, entrou na parada, e foi cada um pró seu lado. Entretanto, antes de se afastar, Tuiuiú espetou violentamente o traseiro do Belo, provocando um ferimento extremamente doloroso. Ele teve que ficar três dias no hospital, deitado de bruços até o ferimento cicatrizar.
- Você conhece esse Tuiuiú? - perguntou Lico.
- Só de ouvir falar, disse Tota, é um maconheiro, assaltante de ponto de bicho, um cara perigoso que já esteve em cana. Mas parece, que hoje ele anda dentro da lei, quero dizer, mais ou menos...
- O que você considera mais ou menos?
- Antes, dizem que ele era ruim. Que assaltava, zuava e matava. Mandava e desmandava no morro. Até que um dia, os homens botaram as mãos nele, após um enfrentamento à bala. Pra botar ele no camburão foi preciso cinco, e assim mesmo só entrou desmaiado.
- O cara é mesmo fera, não é?
- Bota fera nisso! Hoje, anda aí na moral. Ficou amigo da moçada do morro; mas não afrouxou. O Belo foi se meter com a mulher dele, e se deu mal. Levou um boi, de não ter morrido.
- E essa Vera, tá com a bola toda?
- É uma coroa que, depois de criar vários filhos dos muitos maridos que teve nos caminhos esquisitos, acabou vindo parar aqui no morro, conhecendo o Tuiuiú. Dizem que fez macumba pra ele.
- Macumba? Com quem?
- Inconformada com a solidão e velhice, recorreu aos serviços de uma mãe de santo, e parece que se deu bem. Parece que foi macumba da pesada pra amarrar homem. Pelo menos, é o que dizem por aí...
- O povo daqui, acredita em qualquer bobagem. Não curto muito essa coisa de magia. Me dá arrepios só de ver mulher torta com charuto na boca, velho comendo galinha preta crua, criança com vela na mão. Enfim, tudo que acontece numa sexta-feira, à noite.
Silenciamos. Depois, Tota faz có-có-ri-có com a garganta, e sugere:
- Que tal um churrasco de penosa?
- É uma boa - respondo.
Eu e o Flautinha fomos os escalados para afanar as penosas, no depósito de um aviário na descida do morro. Recebemos dicas de como agir, de como pular o muro sem sermos vistos.
Chegamos ao local e pulamos o muro. Fico imóvel tentando reconhecer o local na escuridão. Consigo visualizar o poleiro das galinhas ao fundo. Rapidamente, eu levanto a tranca, entro e tento pegar algumas. Dou um pulo, e agarro três delas, que começam a debater-se e fazer barulho. Ajo rapidamente, tentando imobilizar as asas que não param de bater. De repente, escuto o latido de um cão, que cerca o poleiro. É um vira-lata branco, que tenta forçar a porta de entrada. Saio desesperado, segurando as penosas, enquanto o Zé Flautinha cuida do cão. Ele parte pra cima do animal com um pedaço de madeira, dá umas pancadas e o danado sai ganindo com o rabo entre as pernas. Jogo uma penosa nos peitos do Flautinha e ele agarra como uma bola de futebol, e desatamos a correr. Chegamos assustados onde Tota está, já com a água quente no fogo. Torcemos os pescoços das galinhas e escaldamos para tirar as penas. Depois, preparamos o assado. Um cheiro de churrasco, logo inunda o ambiente e sorrimos bastante, enquanto mastigamos. Tota rasga uma coxa com os dentes, olha pra gente e diz:
- Pintou uma lança quente. Um caminhão carregado de secos e molhados. Segundo o intrujão, ele para no posto, antes de descarregar no supermercado.
Nem precisava dizer que estávamos escalados, e que a fita seria tomar doce de criança. Tota ressaltou que essa seria uma ótima chance pró Flautinha mostrar que era ponta-firme e marcar presença com a moçada. Esta seria sua hora da verdade e não podia dar mancada. Se fizesse besteira, acabaria em cana e viraria esparro de malandro. E lá fomos nós, ficar de tocaia, aguardando...
De repente o caminhão apareceu para abastecer. Zé Flautinha conferiu a placa e disse:
- É ele mesmo! Vamo nessa! - sacou a arma e completou - Me dá cobertura e não tenha pena do otário.
O caminhão rolou pra a estrada e Flautinha subiu no estribo, meteu a arma na cara do motorista e gritou:
- Para essa merda!
O motorista fez cara de invocado e obedeceu. Nós entramos pela outra porta, e Flautinha disse:
- Aí ó meu! O que a gente quer não é teu. Ninguém vai sair no prejuízo, pois o seguro paga tudo. Então, não vá querer bancar o herói porque comigo defunto não sofre.
Com essa congesta, o motorista tremeu na base, e obedeceu. Dirigiu o caminhão até o local indicado na Barra, onde estava o galpão do intrujão.
Enquanto descarregávamos a mercadoria, o motorista passou a mão numa barra de ferro e pensou que podia desarmar o Flautinha, que era magrelo e pequeno. Fortão e grandão, o motorista atacou de raspão. Flautinha foi rápido e botou o sujeito na mira, mas ainda não era um matador experiente. O motorista sentiu o vacilo no olhar dele, e partiu pra cima. Eu gritei assustado:
- Atira cara! Atira, senão ele te acerta.
No susto, o Flautinha apertou o dedo. O balaço atingiu o motorista no peito, que se contraiu e desabou. Assustado, Flautinha entrou em pânico, boquejando:
- Matei ele? Será que matei?!
Eu o abracei e saímos do local. Pegamos um ônibus e sentamos no fundo. Flautinha estava mal, reclamava ter o estômago enjoado e parecia querer vomitar.
- Na primeira vez é assim mesmo - eu disse - depois, a gente acostuma. O toque está morto, e já era...
De volta, bebemos algumas cervejas para comemorar o batismo de fogo do Zé Flautinha. Tota disse:
- Comigo aconteceu o mesmo. Quando apaguei o primeiro cara, vomitei, rezei pela alma do desgraçado e até tive pesadelo. Depois do terceiro, peguei o gostinho. Hoje, não sinto o menor peso.
Cumprimentou Flautinha, dando gargalhadas. Uma criança saiu de um barraco correndo atrás de outro gritando: “pá pá pá pá. Minha imaginação foi longe e refleti sobre aquela garotada pobre que não quer nada com os estudos. Que correm pra lá e pra cá, brincando de bandidos e mocinhos, e quando cresceu, dificilmente viram mocinhos. Reflito que a malandragem não tá com nada. Só pensam em assaltar e zuar, de forma sanguinária e covarde. Mata-se à troco de nada... É estranho que minhas reflexões tenham sempre características mórbidas, e que conduzam sempre à entrega, a esta sedução que meu organismo não consegue abandonar, que são as drogas, que me conferem uma estranha melancolia, despertando menos o desejo do que a tristeza. Um mistério que me atrai, que temo e que amo sem esperança. Ela é poderosa como é poderoso o meu desejo, mas incontrolável como todo mundo sabe - impossível de parar para alguns...
Imagino, se a minha vida mudasse e eu voltasse a uma juventude normal, certamente eu não saberia o que fazer dela. A minha personalidade havia já sido moldada de tal maneira para o lado anti-social, que não poderia mais renascer. Simplesmente, não consigo me ver sem a comunhão, a harmonia e a fraternidade dessa vida marginal, onde nos deixamos subjugar pelos acontecimentos agitados e nos perdemos neles de forma infinita. Sem vislumbrar nenhum limite e jamais admitindo um fim. Vivendo numa terrível indiferença: desamparados como jovens e experientes como velhos. Somos, às vezes, primitivos, violentos e superficiais... Perdidos na vida.
Enquanto reflito, um pivete maltrapilho me aborda e pede um trocado para comprar pão. Meto a mão no bolso e retiro uma moeda de real. Tota observa meu gesto e registra: “- Ao invés de dar o peixe, ensina a pescar”. Viro meu copo de cerveja e pergunto:
- Ensinar a pescar, como?
- Ensinar a arte de roubar. O futuro desses lesados aí, está no crime. Não tem saída. Aconteceu comigo.
- O que aconteceu? Como foi?
E acabou contando. Disse que aos 11 anos, recebeu de um marginal de presente, um canivete japonês do tipo que a lâmina é acionada por um botão no cabo:
- Meu primeiro assalto foi com o canivete. Apontei pra barriga do Gringo na praia, apertei o botão e a lâmina pulou pra fora do cabo. Eu tava tão apavorado que tremia a mão. O gringo se movimentou e enfiei a lâmina de raspão. Ele entregou a carteira e saí avoado.
- Quando você matou o primeiro?
- Aconteceu no Meier. Agüentei o portuga do Bar e o danado não acreditou. Partiu pra cima, pra tomar o canivete. Pra não morrer, tive que matar. Na hora do assalto, se a vítima reagir, não tem boi, viu? Você devia ver a cara dele, quando enfiei o canivete até o cabo.
- E o segundo?
- Aí já aconteceu com a pistola. Uma sete meota, maneira. O loque reagiu e foi só apertar o gatilho, né? Escondi ela no lenço e joguei no rio. Foi uma pena!
- Já teve que barbarizar otário?
- Quem não teve? As vezes, não basta assaltar. As vezes, a gente tem que zuar otário que não acredita. Eles olham pra gente pequeno e raquítico e pensam que nós não somos de nada. aconteceu numa mansão em Santa Tereza. Caímos pra dentro da goma e o sujeito não queria abrir o cofre. Dizia que não sabia o segredo. Tiramos gasolina do carro e untamos sua esposa e filha. Quando acendemos o fósforo, ele se lembrou rapidinho da combinação. Antes de sair, demos um banho de gasolina nele, só de raiva. O bicho chorou feito criança, pedindo pelo amor pra não matar ele...
- As vítimas reagem sempre?
- É incrível como as pessoas são apegadas às coisas materiais. Reagem por bugigangas. Dão braçadas pra tirar a arma da mão de bandido... é ignorância total! Pra quê? Não conseguem e acabam irritando o ladrão. Ora, é idiotice! No final, acabam roubados e ainda apanham...
- Quantos assaltos você fez?
- Perdi a conta. Acho, que mais de cem. O estranho é que não consegui juntar dinheiro. Tudo que ganhei, foi pró bolso do traficante. Gastei tudo com mulheres e drogas. Eu não roubava apenas para comer, assaltava para me drogar...
- Como você escolhia às vítimas?
- Ao acaso. Olhava pró carrão do sujeito, pras jóia no corpo e sabia logo que era a presa fácil. A vítima ideal, é o pai de família rico que tem tudo a perder. Assaltar operário é fria. Eles não acreditam. Por causa de um relógio velho avançam pra cima da arma. Pra não matar o loque, a gente tem que meter a turbina nos cornos dele, chutar a bunda e dar uma piaba geral pra aprender respeitar bandido, né?
- Vejo que assaltar não tem futuro.
- Concordo. Só consegui mixaria. Só tem futuro se derrubar banco. Aí, a coisa compensa. É o maior barato! Fora disso, o crime só tem futuro mesmo, no tráfico. Aí, é lança alta!
O Tota era um ídolo para nós. E ele se achava bons de verdade. Capaz de fazer e acontecer. E por essas e outras, a gente sempre embarcava nas embaixadas dele.
- Aí, ô moçada. - Ele disse - Que tal a gente dar um rolê em São Paulo, e tomar uma bocada de drogas?
Explicou que os donos do nojento tráfico eram todos paus-de-mando e completou dizendo:
- Negócio ilegal não tem dono. Ninguém vai chiar. Ademais, podemos meter a lança, disfarçados. Não vai haver reconhecimento, e a gente vai botar as mãos numa erva prensada no mel, fácil de comercializar.
Não foi difícil convencer a todos, e partimos para SAMPA. Tomar a diaba dos paus-de-mando, foi a maior moleza. Nosso grupo tinha valentia e metemos os peitos. Saímos da periferia com a mala do carro atopetada de drogas até às bordas. Embucetamos pela via Dutra e, sem parar rodamos na maior calma, parando nos pedágios sem estrilo até atravessar a divisa Rio-São Paulo, e ficamos entregues à própria sorte, transformados em animais. Queríamos sobreviver a qualquer preço, por isso não podíamos marcar bobeira. Tota aciona o celular e depois diz:
- Encontrei um comprador para a mercadoria. Ele quer que a gente entregue a droga, na quebrada dele.
- Por quê? Não parece normal - retruca Flautinha.
- Ele disse que tá pedido pela polícia e pelos rivais, e não quer se arriscar. Não se importa em intrujar a mercadoria, mas não quer que ninguém saiba.
- Vamo nessa! - eu disse - Qual é a quebrada?
- No Jacaré. Ele está esperando com a grana.
- Não é aquele nego mau? Um tal de Babú?
- Como é que você adivinhou? É ele mesmo.
- Escutei que ele é cheio de tretas. Andou atravessando os grandes do tráfico, e eles endureceram pra cima dele para dar o exemplo. Agora, compra no cambalacho...
Pisamos fundo e seguimos desconfiados. Pela cabeça nossa passava a idéia que, se conseguíssemos chegar ao jacaré e entregar a mercadoria sem xaveco, sairíamos bem e ficaríamos numa boa. Nessa crença nos agarrávamos e acelerávamos o carro. No começo da tarde, chegamos na subida do morro. Paramos num Bar para tomar um refrigerante e escutamos do portuga, dono do boteco: “- Num tô querendo apavorar vocês, mas se não cuidarem podem acabar sem os pneus do carro, e se ciscar perdem o carro todo e até a vida. A turma, daqui é da pesada. Uma vida a menos, não faz diferença”.
Eu e o Flautinha trememos nas bases. Apesar de estarmos “montados” ficamos na dúvida, entre o ir ou não ir. Foi preciso o Tota dizer: “- Quequinhá, deu paúra?”
O Flautinha nem bufou. Pulou no acento do carro e colocou seu revólver no jeito. Ficou ligadão para não ser colhido de surpresa por alguma chavecada. Não rodamos nem cinco minutos, quando Tota percebeu a treta. Viu um grupo de soldados do tráfico, aparecer montados em AR-15 e pistolas automáticas. A tensão toma conta de mim, e não consigo controlar meu pensamentos. Escuto quando eles dizem:
- A gente não quer ripar vocês. Podem saltar e ir dando o fora. Quem reagir vai comer capim pela raiz.